Utilize com sabedoria a palavra — para curar, apaziguar, estimular. Organize as ideias. Materialize-as. Os resultados serão frutíferos. Pode fazer trabalhos que exigem minúcias, precisão. Este excerto não fui eu quem escreveu. Um balanço: em um documento on-line, no word para navegador web, colado, em arial 11 justificado, sem recuo do parágrafo, o texto ocupa três linhas. Utiliza aproximadamente 10 sinais tipográficos, entre pontos finais, vírgulas, travessão. Parece ser composto por 6 fragmentos. São seus verbos: utilizar, curar, apaziguar, estimular, organizar, materializar, ser, poder fazer, exigir. A sua frase de maior extensão é a última. Porque sua primeira frase é dividida em duas. O seu tom é leve, aconselhador, recomenda próximos passos. Olha para o futuro. Cuidado, futuro. Sua primeira parte dirige-se a uma finalidade de resolução e aprimoramento: quer curar o que dói, quer apaziguar o que guerreia, quer estimular o que precisa melhorar, avançar. Sua última, promove e autoriza afazeres especificamente complexos, onde o que é incerto não cabe, desconvida-se, pede-se justamente a exatidão. À certa altura, garante que o que for feito, será recompensado: com frutos! Maçãs, bananas, mamões? Resta-nos a dúvida. Sua quarta parte quer as coisas visíveis, ao vivo, em vida terrena, para fora do pensamento: a materialidade do texto para além do que está escrito. O texto também pede ordem: ideias em rol. Suas frases são curtas e por isso utiliza apenas 1 quê. São telegráficas. A toque de caixa. É um texto completamente compreensível. Está em paz com quaisquer leitores. Quem sabe ler, pode entendê-lo. Quem não sabe ler, pode ouvi-lo em voz alta por outrem, e também o entenderá. Ele é fluido e calmo. Seu vocabulário é simples. O seu início é o mais
interessante: para alcançar algumas ações, segundo ele, a palavra quer sabedoria. O poder da palavra, o seu ensino, ela artefato. Quem escreveu este texto não fui eu. Apenas faço a sua transcrição hoje. Este texto me interessa muito. Porque assim como eu, ele tem trinta anos em 2026. Mas diferente de mim, este texto permaneceu por trinta anos esquecido, posso assim dizer. Desativado. Não escanteado por uma injustiça para com ele, não, não pense assim. Motivo é porque se trata de um texto de vida curta, com propósito de rápida explosão, como um trovão. Como os verbos cair, espirrar, assustar, gozar. Essa é a sua razão de existir. Para ler e esquecer. Ou melhor — ler, pensar, repensar, meditar e esquecer. Talvez caiba o agir, entre os verbos citados. Não quero agir aqui como quem não age: circundando o texto. Quero… O que estou fazendo aqui, neste momento, é contracorrente. Contra indicado. Porque recupero um texto de trinta anos que nasceu para ser esquecido, após o seu dia de publicação. É datado. Sim, mas, você vê data em suas palavras? Eu não vejo o tempo nele. Para mim, este texto ainda é criança. Se ontem eu caminhasse pela calçada do Automóvel Clube de Bauru, e em um poste estivesse um papel com este texto grafado, eu faria a sua leitura sem desconfiar de nada. Talvez até ficasse inspirado. Você desconfiou da idade dele? Aposto que não. Mas as engrenagens do texto, a sua trama no verso (o seu contrário), e a sua identidade remontam a trinta anos. Digo isso com propriedade porque não posso negar o seu nascimento, a sua origem. Porque eu mesmo fui atrás dele, a efeméride me interessa. No centenário bauruense, em 1996, ao primeiro de agosto de trinta anos atrás, o texto em questão foi publicado no jornal. “Utilize com sabedoria a palavra…”. Encontrei a sua impressão na Hemeroteca Digital. Folheei a edição e alguns outros excertos o acompanhavam. “Esclarecimento ao consumidor: informamos que por falha na revisão os televisores Sharp, modelos C-2013 e C-1413, anunciados na seção Som/TV/Vídeo do nosso folheto de ofertas para o Dia dos Pais, com prazo de validade de 1º a 14/8/96, saíram com a função de monitor, porém não possuem a referida característica”. Bem… este, ao contrário do nosso, é um texto datado. Outra curiosa menção, na mesma edição do jornal, é uma reportagem sobre a planta gigante titum arum ou corpse flower, nativa das selvas de Sumatra, que renasce a cada trinta anos, examinada pelo botânico Peter Boyce. Eu juro, a cada trinta anos. Ela nasce planta, e fede. A planta fede muito. Mau cheiro que se assemelha ao de um rato morto, diz a matéria. Curioso isso: é como se eu também fosse uma espécie de botânico para a literatura. Reproduzisse essa beleza rara e exótica, fedida, e imitasse o cultivo de Boyce. Porque depois de trinta anos, inconsciente, vejo o texto de três linhas como planta, cultura: recupero um texto que estava, digamos, debaixo da terra, para fazê-lo florescer, hoje. 1996…2026…2056. MAS POR QUE ESTE TEXTO EXISTIU? Para o horóscopo do jornal. Era uma recomendação a todos que nasceram entre 20/3 a 20/4, pessoas de Áries, como eu, para o dia em que Bauru
completava um século. Eu não verei Bauru fazer dois séculos. Mas o texto que abre este texto poderá ser lido quando Bauru tiver duzentos anos. Quem o escreveu? Programe-se: em 2096, se puder, leia este texto sobre o texto. O mini texto terá um século. Mas… por ora, é… Vamos lembrá-lo hoje e esquecê-lo amanhã. Antes? Nada. Há trinta anos… Uma vida, a minha, a dele. Há trinta anos no mesmo jornal Milionário e José Rico lançavam o álbum “De Cara Com A Saudade”. E o Cine Iporanga I apontava a estreia para o dia seguinte do filme Assassinos Cibernéticos, de Peter Weller. Dois Peters: um diretor, um botânico. Coisas do século passado. O que nos separa, entre três décadas? Como é ler o pequeno texto de três linhas hoje e pensar que estou orbitando diante da palavra, seguindo suas ordens, por três décadas. Três linhas, três décadas. “Utilize com sabedoria a palavra…”. Escrever um texto sobre um texto é usar palavra com sabedoria. Protegê-lo, regá-lo. Vê-lo feder em pensamento, sob leitura. Assim espero… Meus frutos… Eu era um bebê quando este texto
saiu. E talvez eu também renasça a cada trinta anos, como planta, como texto: são coisas muito parecidas. Coisas germinam em mim. Porque em 1 de agosto de 1996, uma planta renasceu, o texto fez dias, eu meses, Bauru — um século. Que delícia este bom cheiro.
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
