Tudo, para mim, é viagem de volta.
João Guimarães Rosa, 1967.
Aqui neste início há uma garoa fina e invisível em Bauru, quase nada, pífia em gota. Muitos dirão que não. Certo… Mas existe, sim. Ela toca algumas pessoas. Quem ela toca, às vezes, transforma. A alguns, ela chega, e não é percebida. A outros, quando vem, é uma discreta cachoeira. Uma vez comentei isso a Michael, época da gravação de Off The Wall, canção homônima ao álbum que estava gravando com Quincy. Ele sempre cético, ateu, riu da minha cara. Riu, e riu, e riu tanto, que até gravou a sua risada e incluiu na canção. Ele ri certas risadas… Está eternizada a reação de Michael a esta minha estória de garoa. So tonight… Para mim, a garoa é verdadeira. Isso importa. Explico em outras palavras: quero dizer que às vezes somos tocados pela água da estória, um fio do destino que nos desperta e revela a norma do nosso caminho — o que é nosso. Como se cada um de nós estivesse, realmente, costurando seus caminhos pelos buracos já premeditados, isto é, buracos perfeitos cuja nossa agulha cabe exatamente, com cálculo. Buracos exatos para o nosso corpo. Eu enxergo isso a partir da garoa. Que está ali mas quase imperceptível. E quando sentimos, é que são elas. Lembramos que estamos cumprindo um combinado. Tomo a liberdade para falar disso e contar um caso muito pessoal, longo, mas valoroso para justificar a garoa, a norma, a coincidência que não é coincidente, e sim, algo previamente escrito: o que dá o que falar já estava, antes, dado. Eu começo no início da semana, estudando para o mestrado. Leio a crônica-fantasia “Histórias de Fadas”, escrita por Guimarães Rosa na década de 40. No texto, Rosa cita estórias curiosas de transportes de animais em voos: sapos, colibris, tartarugas, adocicado com seu bom humor diplomático. No outro dia, persigo no YouTube alguma lost media dos anos setentas e sessentas, que por alguma briga entre colecionadores egóicos, vão parar em canais aleatórios. Que prazer! Uma destas mídias é um festival da TV Tupi de 1979, senão me engano, apresentado pelo Ziraldo. Participam Arrigo Barnabé e banda, Elba Ramalho e também Caetano Veloso. A apresentação do baiano me chama a atenção: ele toca uma canção que não conheço, acompanhado por um grupo de mulheres cantoras. Uma canção do Jorge Ben, talvez. Caetano amarelo, feminino, performático. Na sexta-feira, vou trocar uma sandália 43-44 que não me serve. Foi meu presente de Natal. Aproveito para almoçar no Bar do Mário, ao lado da loja. A loja me desdenha: não há 44-45, o meu tamanho, sequer fazem sandálias assim. Prometem um voucher para a loja virtual. Gaste como quiser, bonés, bags, meias. Vou ao Mário, comer o pedido mais barato do cardápio: uma calabresa com arroz, feijão, farofa e salada. O garçom me indica uma mesa para uma pessoa. Praticamente à minha frente, à direita, está Tim Bernardes. Ele não me espera. Ele almoça só, uma bisteca. Bate os pés no parklet do Mário em ritmo, como se tocasse, exala uuus que só ele, como se cantasse, compondo e comendo, disfarça-se com óculos escuros, boné, mocassim, shorts de 10 centímetros. Ele está no bairro das suas canções. Não falo com ele, mas almoçamos juntos. Como um encontro entre amigos lacônicos. Amizade onde o silêncio é diálogo. O encontro não marcado me inspira. Chego em casa, abro o Word e começo um conto. Ficção. Um casal que decide se mudar para uma casa. Depois disso, passam a brigar diariamente. O marido desconfia que a antena telefônica, que fica ao lado da casa, enorme, é o motivo das brigas. Convida um kardecista para visitá-los: ele diz que no centro da sala, há uma bola quicando. Não termino o conto, mas gosto dele, saio para correr, e penso em alternar as vozes ao longo do texto, ora o marido protagonista, ora um narrador observador. Estou gostando dele. No dia seguinte, tudo começa a voltar, o retorno, a viagem. A volta. Vou ao Tomie Ohtake, pela primeira vez, após roubar de um sebo um recorte de jornal de 1981, com o texto “A tosse de uma senhora alemã”, de Cortázar. No museu, encontro uma sala circular, vazia e branca. Sozinha. Fico em vertigem. Rodo por ela e percebo um grande retângulo branco vazado: olho para dentro dele. Há três elementos: uma cadeira das embaixadas brasileiras do século XX, um altar de madeira belga do século XVI ou XVII, e uma bola quicando, assustadoramente, oval, elástica, distorcida. Como no conto: uma bola também quica na sala. No domingo, viajo para Santana do Parnaíba e almoço na casa de meu sogro, próxima ao centro histórico. O ensejo da visita é conhecer a sua casa nova. Adivinhe: ele mora ao lado de uma grande antena, como no conto. Enquanto comemos massas com variados molhos e recheios, ele comenta estórias da sua carreira como comissário de bordo. Sinuhe, você acredita que uma vez vimos um caranguejo andando no corredor do avião da GOL. Sim, é, sim, mas ele não tinha lido a crônica de Guimarães Rosa, somente eu, as “Histórias de Fadas”. Por fim, antes de enfadar você com a enxurrada de coincidências que me tomam, a última. Abro o meu Instagram, na semana seguinte, há um story de Tim Bernardes. Um frame em destaque: Caetano Veloso no festival da Tupi com Ziraldo, cantando Jorge Ben. A minha lost media. Lá fora está a garoa — algo tocou em mim, estórias saíram de mim — aqui dentro também. Enjoy yourself.
