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Cultura / Comportamento

Artista mostra como cultura Ballroom sobrevive em Bauru

Como movimentos artísticos de resistência se manifestam no interior?

Letícia Heloisa
By Letícia Heloisa
Publicado 02/04/2026
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A cultura Ballroom é um movimento artístico de resistência nascido em Nova York entre as décadas de 60 e 70, dentro de comunidades negras e latinas LGBTQIA+. Mesmo surgindo em grupos específicos nos Estados Unidos, chegou a Bauru. E como movimentos artísticos de resistência se manifestam no interior? 

Índice
  • Para quem ainda nunca ouviu falar, como você explicaria o que é a cultura Ballroom?
  • Como essa cultura chegou ao Brasil? E como chegou a Bauru?
  • Hoje, como está organizada a cena Ballroom em Bauru?
  • Quais são os principais desafios para manter viva essa cena em uma cidade do interior?
  • A Ballroom mistura dança, moda e performance. O que aparece mais nos eventos?
  • Como os artistas locais têm se apropriado dessa cultura?
  • Sobre as gírias da Ballroom que viralizaram nas redes…
  • Que transformações você já viu acontecer?
  • Qual a importância de espaços como esse no interior?
  • Que atividades têm sido realizadas em Bauru?
  • Existe diálogo com outros movimentos culturais da cidade?
  • O que você gostaria que as pessoas de Bauru entendessem sobre a Ballroom?
  • Que tipo de apoio ainda falta?
  • Quais são os próximos sonhos para a Ballroom em Bauru?
  • Em uma frase, o que a Ballroom representa hoje para Bauru?

Luana de Sá, produtora cultural e diretora executiva da Ballroom Bauru, conta como a cena Ballroom está organizada em Bauru. 

Ela explica como as competições acontecem e reforça que é um espaço de pertencimento que deve ser reconhecido como uma linguagem artística.

Multiartista, travesti e Femme Queen, Luana atua na construção e fortalecimento da cena Ballroom, LGBTQIA+ e preta no interior de São Paulo, articulando eventos, formações e iniciativas culturais voltadas à comunidade. Além disso, possui trajetória marcada pela criação de espaços de visibilidade e resistência para corpos trans e dissidentes.

Confira o bate papo:

Para quem ainda nunca ouviu falar, como você explicaria o que é a cultura Ballroom?

Luana: A cultura Ballroom nasce nos Estados Unidos, em Nova York, entre as décadas de 60 e 70, dentro de comunidades negras e latinas LGBTQIA+. Naquela época já existiam concursos de beleza drag, mas as queens negras quase nunca ganhavam. O racismo era muito forte, mesmo dentro desses espaços.

Foi então que mulheres trans e drag queens negras começaram a criar seus próprios bailes, onde pudessem competir, performar e existir sem essa exclusão. Assim nascem as balls, eventos que misturam dança, moda, performance e identidade.

A Ballroom surge, portanto, como um espaço seguro e de celebração para pessoas trans, negras e LGBTQIA+, mas também como um movimento artístico e político. Mais do que competição, é sobre comunidade, pertencimento e sobrevivência através da arte. 

Como essa cultura chegou ao Brasil? E como chegou a Bauru?

Luana: No Brasil, a primeira ball aconteceu há pouco mais de 10 anos, quando coletivos de dança que já estavam experimentando estilos como waacking e voguing começaram a se aprofundar na cultura Ballroom. Um marco importante foi a Conferência das Bruxas, realizada em 27 de maio de 2015, no Rio de Janeiro.

Em Bauru, as primeiras movimentações relacionadas à estética Ballroom aconteceram antes disso, através da professora de danças urbanas Fran Manson. Entre 2008 e 2011, ela realizou um intensivo de waacking e vogue dentro do Wise Madness Bauru, o que foi o primeiro contato de muitas pessoas da cidade com essas linguagens.

Depois disso, a cultura Ballroom em Bauru teve um período de esfriamento.

