Em meio a uma enxurrada de filmes genéricos, continuações previsíveis e histórias
recicladas, Pecadores surgiu para mim como uma verdadeira surpresa. Confesso que
fui assistir sem grandes expectativas, imaginando mais um thriller sobrenatural e com
um clima de terror com vampiros em meio a um cenário urbano. Mas foi algo
completamente diferente, um filme original, provocativo, carregado de simbologia e
profundamente conectado às raízes da cultura negra americana.
A ousadia da narrativa, a forma como mistura gêneros e principalmente a maneira
com que utiliza o mito dos vampiros como metáfora para a opressão racial. Poucas
vezes fui impactado por uma obra que consegue ser, ao mesmo tempo, divertida,
dolorosa, misteriosa e necessária.

Em um bairro periférico dos Estados Unidos, uma família negra descobre que está
sendo perseguida por uma seita de vampiros milenar. Conforme a ameaça cresce, os
protagonistas percebem que essa seita é mais do que criaturas sobrenaturais — são
uma elite branca e opressora disfarçada de mito, determinada a apagar tudo o que
representa resistência, ancestralidade e cultura negra. Para sobreviver, eles precisam
recorrer à música, à dança, à memória e, acima de tudo, uns aos outros.
Um drama sobrenatural que bebe do blues para contar uma história sobre
resistência negra. Ryan Coogler entrega sua obra mais ousada até agora. Conhecido
por construir narrativas centradas na identidade negra com profundidade e dignidade,
Coogler já havia conquistado público e crítica com filmes como Fruitvale Station
(2013), o maravilhoso Creed: Nascido para Lutar (2015), um dos melhores filmes da
Marvel, Pantera Negra (2018) e sua sequência Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
(2022). Aqui, ele mistura gêneros para criar algo verdadeiramente original.
Apesar de o marketing ter vendido o filme como uma experiência de ação
sobrenatural, quase um blockbuster de vampiros reinventado, o filme é, na verdade,
um drama com um ritmo mais contemplativo, que exige entrega e paciência. E quando
se compreende essa proposta, tudo começa a fazer sentido.
O filme não está interessado em reinventar os mitos dos vampiros com efeitos e
reviravoltas mirabolantes, ainda que elementos clássicos como alho, estacas e rituais
estejam presentes, mas sim em usar essas figuras como metáfora para a opressão
histórica vivida pelo povo negro nos EUA.
A seita de vampiros que se opõe aos protagonistas, liderada com intensidade por
Jack O’Connell, funciona mais como um reflexo das elites brancas colonizadoras do que
como vilões sobrenaturais. São eles que exploram, se apropriam, tentam apagar,
exatamente como a sociedade fez por séculos com a cultura afro-americana.

Michael B. Jordan, em mais uma colaboração com Coogler, entrega uma atuação
impecável. Há força, mas também vulnerabilidade. Seu personagem pulsa com o peso
da ancestralidade e da responsabilidade. O restante do elenco também brilha, com
interpretações coesas que sustentam a tensão e a emoção da narrativa. O filme não é dos mais familiares, é algo um pouco pesado, pela linguagem e cenas mais explícitas.
A trilha sonora de Ludwig Göransson é um espetáculo à parte. Vencedor do Oscar por Pantera Negra, Göransson tem se mostrado um dos compositores mais criativos do cinema atual. Além da parceria constante com Coogler, sua carreira inclui trabalhos marcantes em Tenet, O Mandaloriano e Creed. Aqui, ele mergulha no universo do blues, costurando canções com guitarras abafadas, vocais rasgados e batidas rituais que evocam a dor e a espiritualidade da cultura negra. A música, assim como o sangue no filme, é conexão, é memória e é resistência.
O blues, que nasceu do sofrimento e da criatividade da comunidade negra
americana, está presente não apenas como música de fundo, mas como forma de luta,
como linguagem. Esse gênero, com raízes nas plantações do sul dos EUA, influenciou
praticamente todos os estilos musicais modernos do rock ao jazz, do soul ao hip hop e
aqui ganha o destaque e o respeito que merece.
Do ponto de vista técnico, a fotografia é impecável, explorando contrastes entre luz
e sombra para criar tensão, mas também beleza. A produção é caprichada, com
cenários ricos em detalhes e uma direção de arte que homenageia tanto a cultura afro
quanto o terror clássico.

Pecadores é um filme muito diferente e muito original e isso vai dividir opiniões. O
elenco está impecável, a produção é sofisticada, mas a narrativa arrastada da primeira
hora pode afastar quem esperava um ritmo mais direto. Com 140 minutos de duração,
alguns espectadores podem sentir que 100 minutos seriam suficientes. No entanto, é justamente essa imersão mais lenta que prepara o terreno para um segundo ato intenso, cheio de viradas inesperadas, culminando num dos plots twists mais fantasiosos e improváveis dos últimos tempos.
“Que roteiro louco!”, exclamam muitos e com razão. A história começa de uma
forma e de repente muda tudo. O filme é divertido, misterioso em alguns momentos, e
mesmo com sua cadência mais lenta, não flerta com o tédio. Há quem diga: “Faz
tempo que não via algo tão original”.
É um filme que exige entrega. Para quem aceita a proposta, o resultado é uma jornada surpreendente, que usa música e dança para mostrar vida e o terror de uma comunidade oprimida. É cinema que tem algo a dizer, que vibra com identidade, que usa o sobrenatural como lente para falar do real.
Em um momento em que Hollywood se repete com continuações e remakes,
Pecadores surge como um respiro criativo, um filme que pode não agradar a todos,
mas que jamais será ignorado. É uma história ousada, que mistura gêneros e entrega
uma crítica social embalada em estética, som e alma.
Ryan Coogler mais uma vez prova por que é uma das vozes mais importantes do
cinema contemporâneo. E com a parceria de Michael B. Jordan e Ludwig Göransson,
ele nos dá algo raro: um filme que pulsa, que incomoda, que canta e que sangra.
Pecadores não é para assistir passivamente, é para sentir.
Ryan Coogler, 2025
Veredito: 4/5
Onde assistir: Nos cinemas
Diretor: Ryan Coogler
Agregador no Rotten Tomatoes:98%
Avaliação IMDB: 8,1
Pecadores l Trailer Oficial #2 Dublado
