Há aqui uma oportunidade minimamente interessante para darmos cabo de alguns esclarecimentos. Lugares como esse nos tentam. Seja pelo seu nome, a sua localização, a sua tinta na parede. O formato do seu letreiro. Faremos, então, um simples exercício de memória criativa. Será o nosso procedimento para delimitar os fatos e desenhar uma primeira imagem deste lugar especial. Para tanto, sincronizamos sob a mesma frequência: a escrita e o voo. As batidas de tecla nesta máquina acompanham, simultâneas, as batidas de asa de uma pequena borboleta laranja. Aqui.
Minha primeira lembrança é sonora. São falas do meu pai, registradas entre meus oito e onze anos. Ele com alguma habilidade e ritmo mencionava a palavra “loira” entre as suas tantas histórias. Eu não materializava o signo “loira”. E talvez à época não desse tanta importância. A percepção está intimamente ligada à sincronia. Com o pesar dos anos… Há quatro quadras da casa dos meus pais havia um imenso terreno baldio. Coisa de uma quadra completa. Visualizo cenas em que meu pai, irmão e eu jogamos bola naquele recinto, ao lusco fusco. Dias de fora do calendário. Para a minha alegria, esse campo aberto também recebeu alguns circos e parques de diversão temporários. Hoje ele é um conjunto de torres prediais.
Enquanto estado primitivo, a origem que eu conheço, uma aparição acompanhava o terreno: um trailer. Um trailer simples que vendia pastéis. Entre a igreja e o terreno, o trailer encostado, no meio fio. Quando penso nele, agora, é uma caixa de metal verde musgo, e duas sombras trabalham dentro dela. Eu não enxergo seus rostos. É o que tenho quando penso para escrever. Este trailer, musgo, que provavelmente vendeu um pizza para o palhaço, um carne com queijo para a mulher barbada, um escarola para o padre e um ricota para o do tiro ao alvo, era da loira. A mencionada loira neste texto.
Aproveito que a borboleta laranja acabou de pousar para, em sincronia, interromper o fluxo de recordações e tecer um comentário a seu respeito. A loira é a Cida. Uma senhora empreendedora, mãe e avó, que pelo jeito era identificada como loira apenas pelo meu pai.
Borboleta… O seu trailer não durou muito tempo. E era simples extensão da jóia brilhante que motiva este texto: o Cida Lanches. Descendo duas quadras da avenida do antigo trailer, está o interessante estabelecimento. Descoberta — vermelho, com letras em branco: Lanches da Cida. Em cima do nome, uma janela oferecendo todos os cheiros da chapa. O trono de Cida. Atrás dela, uma geladeira, uma mesa de estampas eucalol, uma pilha de pães de hambúrguer ensacolados. Ao lado da janela, um portão gradeado para a garagem, ora garagem, ora salão de mesas para os frequentadores. Uma televisão de tubo de poucas polegadas apoiada no balcão. Uma decoração de Natal permanente. Uma Nossa Senhora Aparecida. Um banner com os nomes dos lanches. Um fusca à venda. Mesas brancas de plástico. Pequenas esculturas de piratas e seus alamares pregados na parede. Luzinhas pisca-pisca. O som do programa do Faustão.
A minha primeira visita foi despretensiosa. Estávamos jogando bola na rua, tivemos fome e alguém nos sugeriu de irmos à Cida. Que eu conhecia por loira, segundo meu pai. Cida era uma morena enlourecida, alta, à altura de seus cinquentas. Naquela venda trabalhavam três gerações, um trabalho estritamente feminino. Cida, a matriarca, sua filha, sua neta. O nome me encantava: Cida Lanches. Sufixos como nome. Enquanto somos jovens, encanto em tudo há.
Os meninos já frequentavam a Cida. Eu era virgem de seus lanches. Aquelas iguarias. Os nomes: X-Mata Fome, Cachorro Louco, X-Gordinho, Bauru, Cachorro Simples. Todos foram de Mata Fome, o Tudo versão Cida. Eu fui de Cachorro Louco: pão de hambúrguer, queijo derretido, alface, vinagrete tostado na chapa, duas salsichas hábil divididas, maionese e ketchup. O amor no cheiro. Como não salivar? Como não escrever, como resistir à tentação de um texto sobre um cachorro quente que leva alface? Louco.
Fora o nome, o encantamento de Cida Lanches é aquela chapa inacreditável. Como não chapar com o cheiro do vinagrete cozinhando. Uma vez quis apresentar o Cida Lanches para uma namorada. Chovia. Liguei para Cida: — É possível comer aí? Ela: — Não. E desligou. Sempre foi possível. A questão é que estamos tratando de um local sui generis, com seus próprios tratados, sua organização interna. Não é qualquer desconhecido que liga e consegue sentar-se para uma refeição com a família Cida. Não.
Este texto não seria este texto sem mencionar uma dupla: o trabalho de Cida e o fogo. O fogo… empreendedora, cozinheira e chapeira, ela vive o fogo todos os dias. Tem dias que o fogo extravasa, descontrola-se. O fogo é. Antes de nós, o fogo. Houve noites e o fogo. Incêndios. Cida já quase perdeu tudo para o fogo. Foi acolhida pelo bairro, doações, campanhas pela lanchonete. Não é possível pensar na Cida sem pensar no fogo… e os caminhos abertos por ele.
A borboleta termina o seu trabalho com a flor e finalizo este texto. A minha contribuição é pequena perto da grandiosidade de Cida Lanches. Eu sempre quis muito e ainda fiz muito pouco. Tentei montar uma banda com o nome Cida Lanches, foi quase. Levei meus melhores amigos para provarem, tirei fotos. Criei o estabelecimento no Google Maps. Eu espalho o nome. A palavra. Cida Lanches… o nome que um dia estará estampado na camisa de um pedestre que toma um ônibus e vai ao cinema. Um nome para perpetuar. Para costurar no tecido macio da eternidade. Para pensar no infinito: como o voo de borboleta. Entrego este texto lagarta. Embalado e cheiroso, para viagem. Temos.
Confira mais textos do colunista: socialbauru.com.br/author/sinuhelp.
