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Colunistas

O meu duplo está em Bauru

Sinuhe LP
By Sinuhe LP
Publicado 03/07/2025
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Na foto acima, não sou eu. Este texto é sobretudo um aviso. Sem rodeios. Um aviso de uma
emergência. E para não haver nenhum engano. O meu duplo está em Bauru. Ele está.
Chama-se e atende por Sinuhe LP, tem 1,90 de altura, moreno, usa óculos azuis, tem uma
tatuagem no braço direito, digo, esquerdo, na altura do ombro. Devoto de São Jorge. Ama
falar sobre literatura, sobretudo brasileira, e vai adorar se você perguntar a ele se gosta de
Guimarães Rosa. Se ler algum texto que ele produziu, então, é capaz de te convidar para
jantar. Bem, eu me alongo nas bobagens, meu filho, mas o assunto é seríssimo. O meu
duplo está em Bauru. As evidências não negam. Se parece muito comigo, tem frequentado
a minha casa, digo, a casa dos meus pais, justo quando não estou. Eu estou com medo. Ele
está. Ele não sabe que eu sei dele. Mas sabe quem eu sou. E ainda não ousou me
procurar. Mas agora a coisa fica mais séria. Eu estou na rodoviária. Em minhas mãos: uma
passagem para Bauru. Em poucas horas vou existir na mesma cidade do mesmo. Eu tenho
medo do mesmo. Eu mesmo, só que o outro. Larguei tudo e estou correndo — para Bauru a
minha cidade que eu inventei. Não ele. Ele está. E ainda está temerário a repetir todas as
minhas coisas. As minhas amizades. Os meus lugares. As minhas frases. Os meus nomes.
Do princípio: as evidências não negam. Dois Sinuhes. A primeira desconfiança veio de
histórias desencontradas. Alguns amigos me escrevendo no WhatsApp relatando causos
que desconheço. Ele roubou meus amigos! Eu não sei onde ele pode parar. Em uma manhã
de maio, acordei com uma sequência de novos seguidores no Instagram. Fato estranho. E
entre os stories de amigos me vi — sim — me vi — não — vi ele recitando Paulo Leminski
no meio de um sarau debaixo de um viaduto. Eu — ele dizia amar é um elo / entre o azul e
o amarelo. Ele é bom nisso. Esse tal de Sinuhe, só que o contrário. Para mim, Paulo, sarau,
elo, foram o estopim. Serviu para cair em mim: a história era real. Pensei ter bebido na noite
anterior, ao não lembrar o sarau de Bauru. Mas era impossível. Eu estava em Curitiba, a
terra de Paulo, a 500 km de Bauru. Se você me encontrou por esses dias — se eu recitei
Ana Cristina César a teus pés — esqueça, foi ele. Ele com as suas mumunhas. Me
perdoem, ele não sabe o que faz. Perdoem-me por me trair. E ainda não sei o que mais ele
pode fazer, se pode ser violento, nunca estivemos juntos. Ou melhor, quase. Era uma
segunda. Onze horas da noite. Eu estava no Habibs — o ponto de carona, e procurava o tal
gol bolinha que me levaria a São Paulo. Parece que naquele dia, naquela hora, todo gol
bolinha bauruense estava por ali reunido. Cópias. Entre as sequências, encontrei o meu
esperado. O condutor olhou para mim e disse: ué, você já me perguntou e era o outro
bolinha. Pensei até que já tivesse saído. Minha sorte foi mostrar a minha reserva no Bla Bla
Car. Mais uma obra do estrupício. Ele também estava a caminho de SP? Fazer…? Passei a
viagem receoso de chegar ao meu apartamento e ele deitado na minha cama. Ou fazendo
janta para o meu irmão. Será que ele sabe escrever o nosso nome? Sabe onde colocar o
H? Cuidem-se. Agora… O meu maior medo é encontrá-lo e… abraçá-lo, beijá-lo e amá-lo
eternamente, como um narciso, um escritor jovem, um músico da MPB. Aquele que se ama.
E se de repente ele for o balanço pendurado na minha mangueira, o ditongo da minha
paixão, a tramela do meu segredo, o sino da minha mimosa, o h de meu nome, a canção do
meu Chediak, a lição do meu caminho suave, a cedilha do meu alfabeto, o til do meu
coração, o café da minha madrugada de hotel, as chuteiras resistentes do meu poste, o
ninho do meu joão de barro, o pênalti da minha final jogando em casa, o solo do meu
musical, o travessão do meu monólogo, o the end do meu filme favorito, o alazão do meu
santo, a lata de meu Andy, a cheia do meu rio, a mágica do meu circo, a antena do meu
radinho de pilha, o trevo do meu azar. Já estou sentado no ônibus. Já estou com um pouco
de sono. Já estou chegando a Bauru — inevitável a gente sabia — a noite já encontra o dia.

Confira mais textos do colunista: socialbauru.com.br/author/sinuhelp.

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TAGS:Baurucolunasinuhe
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BySinuhe LP
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
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