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Social Bauru > Blog > Destaques > Colunistas > Coringa: Delírio a Dois
Colunistas

Coringa: Delírio a Dois

Mais um constrangedor exemplo de continuações desnecessárias

Gabriel Candido
By Gabriel Candido
Publicado 07/10/2024
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Dezembro de 2021, eu de férias, fui ao cinema para assistir um filme que continuaria uma franquia que eu tanto gostava. Afinal, depois de anos com seu fim, o que não era tão bom, mas mesmo assim, ainda acreditava que dava para contar novas histórias. E aí que foi anunciado: TODO MUNDO (QUASE TODO MUNDO) DE VOLTA, o protagonista, a direção e alguns atores da época. Enfim, fui aos cinemas ver Matrix Resurrections. 

Saí do filme com uma sensação bem estranha… ué, estava todo mundo lá, Keanu Reeves como Neo, Carrie-Anne Moss e Lana Wachowski na direção. Não tinha como dar errado. E deu! O filme parecia um “anti filme”, era um recado da própria diretora, “estou fazendo esse filme porque me obrigaram, então vou deixar a pior impressão possível, deixando a menor possibilidade de continuação, afinal, aquela história já tinha se encerrado. E ela fez questão de colocar isso no próprio roteiro, pelas palavras do Agente Smith (Jonathan Groff), “o estúdio quer um novo Matrix, com ou sem a gente, no fim, a gente sempre conta as mesmas histórias desde sempre.

E foi impossível não associar o novo filme de Todd Phillips com Joaquin Phoenix, e pelas próprias palavras da Harley Quinn, aqui interpretada pela Lady Gaga, “eu acho que não é isso que eles querem ver”. E realmente…

Em Coringa: Delírio a Dois, acompanhamos a sequência do longa sobre Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), que trabalhava como palhaço para uma agência de talentos e precisou lidar desde sempre com seus problemas mentais. Vindo de uma origem familiar complicada, sua personalidade nada convencional o fez ser demitido do emprego, e, numa reação a essa e tantas outras infelicidades em sua vida, ele assumiu uma postura violenta – e se tornou o Coringa. 

A continuação se passa depois dos acontecimentos do filme de 2019, após ser iniciado um movimento popular contra a elite de Gotham City, revolução esta, que teve o Coringa como seu maior representante. Preso no hospital psiquiátrico de Arkham, ele acaba conhecendo Harleen “Lee” Quinzel (Lady Gaga). A curiosidade mútua acaba se transformando em paixão e obsessão e eles desenvolvem um relacionamento romântico e doentio. Lee e Arthur embarcam em uma desventura alucinada, fervorosa e musical pelo submundo de Gotham City, enquanto o julgamento público d’O Coringa se desenrola, impactando toda a cidade e suas próprias mentes conturbadas. 

Ser um musical, foi o menor dos problemas, assim como Matrix Resurrections, aqui NÃO TEM HISTÓRIA para contar. Não tem, um filme de mais de 2 horas de duração em que simplesmente não acontece nada. Eu particularmente gosto de musicais, mas aqui é bem anticlímax. Não convence, e se a ideia era ser uma paranoia na cabeça de Arthur, ficou parecendo um deboche. Afinal, Todd Phillips tinha declarado que não tinha ideia de continuação, e se o filme de 2019 se sustentava por si só. Ou sinceramente, o filme é só uma egotrip que quem sabe num futuro, a gente passe a gostar mais. Eu creio que não.

Desde o início, a expectativa era alta, especialmente considerando o impacto emocional e a profundidade psicológica do primeiro filme. Phillips, ao optar por uma narrativa que mistura elementos de musical e drama psicológico, buscou uma abordagem inovadora. Contudo, o resultado é uma experiência que, para muitos, se revela confusa e fragmentada. A escolha de transformar Coringa 2 em um musical tem suas intenções artísticas, mas também levanta questões sobre a eficácia dessa decisão. A falta de uma estrutura narrativa coesa resulta em uma sensação de apresamento, como se o filme tivesse sido escrito por múltiplos roteiristas sem uma visão unificada. Joaquin Phoenix, que repetidamente demonstrou seu talento incomparável como Arthur Fleck, continua a brilhar, trazendo uma intensidade que ainda impressiona. Sua habilidade de transitar entre momentos de fragilidade e explosões de violência mantém o espectador cativado. No entanto, a performance de Lady Gaga como Arlequina é amplamente criticada. Muitos consideram sua interpretação como falha, sem a profundidade e a complexidade necessárias para um personagem tão icônico. A química entre Gaga e Phoenix, esperada como um dos pilares do filme, é praticamente inexistente, resultando em um relacionamento que parece mais forçado do que genuíno.

Um dos aspectos mais problemáticos de Delírio a Dois é sua narrativa incoerente. A trama parece saltar de uma cena para outra, com a sensação de que ideias interessantes foram abandonadas em favor de uma montagem que não respeita a lógica interna do enredo. A estrutura apresenta lacunas que deixam o espectador perdido, dificultando a conexão emocional com os personagens e seus arcos.

Além disso, a duração de duas horas e meia torna-se um desafio. O ritmo irregular e a falta de uma direção clara transformam a experiência em um teste de paciência. Muitas cenas parecem prolongadas sem necessidade, contribuindo para uma sensação geral de tédio e frustração.

A decepção com Coringa 2: Delírio a Dois é acentuada pelo legado do primeiro filme. O impacto emocional e a profundidade da narrativa original estabelecia um padrão elevado que esta sequência, infelizmente, não consegue alcançar. 

Não funciona muito bem como musical, não funciona muito bem como drama e fica no meio do caminho do que se propõe. Fica forte a impressão de que Todd Phillips se esforça para que o espectador crie uma certa empatia pelo coringa, tentando mostrar um lado humano do vilão, o que não convence muito, já que o contraponto da visão do personagem (obviamente um psicopata de primeira) é fraco, são sempre pessoas ruins, egoístas, policiais corruptos, profissionais medianos e personagens sem carisma.

Definitivamente, esse não é o Coringa que a gente conhece do Batman, e esse filme desconstrói aquilo que foi contado no filme anterior, deixando bem claro que aqui é a história de Arthur, até aí tudo bem. Mas tem algo que me incomodou no final, foi a canalhice de sugerir aquele “personagem” fazer o que fez com o Arthur e sugerir QUE TALVEZ talvez seja aquele personagem que a gente conhece…

Ser um musical é o menor dos problemas. Eu gosto, as músicas e cenas são boas. Mas simplesmente não tem história pra contar. Duas horas e meia sobre nada. E mesmo para quem gosta de musical, depois de duas horas, as músicas cansam. No fim, Arthur só queria um abraço e carinho, desde o primeiro filme.

Coringa: Delírio a Dois, 2024 
Veredito: 2,5/5
Onde assistir: Nos cinemas
Diretor: Todd Phillips
Agregador no Rotten Tomatoes: 33%
Avaliação IMDB: 5,3/10

Coringa: Delírio a Dois | Trailer Oficial #2 (youtube.com)

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ByGabriel Candido
Publicitário, pós-graduado em Comunicação e Marketing Digital. No mercado publicitário desde 2012, atuando em agências de propaganda. Além da experiência na equipe de Marketing em emissoras de televisão. Gabriel se inspirou em seu primeiro emprego, em uma locadora de vídeos, para escrever e compartilhar uma coluna sobre filmes e séries. Afinal, ele tinha que fazer alguma coisa com o seu antigo sonho de se tornar um Tarantino aos 30 anos. Linktree: linktr.ee/gabrielhcandido
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