Dezembro de 2021, eu de férias, fui ao cinema para assistir um filme que continuaria uma franquia que eu tanto gostava. Afinal, depois de anos com seu fim, o que não era tão bom, mas mesmo assim, ainda acreditava que dava para contar novas histórias. E aí que foi anunciado: TODO MUNDO (QUASE TODO MUNDO) DE VOLTA, o protagonista, a direção e alguns atores da época. Enfim, fui aos cinemas ver Matrix Resurrections.
Saí do filme com uma sensação bem estranha… ué, estava todo mundo lá, Keanu Reeves como Neo, Carrie-Anne Moss e Lana Wachowski na direção. Não tinha como dar errado. E deu! O filme parecia um “anti filme”, era um recado da própria diretora, “estou fazendo esse filme porque me obrigaram, então vou deixar a pior impressão possível, deixando a menor possibilidade de continuação, afinal, aquela história já tinha se encerrado. E ela fez questão de colocar isso no próprio roteiro, pelas palavras do Agente Smith (Jonathan Groff), “o estúdio quer um novo Matrix, com ou sem a gente, no fim, a gente sempre conta as mesmas histórias desde sempre.
E foi impossível não associar o novo filme de Todd Phillips com Joaquin Phoenix, e pelas próprias palavras da Harley Quinn, aqui interpretada pela Lady Gaga, “eu acho que não é isso que eles querem ver”. E realmente…

Em Coringa: Delírio a Dois, acompanhamos a sequência do longa sobre Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), que trabalhava como palhaço para uma agência de talentos e precisou lidar desde sempre com seus problemas mentais. Vindo de uma origem familiar complicada, sua personalidade nada convencional o fez ser demitido do emprego, e, numa reação a essa e tantas outras infelicidades em sua vida, ele assumiu uma postura violenta – e se tornou o Coringa.
A continuação se passa depois dos acontecimentos do filme de 2019, após ser iniciado um movimento popular contra a elite de Gotham City, revolução esta, que teve o Coringa como seu maior representante. Preso no hospital psiquiátrico de Arkham, ele acaba conhecendo Harleen “Lee” Quinzel (Lady Gaga). A curiosidade mútua acaba se transformando em paixão e obsessão e eles desenvolvem um relacionamento romântico e doentio. Lee e Arthur embarcam em uma desventura alucinada, fervorosa e musical pelo submundo de Gotham City, enquanto o julgamento público d’O Coringa se desenrola, impactando toda a cidade e suas próprias mentes conturbadas.
Ser um musical, foi o menor dos problemas, assim como Matrix Resurrections, aqui NÃO TEM HISTÓRIA para contar. Não tem, um filme de mais de 2 horas de duração em que simplesmente não acontece nada. Eu particularmente gosto de musicais, mas aqui é bem anticlímax. Não convence, e se a ideia era ser uma paranoia na cabeça de Arthur, ficou parecendo um deboche. Afinal, Todd Phillips tinha declarado que não tinha ideia de continuação, e se o filme de 2019 se sustentava por si só. Ou sinceramente, o filme é só uma egotrip que quem sabe num futuro, a gente passe a gostar mais. Eu creio que não.
Desde o início, a expectativa era alta, especialmente considerando o impacto emocional e a profundidade psicológica do primeiro filme. Phillips, ao optar por uma narrativa que mistura elementos de musical e drama psicológico, buscou uma abordagem inovadora. Contudo, o resultado é uma experiência que, para muitos, se revela confusa e fragmentada. A escolha de transformar Coringa 2 em um musical tem suas intenções artísticas, mas também levanta questões sobre a eficácia dessa decisão. A falta de uma estrutura narrativa coesa resulta em uma sensação de apresamento, como se o filme tivesse sido escrito por múltiplos roteiristas sem uma visão unificada. Joaquin Phoenix, que repetidamente demonstrou seu talento incomparável como Arthur Fleck, continua a brilhar, trazendo uma intensidade que ainda impressiona. Sua habilidade de transitar entre momentos de fragilidade e explosões de violência mantém o espectador cativado. No entanto, a performance de Lady Gaga como Arlequina é amplamente criticada. Muitos consideram sua interpretação como falha, sem a profundidade e a complexidade necessárias para um personagem tão icônico. A química entre Gaga e Phoenix, esperada como um dos pilares do filme, é praticamente inexistente, resultando em um relacionamento que parece mais forçado do que genuíno.

Um dos aspectos mais problemáticos de Delírio a Dois é sua narrativa incoerente. A trama parece saltar de uma cena para outra, com a sensação de que ideias interessantes foram abandonadas em favor de uma montagem que não respeita a lógica interna do enredo. A estrutura apresenta lacunas que deixam o espectador perdido, dificultando a conexão emocional com os personagens e seus arcos.
Além disso, a duração de duas horas e meia torna-se um desafio. O ritmo irregular e a falta de uma direção clara transformam a experiência em um teste de paciência. Muitas cenas parecem prolongadas sem necessidade, contribuindo para uma sensação geral de tédio e frustração.
A decepção com Coringa 2: Delírio a Dois é acentuada pelo legado do primeiro filme. O impacto emocional e a profundidade da narrativa original estabelecia um padrão elevado que esta sequência, infelizmente, não consegue alcançar.
Não funciona muito bem como musical, não funciona muito bem como drama e fica no meio do caminho do que se propõe. Fica forte a impressão de que Todd Phillips se esforça para que o espectador crie uma certa empatia pelo coringa, tentando mostrar um lado humano do vilão, o que não convence muito, já que o contraponto da visão do personagem (obviamente um psicopata de primeira) é fraco, são sempre pessoas ruins, egoístas, policiais corruptos, profissionais medianos e personagens sem carisma.
Definitivamente, esse não é o Coringa que a gente conhece do Batman, e esse filme desconstrói aquilo que foi contado no filme anterior, deixando bem claro que aqui é a história de Arthur, até aí tudo bem. Mas tem algo que me incomodou no final, foi a canalhice de sugerir aquele “personagem” fazer o que fez com o Arthur e sugerir QUE TALVEZ talvez seja aquele personagem que a gente conhece…

Ser um musical é o menor dos problemas. Eu gosto, as músicas e cenas são boas. Mas simplesmente não tem história pra contar. Duas horas e meia sobre nada. E mesmo para quem gosta de musical, depois de duas horas, as músicas cansam. No fim, Arthur só queria um abraço e carinho, desde o primeiro filme.
Coringa: Delírio a Dois, 2024
Veredito: 2,5/5
Onde assistir: Nos cinemas
Diretor: Todd Phillips
Agregador no Rotten Tomatoes: 33%
Avaliação IMDB: 5,3/10
