Uma plataforma desenvolvida em 48 horas, por uma única pessoa, pensado para enfrentar uma das maiores desigualdades do Brasil: o acesso à educação de qualidade. Foi com essa proposta que a bauruense Giovanna Moeller venceu, como Melhor Projeto da América Latina, uma competição global promovida pelo Google para desenvolvedores de agentes inteligentes, a Build with Google AI Hackathon.
A maratona internacional desafiava participantes dos quatros cantos do mundo a criar soluções usando o novo Agent Development Kit (ADK), ferramenta ainda em fase inicial da big tech, voltada para construção de agentes autônomos com IA generativa.


O projeto de Giovanna se chama Edu.AI, e foi criado com um objetivo: funcionar como um professor particular gratuito que atue, principalmente, na preparação de estudantes de escolas públicas para o ENEM. A ideia, explica Giovanna, não surgiu do zero. “O Edu.AI nasceu dentro da Nero.AI ainda em 2023, quando meus colegas participaram de uma competição com o objetivo de criar um professor particular gratuito para alunos de escolas públicas. Eu entrei para a Nero depois, mas essa proposta sempre me inspirou”, conta.
A identificação com o problema veio da percepção direta da desigualdade estrutural enfrentada por estudantes do ensino público — falta de professores, internet precária, ausência de apoio individualizado. “O Edu.AI surge como uma ponte para reduzir essa desigualdade, oferecendo um copiloto de estudos acessível, inteligente e disponível 24h por dia”, resume.
Como funciona
O Edu.AI integra diferentes funções e agentes em uma única experiência, coordenada por inteligência artificial. O aluno pode enviar uma redação e receber avaliação com base nos cinco critérios do ENEM — inclusive por imagem, graças à leitura automática via OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres). Pode também gerar simulados personalizados, acessar explicações, montar trilhas de estudo e revisar conteúdos com flashcards.
Quem é Giovanna?

Giovanna Moeller nasceu e cresceu aqui em Bauru e deu os primeiros passos no mundo da tecnologia ainda no ensino médio, ao cursar o técnico em informática no Centro de Tecnologia da Informação (CTI) de Bauru. Foi ali que se afeiçoou pela área e decidiu seguir carreira. Mais tarde, ingressou na Unesp, onde se formou em Sistemas da Informação (SI).
Além da vivência acadêmica e profissional, Giovanna também se dedicou à educação. Atuou como instrutora de programação e desenvolveu cursos online que já impactaram mais de 3 mil alunos. Com um perfil autodidata e prático, construiu sua trajetória unindo conhecimento técnico, vivência em sala de aula e compromisso com projetos de impacto social.
O desafio técnico
A competição impunha um limite de tempo de 48 horas para o desenvolvimento do projeto — e tudo foi feito por Giovanna. As primeiras horas foram dedicadas a aprender a tecnologia do próprio Google. “Usei as primeiras horas para me aprofundar no Agent Development Kit, que é uma tecnologia nova e ainda pouco documentada”, explica. Depois disso, traçou a arquitetura da solução: um ecossistema formado por oito agentes inteligentes, cada um com uma função autônoma — da correção de redações à criação de simulados, passando por explicações didáticas, flashcards e recomendações de vídeos.
A organização do produto priorizou modularidade e reaproveitamento de componentes. A interface, por sua vez, foi desenhada para funcionar mesmo com conexão instável e celulares de entrada, condição comum para os estudantes que fazem parte do público-alvo.
“Durante as 48 horas do hackathon, os testes foram realizados com dados reais e interações simuladas, focando nos fluxos principais que um estudante faria ao usar a plataforma. Priorizei componentes reutilizáveis e uma arquitetura que facilitasse interação rápida”, relata. “Meu critério essencial foi garantir que qualquer aluno, com um celular básico, conseguiria usar a plataforma sem depender de suporte técnico.”
O que vem agora
A vitória continental trouxe visibilidade internacional para o projeto, mas a equipe da Nero.AI já trabalha nos próximos passos. “Estamos em fase final de ajustes técnicos para lançar uma versão pública e gratuita, com apoio institucional da Nero.AI e, possivelmente, de parceiros como o próprio Google”, afirma Giovanna.

O plano é iniciar testes com escolas públicas e organizações sociais, além de ampliar o escopo para outras provas além do ENEM. A ideia é consolidar o Edu.AI como uma frente contínua de impacto social da Nero.AI, voltada à educação pública.
Apesar da conquista, Giovanna evita discursos grandiosos. Quando perguntada sobre o impacto esperado do projeto, responde: “Meu sonho é que o Edu.AI cumpra seu propósito. Se implementado em larga escala, ele pode reduzir significativamente a desigualdade de acesso ao ensino de qualidade, oferecendo suporte contínuo, gratuito e personalizado para milhões de alunos da rede pública.”
