Flávia Gândara, estudante da Unesp de Bauru, viveu um relacionamento abusivo por 5 anos

Flávia Gândara, estudante da Unesp de Bauru, viveu um relacionamento abusivo por 5 anos

Muitas pessoas, geralmente mulheres, independentemente da idade, já passaram por algum relacionamento abusivo, ou seja, uma relação cujo excesso de poder sobre o outro causa consequências à vítima, seja por um abuso físico, psicológico, econômico ou sexual.

O psicólogo Florêncio Costa Junior explica melhor o que caracteriza cada tipo de abuso: “o abuso físico ocorre quando alguém causa ou tenta causar dano por meio de força física, de algum tipo de arma ou instrumento que possa causar lesões internas, externas ou ambas. O abuso psicológico se refere a toda ação ou omissão que causa ou visa causar dano à autoestima, à identidade, ao bem-estar ao desenvolvimento da pessoa. O abuso sexual é todo comportamento pelo qual uma pessoa, em situação de poder, obriga uma outra à realização de práticas sexuais, utilizando força física, ameaças, armas ou drogas. O abuso econômico implica em controlar a/o parceira/o por meio da supressão econômica. Nesse tipo de relacionamento existe um ‘desejo’ exagerado em controlar a/o parceira/o, de ‘tê-lo/a para si’. Esse comportamento, geralmente, inicia de modo sutil e aos poucos vai se tornando excessivo, causando sofrimento e mal-estar. De modo geral são relacionamentos marcados por desigualdades de direitos e pelo cerceamento da liberdade de expressar-se e conviver com outras pessoas”.

Nossa equipe conversou com duas moradoras da cidade que passaram por essas situações e enfrentaram diferentes formas de abuso em seus relacionamentos amorosos. A jornalista Ana Carolina Monari contou que foi usada por seu namorado, que sempre a colocava para baixo, afetando sua autoestima e se sentindo culpada pelo término da relação. “Ele me fazia sentir como se só existisse ele como homem no mundo, tanto que, quando terminamos, eu não conseguia ver que eu podia ficar bem sozinha e eu achava que a culpa do término era minha. Quando terminamos, ele também me usava para curar suas ‘carências’. Tanto é que mesmo depois de terminar comigo, ele ainda me enrolou por um ano, me fazendo acreditar que iriamos voltar, o que foi péssimo…”, relembra.

Por sorte, Ana logo percebeu que as situações que vivia estavam erradas, principalmente após ter conhecido o feminismo, movimento que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Quem também passou por situações de abuso é Flávia Gândara, estudante de Bauru, que sofreu com um relacionamento por cinco anos, principalmente, por conta de manipulação psicológica. “Ele falava com várias mulheres que gostavam dele ao mesmo tempo, me contava sobre todas elas (e isso me fazia, cada vez mais, buscar artifícios e me entregar mais a ele para conseguir ter o seu amor, que parecia como um prêmio). Ele me manipulava de uma forma tão sutil, que, muitas vezes, eu me sentia errada por ter nascido; não me sentia merecendo o amor dele, por mais que eu me doasse inteira à relação”, conta.

As duas jovens resolveram expor suas relações, participando de um movimento que aconteceu no Facebook, a partir da hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo, na qual várias mulheres do País disseram e relataram situações de sofrimento que enfrentaram no passado. “Eu decidi publicar o texto quando eu vi o de outra jornalista aqui de Bauru. Eu vi o texto dela e percebi que também poderia ajudar outras meninas que passaram pela mesma situação que eu. Essa história me machucou tanto, me fez tão mal por tanto tempo, que não é algo que eu queira falar, sabe? Mas vendo aquilo, me deu forças para ajudar outras meninas… e quem sabe libertá-las” e Flávia completa: “eu precisava falar para o mundo sobre o que eu estava passando. Eu não estava conseguindo conviver com toda aquela dor sozinha. E foi aí que mulheres maravilhosas começaram a me apoiar, começaram a se aproximar de mim e me dar muita força e carinho. Exemplos lindos de sororidade e empatia.”

