“O que você mais gostou de fazer na sua carreira?”
“Só na carreira? Ou na vida?”
“Em tudo.”
“Ser pai.”
A resposta vem rápida, sem pose ou hesitação. E talvez esteja ali, nesse gesto simples, a síntese de quem é Josiel Rusmont — compositor, músico, produtor, escritor, fã de café, pesquisador da Cultura Popular e, acima de tudo, pai do Bubu e do Little John.
Visitamos sua casa, e o cenário explica melhor que qualquer ficha técnica. Entre carrancas na estante, quadros, instrumentos e o aroma do café recém-passado, Josiel fala da vida com a mesma naturalidade com que muda de acorde. É um homem que organiza o mundo pela música — e pela memória.
Recomendo lerem a matéria escutando o próprio Josiel, que tem seus trabalhos disponíveis no Spotify.
Das origens à descoberta
Josiel nasceu na Bahia, mas foi ainda menino que começou a percorrer o mapa que mais tarde se tornaria também o mapa da sua trajetória musical. “Eu saí da Bahia montado num pau de arara”, recorda. “Eu tinha quase 8 anos e fui pra Brasília.”
Foi lá que viveu a adolescência e começou a se aproximar do som, ainda como ouvinte. “Eu gostava de música, mas não tinha a música como algo de tocar um instrumento. Eu gostava de ouvir”, conta.
O primeiro contato com o violão veio pelas mãos de Adalberto, um mineiro de repertório vasto e violão afinado. “Ele tocava um monte de música que eu gostava de ouvir, e eu ficava curioso pra tentar entender como aquilo funcionava.” Logo, ganhou um violão Giannini antigo e começou a rascunhar os primeiros acordes e composições. “Assim que ganhei o violão, eu queria compor. Eu queria escrever.”
Ainda em Brasília, formou sua primeira banda — Vassoura Elétrica, um grupo de blues com amigos. Era o início de uma longa relação com o som, mas o verdadeiro encontro com a música — aquela que se mistura à vida e ao território — viria depois, em Bauru.

Na cidade lanche, veio o criador
Sim, foi em Bauru que Josiel transformou o interesse em vocação. A cidade foi o ponto de virada, onde o hobby virou ofício. “A música, ela chegou aqui”, ele diz, com naturalidade.
O primeiro disco nasceu em 2005, com a banda Terapia B, mais tarde rebatizada como Estereoterapia. A sonoridade misturava rock, MPB e poesia cotidiana. Foi com esse trabalho que o grupo cruzou o caminho do Los Hermanos, quando a banda carioca passou por Bauru. “A gente gostava pra caramba deles, porque tinha essa coisa do rock and roll com a MPB junto.” O encontro rendeu elogios, trocas e a confirmação de que o caminho era aquele.
O disco também trouxe outra consequência: um convite inesperado. Um homem de uma igreja ouviu as músicas e quis gravar com Josiel. “Mas eu não tinha estúdio, né?”, ele conta. Mesmo assim, topou o desafio. E daquele improviso nasceu um novo ofício. “Dei um preço pra ele e, assim, nasceu o estúdio.”
Sem perceber, o músico virava produtor. De um projeto, veio outro, e outro — até que precisou abrir empresa, fechar o ciclo como professor e assumir o risco da criação como modo de vida. “Era uma época que eu podia correr esse risco. Eu pensei: vou arriscar ser empreendedor e fazer produção musical.”
Entre o som e o silêncio
Recomendo escutar enquanto lê essa parte específica.
Hoje, o estúdio é parte da casa — e a casa, extensão do estúdio. O trabalho se mistura à vida, o violão divide espaço com brinquedos, e a rotina familiar também é criativa. Mas esse equilíbrio foi posto à prova durante a pandemia.
“Durante a pandemia, eu entrei num parafuso gigantesco — quase todos nós, né?” Enquanto o mundo se fechava, os filhos passavam mais tempo diante das telas, e ele se viu diante de um dilema. “Cara, eu não posso permitir que isso aconteça.”

A solução veio de onde sempre vem: da música.
“Eu falei pra eles: vamos compor um disco? Vamos escrever sobre as escolas, sobre os amigos?” Assim nasceu o álbum “Amigos do Globo”, com nove canções compostas e gravadas em família. Um projeto nascido da culpa, transformado em afeto e registro de convivência.
Conhecimento que se espalha
Na música e fora dela, Josiel entende o saber como partilha. “Eu gosto de pensar que o conhecimento não é meu. Quando ele me chega, eu tenho quase uma obrigação de repassá-lo.” É dessa ética que vem sua dedicação à Cultura Popular — não como nostalgia, mas como presença.
Entre discos, pesquisas e produções, o artista constrói uma ponte entre o passado e o contemporâneo, entre o regional e o universal. Como ele próprio resume: “Eu abraço isso com as asas de todos os pássaros, como diria Guimarães Rosa.”
A utopia como bússola
Em certo momento, a conversa muda de tom. Pergunto por que ele faz o que faz, por que tanto apego à cultura, ao som, à palavra. Ele cita Eduardo Galeano — e a resposta parece encerrar o círculo:
“Pra que serve a utopia? Ela serve pra você sempre ir atrás dela. Ela nunca é o que você vai alcançar, mas ela sempre vai ser a busca.”

A música, para Josiel, é essa busca. Um modo de olhar o mundo e tentar reorganizá-lo. É também uma maneira de transmitir o que aprendeu: que a arte não é refúgio, mas direção; não é produto, mas processo.
E é assim, entre composições, gravações e cafés, que Josiel Rusmont segue — músico, produtor, pesquisador e pai — uma prova viva de que a cidade vai muito além do Bauru.

