Amanhã eu não vou mais me chamar Sinuhe. Avisem os professores, os atendentes de fast-food, as secretárias de consultórios médicos, os meus pais, os meus amigos. É novidade para quem interessa. Amanhã… Eu terei o nome que você me der. E como você me chamar, será a minha nova certidão. Chame. Pela coisa de renome. Renomear, o nome no ar, meu nome noir. O cinema silencioso. O afeto… mudando, o mundo de outros nomes. O mundo desconhecido. Muda tudo. Assim o mundo muda, trocam-se as palavras, os anos, os olhos, as mudas, as ruas, corre o tempo e o coração. Me chama — e a gente descobre a nossa cidade. Bauru em descoberta. O amor em palavras. É: que bem, meu bem. O extra-nome, eu conto. Nas franjas de Bauru, entre as fímbrias de minha imaginação, vejo uma sala, ou melhor, um auditório, ou melhor, um pequeno teatro. Ele está repleto de pessoas que eu não conheço: isto é, não sei o nome de nenhuma delas. Nomes… Quem se chama? Eu estou no centro do palco, com uma gravata azul, uma camisa social, um sapato social, uma calça azul escuro. Calça e gravata combinam. Um crachá está pregado em minha camisa, com meu nome e uma foto ao lado. Está acontecendo. Com um microfone em mãos, saúdo a plateia. Ela neste início faz pouco caso, ao meu oi, cagam, o que é normal. Porque sou um completo desconhecido, não sou famoso, a plateia não me conhece, está sentada e, por isso, a primeira palavra que falo é um grito: SINUHE. Todos se assustam. Não pelo grito, mas pelo nome que digo, essa palavra estranha, extra, estrangeira, uma oxítona terminada em E que não leva acento gráfico na minha certidão, mas no som pronunciado, leva! Eu fiz pra eles. Inclusive este acento sonoro foi muito amigo de minha mãe, na infância, que fazia questão de prolongá-lo nas broncas e chamadas de atenção. Sinuhêêêêê — era assim que ela falava. Às vezes tenho vontade que meu nome tenha apenas vogais, algo como Iuê. Sinto que eu seria cantado, ao invés de pronunciado. Todos encantados. Você pode escolher esse nome para mim, se quiser. Basta me chamar. Eu sou o som da sua palavra. Está acontecendo. A plateia ficou atônita e passou a prestar mais atenção em mim. Isso foi bom, como orador naquele momento, precisava de atenção. Na sequência, aproveitando a audiência, fiz a pergunta: quem aqui nesta sala ama verdadeiramente o seu nome? A pureza de fito. Ninguém moveu uma mão. Que repeti: alguém tem amor pelo nome de batismo? Uma menina, na penúltima fileira, ficou de pé. Foi cena esquisita. Se. No relance. E, um passarinho pousou em seu ombro. Um utiariti. Consigo supor que algumas pessoas da plateia possam ter pensado que aquele utiariti era Deus. Até concordo… Porque assim como nós, Deus fica curioso de saber o nome. Todos nós, Ele entre nós, queríamos saber o nome da moça. Que ficou muda. Eu estava perdido, confesso, no meio do palco, um bruto silêncio. Nós todos, e o utiariti. OBS: você que lê esse texto, e não olha o ombro da moça, verdadeiramente com os olhos como nós olhamos, ontem, na hora bela, mas sim imagina – ao ler – o ombro da moça como um galho folheado com um pássaro em cima, hoje, só você sabe que o pássaro era, com acurácia, um utiariti. Porque te revelo, eu sou seu amigo. Er… Na hora, eu não sabia, ninguém da plateia sabia, porque não tinha naquele pequeno teatro nenhum ornitólogo. Ou quem soubesse de fato nomear aquela espécie na lata, tiro certeiro. Quem tivesse tido um quintal cuja visita era um utiariti. Mas você, você sabe, leitor/a, porque você tem o nome em suas mãos. Utiariti. Um nome em seu pensamento. Ou Uiaii. Ou Trt. Me chame do que você quiser. Está acontecendo. Com o microfone, novamente, era preciso dar um basta, era preciso dizer o fim, e dei um grito para a plateia: BAURU. A moça se sentou, como também um dia casou, um dia gozou, um dia engravidou, um dia bailou. Um dia se levantou, e outros nomes vieram, como tudo deve ser. A plateia aplaudiu a minha fala: fala de um nome só. Que disse a eles para sossegarem e amarem os nomes, porque os nomes são para a vida toda, a linha completa. O seu nome, e o nome da cidade de onde está falando, de onde está nascendo, de onde está morando, de onde está vivendo, de onde segue, como todos, nomeando. Era a descoberta. Encerrava a minha participação naquele pequeno teatro, duas perguntas e dois gritos. Num átimo, o utiariti voou. Em Santos, nos anos setentas, construíram um edifício chamado Sinuhê. Amanhã eu não vou mais me chamar Sinuhe.
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
