Que magia é essa, que milagre é esse. Para este texto, Bauru é só um pretexto. É… porque vamos falar de vida, tempo, encontros, mágicas. Para Bauru, este é um texto. Obrigado, Bauru, por permitir um texto como este, por presentear-me com um leitor, comigo mesmo, este texto e eu, o seu primeiro leitor. O leitor zero. Você — o número um. Este texto convive comigo alguns dias e começa em uma terça-feira cujo ano se perdeu e sua lembrança deixou de fazer sentido. Chego do trabalho, um dia ordinário, útil, tudo em seu devido lugar, tudo vibra conforme a música silenciosa. Paulinho da Viola. O que chega comigo está notando: a chave no miolo da fechadura, ela gira. Minha mão na maçaneta, a porta empurra o vento. A minha casa ela está cheia de texto. Quase não a vejo. É preciso lê-la, é preciso lê-lo. O que chega comigo está notando — a casa dá texto. Isso, porque, por fim, morados seis ou sete meses neste apartamento, sinto a casa. Pela primeira vez. A casa está. Eu não tenho dúvidas, a casa está. E lembro, como lembro, como a lembrança é minha! Quando a casa não era nada, estava por alugar, era os pisos de taco, as paredes em branco lavado, as fechaduras sem função, a cozinha adesivada, os ladrilhos (azul e amarelo marrom). O mesmo assento da privada que alguém usou. Antes. Não era nada. Eu pela primeira vez… Aquilo vibrava em mim, era estranho. Não era nada mas pesava um tanto. Pesava uma vontade angustiante de preencher, ocupar, tomar por inteiro, morar, assistir, sentar e rezar, realizar, ser feliz. As palavras. Foi terça-feira, voltando do trabalho, que vi a casa tomada. Tomada por mim, notando. Eu estou anotando. Eu era texto. Foi inevitável — e a casa — não pensar o tempo. Fui… Por que tanta vontade? Cadê o meu dinheiro. Querer resolver, querer ver, querer verde, amadurecer, correr dos ponteiros. Para quê? As ideias. Por que eu quero a casa pronta? Por que me sentir casa? Em outras veredas, eu não sei. Mas isso existe: como a casa. Foi terça, voltando, que vi! Ela está aí. Como aquele i, em letra cursiva que eu tinha escrito a primeira vez e tomado um fôlego danado para aguentar fizesse sol fizesse chuva ou furacão o quanto tempo fosse para finalmente, respirando, colocar o seu pingo. I. Aquele i. A casa está pronta. Um vulcão é uma haste de i. Esperando a sua erupção, espera o seu pingo. Vulcão também é casa. Escrevendo acho que também sou alguns pingos. Estou respingando, completando alguns is que deixei pelo caminho, esses is que ficaram na linha, dos dias na casa, os dias com o apartamento vazio. O vazio tem muitos is. Viver, pingar. É completar a letra. Dar voz ao vulcão. Aos pouquinhos, aos pingos, aos domingos, à homeopatia, a casa foi nascendo. E foi tão bom. Foi e eu poderia terminar o texto por aqui. Ir dormir e voltar. Porque o texto não pára. Ele cresce como a casa. Ele desfila bonito, confia na vida. O texto bacia: cabe sim. Cabeça. Forma nele uma poça, o texto tem seus cantinhos de água. É sublime — o encontro. Sigo encontrado, encontrando. Descobrindo formas de acabar o texto, formas de montar uma casa. Eu vou celebrar o encontro. Estou feliz. Um beija-flor, no ímpeto de sua existência na minha janela, beija o texto: sou eu, deus, o beija-flor. (Aqui eu passo a caneta). Sou o beija-flor, nunca pisei em um caco de vidro. Seu amigo. Quero o fino da palavra: a palavra que meu bico penetra, saboreia o néctar e da palavra canta: vida! A casa é vida. Enquanto bato asas, relação intervalar e comprimida, a vida. Minutos de poesia. Eu te vi pela janela, Sinuhe, eu te vi. Vi você querendo a vida, a vida em casa, a sua casa. Está aí. Anotando, anotando, anotando. Você, Sinuhe, deixou este bebedouro para mim. Calmante. Fonte de calmaria. Água com açúcar. Água suspensa no ar dentro de um invólucro que imita uma flor. É de plástico. Obrigado, eu agradeço. Eu sei que não é de verdade, mas eu finjo. Eu obedeço. Estou docinho. A minha visita é motivo de alegria, é enredo de escola de samba, é história para ninar neném. Também já fui neném. Um colibrizinho. Como a água estou suspenso no ar, bato asas… furo flores de plástico, bebo águas doces, escrevo palavras salgadas: necessidade, clichê, edredom, e-mail, experiência. A primeira vez que cheguei à casa de Sinuhe. A janela estava fechada. Só faltava a minha chegada: para a casa virar casa, virar casaca, casa. Fui em direção ao bebedouro e pela janela vi, naquela pequena sala em L, um maiúsculo piano, preto e imponente, um piano de caudas. Em sua frente, uma senhora muito velhinha, à altura de seus 85 anos, sentada num banquinho. Ela se chamava Suzi e amava livros. Ela era uma máquina, repetia com o dedo indicador, tremendo, o toque à nota SOL. Tocava, soava e repetia. Tocava, soava e repetia.
Vagarosamente… A sua expressão era triste. O som era visível: a nota destoante. Aquele SOL não se encaixava. Ela notando, ela notando, ela notando. Quando ela me viu — a janela — nenhum piu. Continuou tocando, máquina. Mas a sua expressão, sonora e sensível, mudou. A mesma nota SOL agora era linda. Toante. Brilhava. Ouvia-se da esquina. Era a vida, era a casa, era a vida.
