Caio Leroy era um garoto “tímido para as coisas”. Felizmente, uma peça da escola, “Bumba Meu Boi”, despertou nele a vontade da arte. “Me tirou totalmente da zona de conforto, mas eu não senti timidez, nem vergonha. Acho que ali já ficou um ponto de interrogação na minha cabeça”, lembra o ator.
Enquanto a pergunta pairava no pensamento, o caminho dele se encontrou com o Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (CIPS). Uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que oferecia aulas de teatro, dança, balé e capoeira. “E, mais uma vez, eu me diverti muito fazendo. Ficava com aquilo na cabeça: ‘essa coisa de apresentar é muito legal…’”.

Entre apresentações, saraus e cantorias com os amigos, aos 18 anos, o bauruense queria escolher um curso de graduação. “Foi então que comecei a pesquisar e descobri que existia um curso de Artes Cênicas em Bauru”.
A virada de chave
Depois de seis meses na faculdade, o ponto de interrogação já não existia: decidiu que queria ser artista e estudar mais. Se inscreveu na Divisão de Ensino das Artes (DEA), no Teatro Municipal, e fez cursos de teatro com Marcelo Pinho, Elio Andreotti e, um pouco depois, oficinas de teatro de animação com Susan Lopes. “Cada um com linguagens e pesquisas diferentes dentro das artes cênicas, que foram agregando muito para minha formação”, reflete.

Obras nacionais
Provando que a educação e o estudo podem levar um profissional longe, atualmente Caio se dedica à produção do filme “Se não eu, quem vai fazer você feliz?”, baseado no livro de Graziela Gonçalves, viúva de Chorão, intitulado “Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? Minha História de Amor com Chorão”. No último dia 1°, quarta-feira, foram gravadas as últimas cenas e agora está em pós-produção. A previsão de estreia é em março.

Além do projeto atual, o ator faz o personagem Dudu no filme “O Coreto”, dirigido por André Corrêa, que estreia no Cinépolis no final de outubro. É possível conferir o trailer aqui.
Ele também já participou do seriado “Rota 66: A Polícia que Mata” e, mais recentemente, de espetáculos de teatro como “As Bacantes”, um projeto que o marcou. “A gente ficou um ano fazendo um treinamento físico com uma técnica teatral específica para aguentar apresentar uma hora de espetáculo. Existia um coro de atrizes que não saía de cena durante toda essa uma hora”, comenta sobre o clássico da tragédia grega.
Estar em cena
Caio gosta mesmo de estar em cena, seja onde for. Atualmente, trabalha com audiovisual, mas resgata seus tempos no palco: “Estar atuando no teatro e no circo é diferente, porque você se envolve mais na criação e na produção do espetáculo — é um processo coletivo”.
Seja nas telas ou no palco, apresentar-se é o maior prazer. Mas o “seja onde for” foi mais longe: o bauruense foi para São Paulo no segundo semestre de 2021. “Eu estava bem desanimado pelo contexto geral da pandemia — principalmente porque o teatro seria o último a voltar. Então, decidi que estava disposto a ir para São Paulo, trabalhar com qualquer coisa e, depois, tentar conciliar com a área artística e com a área de atuação”.
“Trabalhar com qualquer coisa” se transformou no papel de Josué dos Santos em “Rota 66: A Polícia que Mata”, seu primeiro trabalho na capital e no cinema. “Duas semanas antes de me mudar para São Paulo, eu recebi um teste por e-mail. Na época, falei: ‘Acho que é golpe’, não acreditei muito. Foi numa sexta-feira que eu recebi e fiquei o fim de semana inteiro pensando: ‘Será que é isso? Será que é verdade?’”. Não só era verdade como ele fez o teste e passou. “Foi um presente”, celebrou Caio.

Contemplação, arte e diversidade
Quando se é artista no Brasil, é impossível não pensar que as oportunidades são escassas e que talvez o sonho não passe disso: um sonho. “Quando eu vivia aí, sonhava em estar nas telas, mas sempre achei que era algo distante para alguém do interior. Hoje vejo que é muito possível”.
Ouvir que “é muito possível” do Caio é poderoso, mas ele avisa: “Não quero romantizar, porque não é fácil”, diz Caio sobre o trabalho na atuação, “mas acho que percebi, pelo momento de diversidade que estamos vivendo — nas novelas, no cinema, nas campanhas publicitárias — que as coisas começaram a mudar”, e ele ainda acrescenta: “Claro que ainda temos o que conquistar, precisamos de mais espaço, mas já demos alguns passinhos à frente”.

Caio Leroy é um exemplo potente de que sua maior diversão pode se tornar sua forma de ganhar a vida. Ele tratou arte como arte, sem banalizar: “Isso aqui que eu tô fazendo é arte, isso aqui tá ilustrando alguém, isso tá tirando um riso de alguém”, contempla ele.
Além do amor pela atuação, o ator traz seu conselho para quem também tem vontade da arte: “Insistir. Porque é mais “não” do que “sim”, e nem sempre depende só da gente. Mas, se a gente gosta de atuar e faz sentido pra você, é continuar insistindo”.