Foi em 2019 que aconteceu um novo marco: o lançamento do primeiro baile de vogue da cidade, o BallCat, em parceria com o espaço cultural IFMC – Formando Mentes Coletivas.

A partir daí comecei a organizar treinos, encontros de estudo, vivências de categorias, Vogue Nights e outras balls, sempre com o objetivo de formar pessoas dentro da cultura e criar um espaço de pertencimento para a comunidade LGBTQIA+ de Bauru. 

Hoje, como está organizada a cena Ballroom em Bauru?

Luana: Hoje a cena Ballroom em Bauru se organiza principalmente através da Ballroom Bauru, que promove encontros, formações, vivências e eventos inspirados na cultura Ballroom.

Além das balls, também realizamos momentos de estudo, prática de categorias e encontros comunitários. Um processo que também tem sido muito importante é a construção de laços de família dentro da cultura, algo muito característico da Ballroom, onde as houses funcionam como famílias escolhidas.

Dentro da comunidade existe muito aconselhamento, troca de experiências, apoio emocional e cuidado coletivo. É um espaço onde tentamos nos apoiar umas às outras e construir caminhos juntas.

Esse processo de união e construção coletiva tem sido essencial para fortalecer a cena local.

Quais são os principais desafios para manter viva essa cena em uma cidade do interior?

Luana: Um dos principais desafios é o acesso a recursos e estrutura, já que muitas iniciativas culturais independentes acabam acontecendo através de muito esforço coletivo.

Outro desafio é o desconhecimento sobre a cultura Ballroom, que ainda é algo novo para muitas pessoas. Por isso, além de produzir eventos, também investimos muito em formação, estudo e letramento cultural. 

Estamos literalmente construindo uma família Ballroom na cidade. 

A Ballroom mistura dança, moda e performance. O que aparece mais nos eventos?

Luana: Nas balls existem diversas categorias, que podem envolver dança, performance, moda, atitude, beleza e expressão corporal.

Cada ball também pode ter um tema específico, que orienta figurinos, performances e a estética das categorias. Além das pessoas que competem, também existem outras funções fundamentais dentro de um baile, como DJ, MC, jurades, comentaristas e organização, que fazem o evento acontecer.

É uma experiência artística muito completa. 

Como os artistas locais têm se apropriado dessa cultura?

Luana: Os artistas que se aproximam da Ballroom têm trazido suas próprias referências, misturando influências da cultura brasileira, da música periférica, da performance drag e da dança urbana.

Mas também existe uma certa resistência de parte da cena artística local, especialmente de alguns dançarinos, que muitas vezes evitam se aproximar da Ballroom. Em alguns casos isso vem de preconceito ou de uma falta de entendimento sobre o que essa cultura realmente representa.

Mesmo assim, seguimos construindo e fortalecendo esse espaço. 

Sobre as gírias da Ballroom que viralizaram nas redes…

Luana: Muitas expressões que hoje circulam nas redes sociais, como mother, shade, cunt ou até o próprio ato de bater o leque, nasceram dentro da cultura Ballroom.

É interessante ver como essa linguagem atravessou a cultura pop, mas também é importante lembrar que ela vem de uma história muito específica de pessoas negras, trans e LGBTQIA+.

Quando essas expressões são usadas sem contexto ou sem estudo, muitas vezes acontecem distorções ou usos equivocados. Por isso é importante que, junto com a popularização dessas linguagens, também exista interesse em conhecer a história de onde elas vieram. 

Que transformações você já viu acontecer?

Luana: Já vi muitas pessoas chegarem tímidas, inseguras ou sem acreditar no próprio potencial e, com o tempo, desenvolverem confiança, autonomia e presença artística.

A Ballroom também promove formação artística, oportunidades de performance e até caminhos de empregabilidade dentro da cultura, seja através da dança, da moda, da performance ou da produção cultural. 

Qual a importância de espaços como esse no interior?

Luana: Em cidades do interior, onde muitas vezes as redes de apoio são menores, espaços como esse são fundamentais.

