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Colunistas

Chespirito: Sem Querer Querendo

Vida e a carreira de Roberto Gómez Bolaños, o lendário criador de personagens icônicos como Chaves e Chapolin Colorado.

Gabriel Candido
By Gabriel Candido
Publicado 08/08/2025
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Cresci nos anos 90 assistindo Chaves e Chapolin nas tardes do SBT, como muita gente da minha geração. O humor simples, as frases repetidas, os cenários de papelão e as histórias que, por mais bobas que fossem, sempre deixavam um quentinho no coração. Aliás, vale os dois principais pontos que fizeram o sucesso aqui no Brasil, a dublagem original que é excelente, utilizando a localização e com vozes perfeitas marcaram toda uma geração, que infelizmente as outras dublagens não conseguiram chegar, e outro ponto, a repetição e teimosia do Silvio Santos que reprisou em horários nobres por mais de 30 anos no SBT. 

Quando soube que estavam produzindo uma série biográfica sobre Roberto Gómez Bolaños, confesso que fui tomado por um misto de nostalgia e expectativa. Afinal, Chespirito é parte da nossa memória afetiva e transformar isso em dramaturgia não é tarefa fácil. Mas aqui estamos, diante de Chespirito: Sem Querer Querendo, e há muito a se falar.

Segundo a sinopse oficial, a série “acompanha a vida e a carreira de Roberto Gómez Bolaños, o lendário criador de personagens icônicos como Chaves e Chapolin Colorado. A produção retrata sua ascensão como roteirista, ator e produtor na televisão mexicana, revelando os bastidores de suas criações, suas paixões, conflitos e o impacto cultural que atravessou gerações.” A promessa era ambiciosa, e a série, de fato, entrega boa parte disso.

Para quem não conhece a fundo, Roberto Gómez Bolaños começou sua carreira escrevendo roteiros publicitários e programas de televisão antes de se tornar ator. O apelido “Chespirito” veio de um diretor que o considerava um “pequeno Shakespeare”, dada sua capacidade de criar personagens complexos com humor acessível. E foi com essa criatividade que surgiram figuras como o Chaves, o menino órfão da vila; o Chapolin Colorado, o anti-herói atrapalhado; o Doutor Chapatin; o Pancada; e outros tantos que marcaram época nos anos 70 e 80.

A série acerta quando o assunto é reconstituição de época. Os estúdios da Televisa são recriados com um nível de detalhamento impressionante, os figurinos respeitam os visuais originais e a fotografia equilibra bem o tom nostálgico com uma estética moderna. O orçamento da produção claramente foi bem aplicado, com cenários, iluminação e ambientação que contribuem para a imersão  e ajudam a evitar que a série caia no território da paródia ou do pastiche.

As atuações também merecem destaque. Pablo Cruz Guerrero (desconhecido aqui no Brasil), que interpreta Chespirito, entrega um trabalho sensível, fugindo da tentação de apenas imitar os trejeitos do original. Ele consegue dar humanidade ao personagem, mesmo quando o roteiro insiste em suavizar suas falhas. O ator que faz Ramón Valdés (Seu Madruga) também rouba a cena em diversos momentos, com uma interpretação cheia de carisma e melancolia. O elenco como um todo é bem escalado e ajuda a dar veracidade aos bastidores daquela geração de ouro da comédia mexicana.

Mas nem tudo são flores. Como toda cinebiografia, Sem Querer Querendo toma algumas liberdades artísticas, e aí começam os problemas. A série constantemente pinta Bolaños como um gênio incompreendido e injustiçado, atribuindo quase todas as brigas, conflitos contratuais e saídas do elenco a fatores externos. Em vários momentos, ele é retratado como o “cara legal” no meio de um ambiente tóxico, o que, convenhamos, não é exatamente o que se ouviu ao longo dos anos em entrevistas de colegas como Carlos Villagrán (Kiko) e María Antonieta de las Nieves (Chiquinha).

Há uma romantização evidente da figura de Bolaños, como se ele fosse isento de qualquer responsabilidade pelas rupturas que aconteceram nos bastidores. Os episódios mais polêmicos são tratados com extrema delicadeza, quase como se a série estivesse com medo de “mexer em vespeiro”. 

Um exemplo disso é a forma como é abordada a relação de Florinda Meza (Dona Florinda) com o resto do elenco, especialmente com Villagrán. A atriz que a interpreta é competente, mas o roteiro prefere contornar os conflitos do que aprofundá-los. Sabemos, por inúmeras fontes, que a relação dela com o elenco foi turbulenta, especialmente nos bastidores da Televisa. Porém, a série opta por pincelar essas tensões com certo constrangimento, sem realmente mergulhar nas motivações e consequências reais.

Outro ponto que incomoda são os dados incorretos e a liberdade criativa um pouco exagerada. Alguns reencontros e diálogos parecem criados apenas para gerar emoção e isso, embora compreensível do ponto de vista narrativo, prejudica a credibilidade da obra. 

Há um esforço constante em preservar a imagem de Bolaños, transformando-o quase em um mártir da televisão, o que torna a narrativa um tanto desequilibrada. A série parece querer nos convencer de que todos os erros foram dos outros, e isso enfraquece o retrato de um homem que, como qualquer outro, tinha acertos e falhas.

Ainda assim, Chespirito: Sem Querer Querendo tem seus méritos. Visualmente, é impecável. As atuações são fortes, especialmente nas recriações dos personagens que marcaram nossas infâncias. Há emoção, há ritmo, e há momentos genuinamente comoventes. Especialmente quando a série mostra os impactos que Chaves e Chapolin tiveram na cultura latino-americana. Para quem cresceu com esses personagens, há uma alegria quase infantil em vê-los de volta, mesmo que apenas nas mãos de outros atores.

No fim das contas, gostei da série, com ressalvas. É uma homenagem medíocre, que resgata uma parte importante da história da televisão latino-americana. O que precisamos valorizar cada vez mais. A gente cresce consumindo conteúdo norte americano, mas se houver interesse e investimento, podemos contar tantas histórias sobre a televisão latina, inclusive no Brasil. A Série é boa, mas que peca ao tentar proteger demais a figura de seu protagonista (natural, afinal, os filhos estavam presentes na produção). Faltou coragem para expor mais, para aprofundar mais, para assumir que até mesmo os gênios erram. 

É nostálgica, bem produzida e cheia de boas intenções. Mas justamente no ponto mais importante, ela escorrega: o próprio Bolaños. Ao tentar blindá-lo de qualquer contradição ou falha, a série perde a chance de apresentar um retrato mais honesto e humano de quem ele realmente foi. Porque, às vezes, amar um ídolo é também enxergar suas imperfeições. Ainda assim, vale a pena assistir. Nem que seja só para, mais uma vez, ouvir um herói de anteninhas dizer que não contavam com sua astúcia.

Chespirito: Sem Querer Querendo está disponível no catálogo da HBO Max.

Chespirito: Sem Querer Querendo | Trailer Oficial | Max

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TAGS:chespiritosérie
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ByGabriel Candido
Publicitário, pós-graduado em Comunicação e Marketing Digital. No mercado publicitário desde 2012, atuando em agências de propaganda. Além da experiência na equipe de Marketing em emissoras de televisão. Gabriel se inspirou em seu primeiro emprego, em uma locadora de vídeos, para escrever e compartilhar uma coluna sobre filmes e séries. Afinal, ele tinha que fazer alguma coisa com o seu antigo sonho de se tornar um Tarantino aos 30 anos. Linktree: linktr.ee/gabrielhcandido
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