O psicólogo dá alguns alertas sobre como identificar os abusos na relação e como a vítima deve agir nestes casos:

Quais os sinais que são possíveis identificar no relacionamento?
“Os principais indicativos de uma pessoa abusiva são: ciúme e possessividade exagerados; controle sob as decisões e ações da/o parceiro; querer isolar a/o parceira/o de amigos e familiares; ser violento/a verbalmente e/ou fisicamente; e pressionar ou obrigar a/o parceira/o a ter relações sexuais. Importante ressaltar que a humilhação é uma forma muito comum de abuso, mesmo quando essa humilhação ocorre por meio de comentários depreciativos que visam inferiorizar a/o parceira/o. Pessoas que vivenciam relacionamentos abusivos geralmente apresentam sequelas emocionais tais como: problemas com sono, transtornos alimentares, insegurança, depressão, pensamentos suicidas e crises de choro.”

Tem alguma faixa etária que é mais comum?
“As mulheres jovens são mais expostas às experiencias afetivas abusivas. Essa vulnerabilidade se dá pela combinação de aspectos culturais relacionados a educação machista e às práticas sociais que prescrevem um modelo de masculinidade e feminilidade alicerçadas em relações de poder desiguais. Infelizmente, vivemos em uma cultura que valoriza um modelo de “ser homem” que inclui comportamentos violentos, agressivos e de assédio.”

E o que as pessoas mais próximas, como pais e amigos, devem fazer para ajudar?
“As pessoas próximas podem ajudar a vítima a reconhecer sua situação. Muitas pessoas se acostumam com as experiências abusivas e podem passar a acreditar que o abuso faz parte do amor e que é o preço para ser amada/o. Desta forma, aqueles que estão próximos podem ajudar a vítima na tomada de consciência sobre sua condição. O apoio familiar, dos amigos e conhecidos também é fundamental, pois podem prover segurança, acolhimento e oferecer um ambiente livre de julgamentos e de invalidação.”

Em briga de marido e mulher não se mete a colher?
“Em briga de marido e mulher todos devem meter a colher! Trata-se de uma possível condição de abuso. A ideia de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher é uma noção machista e que legitima o abuso e a violência na vida conjugal. Toda possível condição de violência teve ser visibilizada e cuidada pela rede de apoio e pelo Estado. Cabe a todos intervir para reduzir a cultura do abuso, sobretudo as práticas familiares que muitas vezes autorizam os homens a serem opressores, assediadores e abusivos.”

O que a vítima deve fazer? Como agir?
“A vítima deve procurar ajuda especializada, romper o silêncio e buscar por condições que a empoderem para se distanciar da relação abusiva. Toda vez que a vítima se submete ao controle, ela fortalece a relação abusiva. Desta maneira, quando o ciclo é rompido, a relação pode ser reorganizada, mas também pode promover mais situações de abuso. Na internet existem diferentes sites que auxiliam a vítima a buscar alternativas, bem como para conhecer seus direitos diante da situação.”

 

Elas deram a volta por cima
Apesar de ser um processo delicado, difícil e muito doloroso, tem solução. Como o psicólogo alertou, o ideal é procurar ajuda especializada e não aceitar o sofrimento causado pela relação. Para quem está passando por estas situações, Flávia evita fazer julgamentos, já que não trata-se de uma situação fácil. “O que eu posso dizer é que você não está sozinha, mulher! Apesar de você achar que ninguém entende porque ainda está nessa relação, saiba que essas pessoas estão do seu lado e se importam com você. (…) A sociedade foi ensinada a acreditar num ideal de amor que, para mim, é deturpado. Sabe aquela ideia de que para ser amor precisamos sofrer, precisamos nos rebaixar e dar tudo de nós para que a relação aconteça? Amor, na verdade, não é isso. Amor é leveza, é construção, é ceder e se importar nas horas exatas. Amor não é sofrimento, o nome disso é abuso, o nome disso é agressão. As mulheres não precisam aceitar o mínimo para acreditarem que podem ser felizes. Nós merecemos respeito, merecemos ser tratadas de forma igual. Nós merecemos o direito de que o não represente o não, e também merecemos o direito de dizer sim”, afirma.

Recentemente, a Casa de Labrys, projeto da jornalista Thamires Motta de Bauru, fez uma matéria também falando sobre o assunto. Vale a leitura! www.casadelabrys.com