A Ballroom cria um lugar de pertencimento, onde as pessoas podem existir com liberdade, experimentar sua identidade, criar arte e se sentir parte de algo.

Espaços como esse precisam existir porque, muitas vezes, são eles que fazem com que pessoas LGBTQIA+ consigam continuar sonhando, criando e acreditando em si mesmas. 

Que atividades têm sido realizadas em Bauru?

Luana: Hoje temos aulas de Vogue Femme toda sexta-feira, ministradas por Thaty Juicy Couture, bailarino e performer da cultura Ballroom.

Também realizo formações sobre categorias estéticas a cada 15 dias, além de palestras, encontros de estudo, práticas de categorias e momentos de letramento sobre a história da cultura Ballroom.

A ideia é que as pessoas não apenas participem dos eventos, mas também entendam profundamente a cultura que estão vivenciando.

Existe diálogo com outros movimentos culturais da cidade?

Luana: Sim, bastante.

Existe um diálogo muito forte com a cultura Hip Hop, já que ambas nasceram em contextos muito parecidos: Nova York, na década de 70, dentro de comunidades negras e periféricas.

No ano passado levei essas reflexões para cinco escolas públicas de Bauru, através do edital da Semana do Hip Hop, mostrando as conexões entre essas culturas.

Também dialogamos muito com a cultura do funk, que assim como a Ballroom também é uma cultura marginalizada. Em Bauru temos uma parceria importante com a Pikumanas, produtora de eventos LGBTQIA+ da cidade, com quem realizamos várias Vogue Nights. 

O que você gostaria que as pessoas de Bauru entendessem sobre a Ballroom?

Luana: Eu gostaria que as pessoas entendessem que a Ballroom não é apenas uma dança ou uma estética da internet.

Ela é uma cultura criada por pessoas negras, trans e LGBTQIA+ que transformaram arte em sobrevivência, excelência e comunidade.

Ao longo do tempo, muitas linguagens artísticas, estéticas e até programas de entretenimento se inspiraram na Ballroom sem necessariamente reconhecer suas origens. Isso acaba criando um apagamento histórico.

Por isso é importante falar sobre essa história e reconhecer de onde essa cultura vem.

Que tipo de apoio ainda falta?

Luana: Existe uma dívida histórica da indústria cultural com a cultura Ballroom.

Precisamos de mais apoio institucional, mais investimento, mais reconhecimento e principalmente ser vistas, cogitadas, contratadas e valorizadas como artistas e produtoras culturais.

A Ballroom é uma linguagem artística legítima e merece ocupar espaços com o mesmo respeito que outras manifestações culturais.

Quais são os próximos sonhos para a Ballroom em Bauru?

Luana: O sonho é que a Ballroom seja cada vez mais reconhecida como uma linguagem artística e política importante dentro da cidade.

Também queremos que nossos artistas consigam viver da sua arte, que existam mais oportunidades e que possamos realizar uma major ball em Bauru, com referências nacionais da cultura, categorias estruturadas e premiações à altura.

Um desses passos já está prestes a acontecer. No dia 11 de abril, estou organizando a Vogue Night x Dancehall, um evento que vai trazer referências nacionais da cultura Ballroom para a cidade

Em uma frase, o que a Ballroom representa hoje para Bauru?

Luana: A Ballroom em Bauru é um espaço onde arte, identidade e comunidade se encontram para criar pertencimento, resistência e celebração da vida LGBTQIA+ e preta.

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ByLetícia Heloisa
Piracicabana que gosta de contar boas histórias, Letícia é graduanda em Jornalismo na Unesp. Interessada por sociedade, política, moda e comportamento, sua paixão fica onde pode fazer o outro ser ouvido e entendido. Sua experiência vem desde o ensino médio, quando criou um jornal da escola, "O De Assis", e descobriu que queria ser jornalista. É jornalista pelo Social Bauru e foi coordenadora geral da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (ACI FAAC).
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