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O tempo em Bauru

Sinuhe LP
By Sinuhe LP
Publicado 05/08/2025
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— O tão que o rio viu, nenhum conseguiu. 

Era o tempo. Os antigos quando passavam próximos a ele não tardavam em dizer: o tempo. Bauru por dentro apontava o seu próprio relógio, a engrenagem que controlava o início e o fim dos seus dias, o maquinário para a idade da cidade, o esqueleto de sua maturidade, o sistema de suas quatro estações — o rio. 

Que corria incessante, lindo e apaixonante, como o tempo. O tempo era o rio, o rio intransponível, incomunicável, inegociável, implacável. O belo Rio Bauru. Interessante essa cidade cujo nome também é rio e é tempo. O tempo a céu aberto. Crianças nadavam no tempo: como a idade pede. Brincavam de mergulho: e se demoravam, faltava fôlego. Eram imprudentes, às vezes, nas correntezas do tempo, e eram advertidas pelos pais. Tinha risco de afogamento. O tempo… Adultos pescavam no tempo. Apontavam suas varinhas para ele, e esperavam, esperavam, esperavam. Atividade laboriosa, atividade paciente. Vezes esses adultos pescavam alguma coisa no tempo. Demoravam, como o tempo exige tempo. Nem sempre gostavam do que o tempo oferecia — tanta demora valia? Pensavam. 

Quando chovia, vezes o tempo transbordava para fora, momentos de quase ficção: o tempo era outro. Não era ontem, nem hoje, ou amanhã. Era outro. Era o rio. Ao derramar, as coisas mudavam, o tempo tomava outras formas, encaixava-se por outros espaços, tinha outras feições. Ficções. Um dia — comum — uma senhora ensimesmada construiu uma canoa para navegar no tempo. Com sua vela aberta, foi de uma margem à outra (entre ontem e amanhã), e não parou nem nesta e nem naquela, ficou entre as duas (hoje). 

— Um rio pequenininho, cabe na minha mão e no copo d’água que bebo na sede. 

É o século retrasado, o dezenove. O ano: dois antes do nascimento de Bauru — 1894. Eu estou entediada, confusa. São os meus catorze anos. Aquela chaminé é enorme, tem muita fumaça. Não sei quantos dias foram, se já foram dias: tudo me parece um sonho bom. O ócio da minha adolescência. Estamos eu, papai, mamãe e meus dois irmãos mais novos. No início, eu não tinha entendido muito bem a ideia… Mudar? Pela água? Como o tempo muda o tempo todo e nunca é ele mesmo. Mudamos. Mas papai me mimou (conhece a peça), é a segunda vez dele aqui, ele já fez essa viagem. Assegurou a gente que ficará tudo bem. Só meus irmãos se assustaram um pouco, eu estou tranquila. Mamãe enjoada. Quando atravessamos a passarela, ele me deu um presente. Tinha mandado fazer na esquina de nossa antiga casa uma miniatura, eu amo miniaturas, uma miniatura de um barquinho. O detalhe: pediu que talhassem um nome nele: Celeste 14. Eu não largo meu barquinho. Que é uma versão menor deste vapor, nós vamos morar aqui no vapor até chegar ao Brasil. Pousaremos em Santos no dia 13 de outubro, de lá iremos para Bauru. Tudo muda, tudo sana. Às vezes, com o balanço que o mar me dá, eu penso coisas. Muito marulho. Agora estou com a mania de olhar para o meu barquinho, como se ele realmente fosse a versão menor deste vapor. De verdade. Eu fico procurando a gente, papai, mamãe. E às vezes me vejo nele me procurando — eu gosto. Também vejo outras coisas… 

— Eu tomei um susto: o rio estava dentro do meu armário. 
É o século passado, o vinte. O ano: alguns antes de Bauru completar um século — 1980. Minha mãe não está em casa. Vou conferir, quem sabe?! Eu dependo dela. Na 1 verdade, tento. Eu não conheço meu pai. Um desconhecido. Até hoje tive alguns pais e algumas mães, depende do dia, da lua. Acabei de atingir a maioridade, sim. Nada mudou, só o tempo, que escolheu continuar passando. Eu obedeço, é claro. Mas… hoje é sexta-feira, dia de descanso. Quero me divertir, eu vou. Ouvi dizer que algum baile vai acontecer, vou com Nilson, meu amigo. Vamos dançar, conheceremos garotas, passaremos no Baiano, ele nos fará um lanche fiado, o de sempre. Pagamos amanhã, quem sabe? Mas para entrar na festa, eu preciso de um trocado. Na casa de minha mãe, ela não está em casa, certeza. Saiu para trabalhar, são seis da tarde, hora de trabalho. Não falei? Ela não está aqui. Tudo nos conformes. O quarto dela é o dos fundos, o melhor. Minha mãe não me mata se eu levar um trocadinho para o baile, mata? É coisa pouca, não fará diferença, não importa. Abro armários, levanto o colchão da cama, revisto mais de dez bolsas. Não encontro nada. Encontro bolachas de maizena, barras de chocolate, cereais. Preciso de pouco, quase nada. Mas preciso encontrar algo. Finalmente estou a uma gaveta, ao lado da cama. Encontro: nenhum dinheiro. Mas uma carta. Dobrada. Em sua face primeira, o destinatário: Caso Verdade. Uma carta para a Globo? É sério. Leio a primeira linha. É uma carta da autoria de minha mãe… Estou em prantos. Como descrever a carta aqui? A carta é a carta. Copiá-la seria contradizê-la, não sê-la. Mas preciso dizer que é uma carta escrita pela minha mãe, de próprio punho, contando a sua história de origem. Eu não conheço a sua história. A passagem que li e ainda guardo no peito para um dia contar aos meus filhos é o seu começo: venho de uma família de libaneses, fui colocada recém-nascida em um pequeno cesto, embrulhada em panos, e largada no porto de Santos. Por sorte e tempo, uma família de Minas me acolheu, no cais, e fomos dali pra frente iguais, uma família.

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BySinuhe LP
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
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