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Colunistas

Coluna Archimedes: Estação Ferroviária de Bauru em ruínas

Archimedes Azevedo Raia Jr
By Archimedes Azevedo Raia Jr
Publicado 28/02/2020
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Ah! A velha e tão significativa estação ferroviária de Bauru. Ela é parte de um patrimônio cultural ferroviário de inestimável valor histórico, não só para Bauru, mas regional e nacionalmente. Termina e começa ano; inicia e encerra gestão municipal, e a velha e imponente gare continua abandonada, esquecida, órfã de pai e mãe!

Inaugurada em 1906, a estação embrionária era composta, inicialmente, por uma simples edificação de madeira, anexa à estação Bauru da Estrada de Ferro Sorocabana. Com o crescimento do transporte pela ferrovia, o prédio de madeira foi sendo ampliado, de maneira provisória, até a construção de uma estação definitiva, inaugurada em 1939, pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

Em 1976, os últimos serviços de trens de passageiros da extinta Sorocabana – incorporada à Fepasa – foram extintos. No início da década de 1990 o trem Bauru-Corumbá disponibilizava apenas duas partidas semanais. Com a queda da demanda, a RFFSA desativou o trem, em 1993, de forma que apenas os trens de passageiros da Fepasa serviam à estação de Bauru.

Os últimos trens de passageiros deixaram de atender à cidade em 1996, com a concessão da malha da Rede Ferroviária Federal. Desde esta data o patrimônio ferroviário está em estado de abandono. Em 2010, a escritura de titularidade foi transferida para a prefeitura de Bauru, que detém a sua posse desde então, pagando por ela R$ 6,3 milhões, em quatro parcelas.

Em meados do século XX, no apogeu das ferrovias brasileiras, registrou-se a existência de 500 estações ferroviárias no solo paulista. Com o acaso do transporte ferroviário de passageiros, nos anos 1980 e 1990, grande parte desse precioso patrimônio ficou abandonada. Muitas estações sofreram roubos, saques, pichações e depredações, e terminaram em ruínas pela ausência de conservação.

Nos dias atuais, segundo a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, menos da metade dessas estações continuam em pé. Em Bauru, quando tudo parecia estar encaminhado para uma solução definitiva do problema da estação, com a incorporação do patrimônio pelo município, na verdade, estava só começando.

Vamos recordar, apenas como exemplo, algumas manchetes da mídia, desde 2010, a respeito do tema:

– “Prefeitura Municipal abre licitação para contratação de projeto de reforma do prédio da antiga Estação” (JC, 27/09/10);
– “Antiga estação ferroviária central é abrigo para usuários de droga em Bauru” (Folha, 05/01/14);
– “Estação ferroviária de Bauru aguarda há anos projetos de restauração” (G1, 26/06/14); “Por que as ruínas da estação de Bauru são uma enorme esperança” (Outra Cidade, 05/09/15);
– “Estação Ferroviária de Bauru é tema de consulta pública” (G1, 10/11/15);
– “Bauru: patrimônio ferroviário está abandonado e vira alvo de investigação do MPF” (Record, 12/05/17);
– “O que levou ao abandono da estação ferroviária em Bauru?” (Jornal Dois, 20/02/18);
– “O que tem na estação? Saiba tudo o que rola no espaço da ferroviária em Bauru” (Social Bauru, 09/04/18); -“Vagões são retirados da Estação Ferroviária de Bauru e levados para SP” (G1, 29/06/18);
– “Estações ferroviárias de SP viram ruína e União pode ser obrigada a recuperar os imóveis” (Gazeta do Povo, 25/08/18);
– “Laudo aponta risco em arcos na estação ferroviária de Bauru” (FM 94, 18/02/20);
– “Defesa Civil diz que Gare da Estação pode ruir e impõe riscos graves” (Medium, 18/02/20).

Passados dez anos da aquisição deste magnífico e importante patrimônio ferroviário, o município apenas conseguiu fazer uso de uma pequena parcela do total das edificações. Algumas salas são destinadas a ações culturais. Que pena! Bauru, que já foi o maior entroncamento rodoferroviário da América Latina, ainda tem boa parte de sua população remanescente dos “anos dourados da ferrovia no Brasil”. Milhares de pessoas trabalharam nas ferrovias que serviam a Bauru. Muitos já partiram sem ver concretizado o sonho de preservação do patrimônio ferroviário.

O município nunca teve cultura e políticas públicas voltadas à preservação do patrimônio histórico e arquitetônico, devidamente consistentes e consolidadas. Seguem aos trancos e barrancos. Basta constatar a situação de prédios históricos remanescentes: Casa dos Pioneiros, Hotel Milanez, Hotel Estoril, estação Val de Palmas, casa que morou Pelé (demolida), dentre outros. Com isso, nossa história se esvai. Vale lembrar o historiador Luciano Pires, quando afirma que: “o corpo de uma cidade é seu povo e a alma é sua história”.

Neste sentido, a cada dia Bauru perde parte de sua história e parte de sua alma. O tempo e o clima são implacáveis com edificações sem a devida conservação. Somente o povo detém o poder necessário para mudar este status quo. Os poderes constituídos pouco se importam. Se nada for feito, só nos restará lamentar o tempo perdido com a omissão. Ainda dá tempo.

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ByArchimedes Azevedo Raia Jr
Nasceu em Bauru, cursou Engenharia na FEB e fez o mestrado e doutorado em Engenharia de Transportes na USP. É professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos. Foi diretor de trânsito e transportes e presidente da EMDURB. Co-autor de livros como Segurança Viária (Ed. Suprema), Segurança de Tráfego (Ed. São Francisco), Polos Geradores de Viagens (Interciência). Publicou mais de seiscentos artigos em jornais, congressos e periódicos. Recebeu várias honrarias, dentre elas Moção de Aplauso da Câmara Municipal de Araraquara, Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito e Profissional de Engenharia do Ano de 2019. É diretor de Mobilidade e membro do Conselho Diretor da Assenag-Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru. É escritor e articulista do Jornal da Cidade e professor do curso de Engenharia Civil da FIB.
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