Lavando a louça, há 15 minutos, recebi uma visita. Estou ficando louco? Não está, Sinuhe. Obrigado. Às vezes me faço perguntas e também me respondo. Sou Gepeto e também sou Pinóquio. Vivendo e escrevendo à maneira da baleia. Em alto mar. Mas sim. A visita. Eu estava na penumbra. Meia luz. Pouca luz. Quase nada de luz. Quinze minutos atrás. Eu e as louças, poucas, ruínas de uma pizza de supermercado. Que esquentei, torrei um pouco para “gratinar” o queijo. Ela tinha quatro azeitonas. Eu lembro porque comi duas delas. O que sobrou ainda está na mesa? Não está, Sinuhe. Certo. A visita. Eu no escuro, os ladrilhos da cozinha são azuis, formam flores. Eu cozinho em um jardim de porcelana. Lavo facas, garfos e colheres. Os meus pratos são azuis. A sensação de acompanhar a noite me faz bem. O bem. Já tentou? A noite pede o nada de luz. Tente. Economize na luminosidade, é noite. Um convite para o escuro. Essa sensação me faz bem, eu sei. Desculpem-me desde já: prometi para a minha professora que escreveria aqui sem acusar as últimas linhas. Em outras palavras — não estou lendo nada do que escrevi — uma acadêmica chamaria isso de fluxo de consciência. Eu chamo de nariz de madeira crescendo, Pinóquio falando, Gepeto tremendo. A baleia — nadando na cuba da minha pia. Os pratos da minha louça, azuis, escorregam da minha mão. Porque quase não os vejo. Eles rimam com os meus azulejos. Apenas a lavanderia, ao lado da cozinha, está acesa. A cozinha está apagada. Gosto assim. A luz é nada mas ainda vejo. Sinto… Estou vendo algumas coisas. Conduzo a louça — somos felizes assim. Primeiro, os talheres. Ou melhor, os copos! Depois os talheres. Por fim, os pratos. Vamos aos pratos. Jogo detergente amarelo na bucha: faz espuma. Esfrego a bucha no prato: faz limpeza. Encaixo o prato na estante: faz secar. Escrevo palavras neste texto: faz viver. Estou ficando louco? Não está, Sinuhe. Ok, do princípio? Não, dos pratos. Os pratos, os últimos, a louça era pequena. Estou terminando. E a visita? Vamos lá. O meu instante já: as espumas, realmente, têm verdades secretas. As bolhas. O sabão. Eu estou cantarolando alguma canção. Alguma canção brasileira. Lembro ela. Estamos penumbra. Lavo os pratos. Quando olho para as minhas mãos, vejo. Estou vendo! Um reflexo de luz no meu dedo anelar esquerdo. Um anel! Estou casado?! Com quem? Será que eu me esqueci de tirar a aliança para lavar a louça? Calma. Eu não sou casado, eu não tenho aliança. A forma da bolha de sabão, justamente no meu dedo, à meia luz, refletindo, me fez casar. Me fez pai. Eu agora tenho um matrimônio. E dessa bolha, tão singela, tão pequena para a história da humanidade, eu me vi casado. Sim. Ela imitou! A bolha, a bolha imitou o reflexo de luz de um anel no meu dedo! De repente, pós-bolha, pós-reflexo, estamos em uma terça-feira, às 20h da noite. Ou melhor, às 22h. As crianças já voltaram do colégio, Urdânia chega das aulas que deu na faculdade. Querida, como foram as aulas? Lindas. Passamos por Fernando Pessoa. Qual deles? O mestre, Alberto Caeiro. Foi bonito? Foi. Os alunos se emocionaram? E como. Encerrei a noite com “E me deito ao comprido na erva, / E fecho os olhos quentes, / Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz” Urdânia é demais, fomos apresentados no mestrado em literatura. Ela é uma aula. Uma aula de literatura: tão bela, tão sublime. Tão ela. Poesia. As crianças já deitaram? Sim, estão me esperando. As nossas crianças gostam de literatura antes de dormir. Histórias da carochinha, fábulas de domingo legal, catalendas. Eu me preparo. Que história vou contar para elas? Lembro que não citei Bauru nenhuma vez nesse texto. Pronto. Uma história sobre Bauru? Entro no quarto, Irene e Teresa estão a postos, como se pilotassem suas próprias camas nave, apoiadas na cabine do travesseiro. Protegem-se de ovnis e nebulosas com suas mantas intergalácticas, o abajur ao centro é a única estrela sobrevivente deste universo. É noite de lua cheia. Meninas, vamos apagar o abajur? Abram a janela, vejam a lua. E todos fomos iluminados por ela. Vocês sabiam que Bauru já teve outros nomes? Eu juro. Pai, tipo qual? “A franja da encosta”, por exemplo. Duvido, pai, eu duvido! Néne, o pai tá zoando, isso é frase de música, diz Teresa. Eu aproveito e emendo: “Cadê Teresa, onde anda minha Teresa?” Conta a história, pai. Pai, conta logo! Elas vão me ciceroneando… Eu adoro. Ouçam, minhas filhas, esse som que faz a lua. Vocês escutam? Não!, descrentes. Então, façam um pequeno silêncio, por favor, que a lua está me sussurrando uma história. Neste momento, eu me aproximei da janela. A passos em câmera lenta, minhas meias nos tacos, tirei o abajur da escrivaninha e me sentei em seu lugar, à beira da noite. Minhas mãos em meus ouvidos, como conchas. As camélias do sobrado oloravam, Urdânia molhava seu perfume. Bem, minhas queridas, minhas canções, estou surpreso com o que aconteceu… (Elas gostam do meu tom sério, a seriedade das brincadeiras, atônitas). A lua me contou a menor história do mundo. Posso contar pra vocês? Minhas filhas fecharam os olhos, cobriram os ombros e sorriram. A lua nos disse: calma — se não reflito no mar, eu brilho em suas bolhas por onde bem imaginar…
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