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Cultura / Comportamento

Família bauruense restaura prédio histórico na Vila Falcão e preserva memória do bairro

Cristian Bessone
By Cristian Bessone
Publicado 24/06/1998
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Em algum momento de 2024, o médico Hélder Polido navegava pelo Social Bauru quando se deparou com uma crônica. O texto, escrito por Alexandre Benegas, falava da saudosa Vila Falcão – do açougue da família Bastos, do Bar do Benigno, do Cine São Rafael e das crianças pedalando pela Prudente de Moraes.

Índice
  • O prédio na Vila Falcão
  • A Casa Belmonte
  • Um armazém na Vila Falcão
  • A decisão que a crônica provocou
  • Restauração da Casa Belmonte
  • O que surge?
  • Seu Armando, a família Polido e a Casa Belmonte
  • O endereço de Seu Armando e Maria Helena

E, ao final, havia um trecho que o emocionou:

“Por cuidado, confiando nas mãos cruzadas ou enfiadas no bolso o dinheiro amarfanhado, vestidos e botinas compravam o arroz para feijão nas Casa Belmont […]”

O pai dele estava ali – Armando Polido, fundador da Casa Belmonte e figura conhecida de toda a Vila Falcão, havia entrado para a crônica de um bairro que ele mesmo ajudou a construir.

Naquele instante, Hélder ligou para a esposa, Rosiane, e disse que precisava restaurar o prédio.

O prédio na Vila Falcão

Mãe de Hélder, Maria Helena Polido, de 85 anos, não hesita ao falar do marido. “Ele nunca tirou férias. Nunca”, enfatiza.

Armando era italiano de origem e bauruense de coração. Antes do armazém, trabalhou por um tempo em uma tipografia, mas já com outro objetivo em mente: abrir um negócio de secos e molhados. Era tão dedicado que o patrão lamentou a saída.

Ele, então, comprou um terreno na esquina da Campos Sales, na Vila Falcão, e começou o negócio. À medida que ampliava o comércio no térreo, construía mais um andar acima para a família morar. O prédio crescia junto com a própria trajetória da família.

A Casa Belmonte

Em uma época em que Bauru ainda não contava com supermercados, a Casa Belmonte era uma das referências para compras do dia a dia. Ali se encontrava “de tudo”, como recorda Maria Helena, incluindo arroz, feijão, panelas, cadernos, linhas e agulhas.

Aos domingos, quando o comércio da cidade permanecia fechado, Armando atendia até às 13h e recebia fazendeiros e trabalhadores rurais que vinham de longe para fazer compras. No Natal, permanecia atrás do balcão até meia-noite.

O nome do estabelecimento também tem uma história simples. Belmonte foi escolhido quando ele deixou a tipografia. Nunca houve uma explicação elaborada. “Ele simpatizou com o nome. Só isso”, conta a filha, Gracie.

Um armazém na Vila Falcão

Durante décadas, a Vila Falcão esteve entre os bairros mais movimentados de Bauru, pela proximidade com as linhas de trem. Quando o sistema ferroviário entrou em declínio, o bairro sentiu os efeitos. O movimento diminuiu, os comércios fecharam as portas e a dinâmica da região mudou.

A Casa Belmonte resistiu até 1992. Com a saúde fragilizada, Armando encerrou as atividades. O imóvel passou a ser alugado e com o passar dos anos, os inquilinos saíram, o telhado começou a ceder e a natureza tomou conta do espaço.

“Quando eu peguei, estava cheio de pombos. Tudo destruído. A gente tinha até medo de entrar por causa das doenças”, lembra Rosiane Polido, nora de Armando.

A decisão que a crônica provocou

Depois de ler o texto de Benegas e reconhecer o pai retratado naquelas memórias, Hélder e a família se viram diante de uma escolha: demolir ou restaurar.

Um engenheiro foi chamado para avaliar a construção e, apesar dos danos, a estrutura permanecia sólida. O telhado ainda guardava vigas de peroba-rosa e as paredes de alvenaria estavam preservadas.

Rosiane não teve dúvidas. “Foi a vida dele. Não podia se perder”, comenta. Hélder concordou. E ela assumiu a missão.

Restauração da Casa Belmonte

Durante dois anos e meio, Rosiane fez incontáveis viagens entre São Carlos, cidade que hoje mora, e Bauru. O telhado foi desmontado, parte da madeira reaproveitada e uma nova estrutura metálica instalada com telhas termoacústicas.

As redes elétrica e hidráulica precisaram ser refeitas integralmente, já que haviam sido saqueadas ou estavam comprometidas pela ação do tempo.

As divisórias internas que separavam residência e comércio foram removidas. “A estrutura era muito boa. A gente não mexeu nela. Tiramos tudo o que estava por dentro”, conta Rosiane.

A mão de obra veio da própria Vila Falcão. “Procuramos trabalhar com comerciantes e profissionais do bairro. A gente quis fazer assim.”

O que surge?

O resultado desse trabalho em família é a Galeria Casa Belmonte: cerca de 700 m² revitalizados na mesma esquina construída por Armando, etapa por etapa, ao longo da vida.

O empreendimento conta com três lojas com mezanino. Duas delas possuem aproximadamente 200 m², enquanto a unidade da esquina tem cerca de 300 m².

O espaço principal receberá elevador para acessibilidade. Há também estacionamento privativo em um terreno anexo, obtido por meio de uma permuta com um imóvel vizinho que também pertencia à família. O acabamento inclui granito preto, porcelanato retificado e jardins de inverno em todas as unidades.

A fachada histórica foi preservada. O interior ganhou características contemporâneas. Maria Helena acompanhou tudo de perto.

Seu Armando, a família Polido e a Casa Belmonte

Depois desse processo, a família abriu a Galeria Casa Belmonte com espaços para locação. A família não pretende administrar os futuros negócios. Hélder atua como urologista em São Carlos, enquanto Rosiane é professora universitária.

O objetivo foi devolver o imóvel ao bairro.

O movimento que a ferrovia levou embora talvez não volte da mesma forma. Mas a revitalização da esquina representa uma tentativa de contribuir para uma nova fase da Vila Falcão.

O endereço de Seu Armando e Maria Helena

Maria Helena conheceu Armando em 1957. Casou-se com ele em 1959. Trabalhou ao seu lado durante décadas, passando noites inteiras cuidando da escrituração do armazém.

Ela viu o prédio nascer, crescer, fechar as portas, transformar em ruína e a sua restauração.

Quando perguntada sobre o que sente ao olhar para tudo isso, não demora para responder.

— Felicidade. Ver tudo reerguido, tudo como no começo…

Ela faz uma pausa.

— Você nem calcula.

Armando Polido não está mais aqui para abrir as portas da nova Casa Belmonte. Mas, de certa forma, ainda mora lá.

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TAGS:belmonteemocionalfamílianegóciosSocial Bauru
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ByCristian Bessone
Jornalista
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Jornalista em Graduação pela Unesp - Bauru, Cristian sempre gostou muito de audiovisual, semeando um tipo de conteúdo mais próximo de seu público. Entre seus hobbies estão futebol, corrida e gravação de vídeos. Contato: [email protected] | Instagram: @crisbessone
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