Em algum momento de 2024, o médico Hélder Polido navegava pelo Social Bauru quando se deparou com uma crônica. O texto, escrito por Alexandre Benegas, falava da saudosa Vila Falcão – do açougue da família Bastos, do Bar do Benigno, do Cine São Rafael e das crianças pedalando pela Prudente de Moraes.
E, ao final, havia um trecho que o emocionou:
“Por cuidado, confiando nas mãos cruzadas ou enfiadas no bolso o dinheiro amarfanhado, vestidos e botinas compravam o arroz para feijão nas Casa Belmont […]”
O pai dele estava ali – Armando Polido, fundador da Casa Belmonte e figura conhecida de toda a Vila Falcão, havia entrado para a crônica de um bairro que ele mesmo ajudou a construir.
Naquele instante, Hélder ligou para a esposa, Rosiane, e disse que precisava restaurar o prédio.
O prédio na Vila Falcão
Mãe de Hélder, Maria Helena Polido, de 85 anos, não hesita ao falar do marido. “Ele nunca tirou férias. Nunca”, enfatiza.

Armando era italiano de origem e bauruense de coração. Antes do armazém, trabalhou por um tempo em uma tipografia, mas já com outro objetivo em mente: abrir um negócio de secos e molhados. Era tão dedicado que o patrão lamentou a saída.
Ele, então, comprou um terreno na esquina da Campos Sales, na Vila Falcão, e começou o negócio. À medida que ampliava o comércio no térreo, construía mais um andar acima para a família morar. O prédio crescia junto com a própria trajetória da família.
A Casa Belmonte
Em uma época em que Bauru ainda não contava com supermercados, a Casa Belmonte era uma das referências para compras do dia a dia. Ali se encontrava “de tudo”, como recorda Maria Helena, incluindo arroz, feijão, panelas, cadernos, linhas e agulhas.
Aos domingos, quando o comércio da cidade permanecia fechado, Armando atendia até às 13h e recebia fazendeiros e trabalhadores rurais que vinham de longe para fazer compras. No Natal, permanecia atrás do balcão até meia-noite.

O nome do estabelecimento também tem uma história simples. Belmonte foi escolhido quando ele deixou a tipografia. Nunca houve uma explicação elaborada. “Ele simpatizou com o nome. Só isso”, conta a filha, Gracie.
Um armazém na Vila Falcão
Durante décadas, a Vila Falcão esteve entre os bairros mais movimentados de Bauru, pela proximidade com as linhas de trem. Quando o sistema ferroviário entrou em declínio, o bairro sentiu os efeitos. O movimento diminuiu, os comércios fecharam as portas e a dinâmica da região mudou.
A Casa Belmonte resistiu até 1992. Com a saúde fragilizada, Armando encerrou as atividades. O imóvel passou a ser alugado e com o passar dos anos, os inquilinos saíram, o telhado começou a ceder e a natureza tomou conta do espaço.
“Quando eu peguei, estava cheio de pombos. Tudo destruído. A gente tinha até medo de entrar por causa das doenças”, lembra Rosiane Polido, nora de Armando.
A decisão que a crônica provocou
Depois de ler o texto de Benegas e reconhecer o pai retratado naquelas memórias, Hélder e a família se viram diante de uma escolha: demolir ou restaurar.

Um engenheiro foi chamado para avaliar a construção e, apesar dos danos, a estrutura permanecia sólida. O telhado ainda guardava vigas de peroba-rosa e as paredes de alvenaria estavam preservadas.
Rosiane não teve dúvidas. “Foi a vida dele. Não podia se perder”, comenta. Hélder concordou. E ela assumiu a missão.
Restauração da Casa Belmonte
Durante dois anos e meio, Rosiane fez incontáveis viagens entre São Carlos, cidade que hoje mora, e Bauru. O telhado foi desmontado, parte da madeira reaproveitada e uma nova estrutura metálica instalada com telhas termoacústicas.
As redes elétrica e hidráulica precisaram ser refeitas integralmente, já que haviam sido saqueadas ou estavam comprometidas pela ação do tempo.
As divisórias internas que separavam residência e comércio foram removidas. “A estrutura era muito boa. A gente não mexeu nela. Tiramos tudo o que estava por dentro”, conta Rosiane.

A mão de obra veio da própria Vila Falcão. “Procuramos trabalhar com comerciantes e profissionais do bairro. A gente quis fazer assim.”
O que surge?
O resultado desse trabalho em família é a Galeria Casa Belmonte: cerca de 700 m² revitalizados na mesma esquina construída por Armando, etapa por etapa, ao longo da vida.
O empreendimento conta com três lojas com mezanino. Duas delas possuem aproximadamente 200 m², enquanto a unidade da esquina tem cerca de 300 m².
O espaço principal receberá elevador para acessibilidade. Há também estacionamento privativo em um terreno anexo, obtido por meio de uma permuta com um imóvel vizinho que também pertencia à família. O acabamento inclui granito preto, porcelanato retificado e jardins de inverno em todas as unidades.

A fachada histórica foi preservada. O interior ganhou características contemporâneas. Maria Helena acompanhou tudo de perto.
Seu Armando, a família Polido e a Casa Belmonte
Depois desse processo, a família abriu a Galeria Casa Belmonte com espaços para locação. A família não pretende administrar os futuros negócios. Hélder atua como urologista em São Carlos, enquanto Rosiane é professora universitária.
O objetivo foi devolver o imóvel ao bairro.

O movimento que a ferrovia levou embora talvez não volte da mesma forma. Mas a revitalização da esquina representa uma tentativa de contribuir para uma nova fase da Vila Falcão.
O endereço de Seu Armando e Maria Helena
Maria Helena conheceu Armando em 1957. Casou-se com ele em 1959. Trabalhou ao seu lado durante décadas, passando noites inteiras cuidando da escrituração do armazém.
Ela viu o prédio nascer, crescer, fechar as portas, transformar em ruína e a sua restauração.

Quando perguntada sobre o que sente ao olhar para tudo isso, não demora para responder.
— Felicidade. Ver tudo reerguido, tudo como no começo…
Ela faz uma pausa.
— Você nem calcula.
Armando Polido não está mais aqui para abrir as portas da nova Casa Belmonte. Mas, de certa forma, ainda mora lá.
