Em uma aula de física no ensino médio, Yasmin se encantou pelas Leis de Newton. Foi amor à primeira vista. O professor que ministrava a aula precisou indicar livros de astronomia para que a aluna saciasse a curiosidade.
Depois de ler sobre os astros e a física clássica, ouviu falar em uma tal de física quântica. Adentrou a matéria escura, mergulhou na teoria de tudo e chegou na teoria das cordas. Você não leu errado, uma menina de 14 anos lendo Teoria das Cordas!

Desde antes do ensino médio, Yasmin era daquelas crianças que sonhavam em ser cientista: “A gente não é alimentado com a ideia de que podemos realmente virar cientistas, que podemos entrar na universidade e fazer isso”. Ávida por conhecimento, todas as matérias da escola eram suas favoritas.
É por isso que, hoje, seu trabalho de pesquisar o diagnóstico precoce do câncer de mama gira em torno da física, computação e medicina.
E o amor não era apenas pela ciência, Yasmin queria o “a mais” de fazer a diferença no mundo. No seu projeto de vida, ela não se via apenas trabalhando, mas fazendo isso por quem precisava.
O diagnóstico dentro da família
Quando tomou a decisão de fazer Sistemas de Informação e começou a prestar os vestibulares, em outubro de 2022, sua mãe, Márcia, foi diagnosticada com câncer de mama. “Mas ela sempre passou muita força para mim, para o meu pai. Ela nunca deixou eu me abalar pelo diagnóstico dela. E eu continuei estudando, estudando, estudando para entrar na faculdade”.

A avó paterna de Yasmin faleceu em decorrência da mesma doença quando seu pai tinha apenas 4 anos. Mesmo com o histórico da família, ela não se assolou e a aprovação para a Unesp de Bauru veio em janeiro.
Logo no primeiro ano, Yasmin Rodrigues Sobrinho soube da possibilidade de unir todas as suas paixões na ciência e pesquisar sobre o diagnóstico antecipado para o câncer de mama: “É em homenagem à minha mãe, é em homenagem à minha avó, que eu não conheci, e em homenagem a todas as pessoas que sofrem por conta dessa doença”.
Hoje, a estudante concretizou tudo o que sonhou. A mãe está curada e pôde ver a filha desenvolver o estudo que ganhou o 1° lugar de Sistemas de Informação do XXXVII CIC Unesp, o Congresso de Iniciação Científica e Tecnológica da Unesp, no curso de Sistemas de Informação.

A pesquisa
O tema da iniciação científica da pesquisadora, vencedor do congresso, é “Redes Neurais Convolucionais Quânticas para a Detecção de Câncer de Mama Utilizando Mamografias”. O professor orientador do projeto é o Prof. Dr. João Paulo Papa, especialista em inteligência artificial, com pesquisa focada em processamento de imagens e reconhecimento de padrões.
O câncer de mama foi escolhido como objeto de estudo pelo professor por ser, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o tipo mais comum entre mulheres no mundo, com 2,3 milhões de casos e 670 mil mortes registradas em 2022.
Em entrevista à Agência Fapesp, Papa contou como a detecção precoce é crucial para aumentar as chances de sobrevida. Entretanto, métodos tradicionais, como a mamografia, dependem de interpretação humana e podem gerar variações.

A computação quântica entra na história justamente para potencializar as possibilidades no diagnóstico.
Vou tentar explicar como ela funciona de um jeito mais simples: na física clássica, a equipe do Social Bauru sabe que, neste momento, está no escritório. Já na física quântica, temos 99% de chance de estarmos no escritório, mas 1% de estarmos em qualquer outro lugar do mundo. Esse 1% pode ser dividido em vários 0,1% de outras opções e assim por diante.
Essas infinitas possibilidades tornam o quântico um universo ainda a ser explorado, mas com muito potencial.
No mundo, existem pouquíssimos computadores quânticos e potentes, visto que seu uso e funcionamento são extremamente caros. Os que existem, estão em fase experimental e possuem poucos qubits – que são os bits da computação clássica.
Computação quântica para diagnóstico
Por isso, Yasmin e Papa usaram um simulador de como esses circuitos se comportariam em um mundo quântico ideal. Mas isso em si já limita o estudo, segundo a pesquisadora.
Na simulação quântica, com apenas 4 qubits, eles conseguiram uma taxa de 87% de acerto, enquanto na máquina convencional, que tem trilhões de bits normais, a taxa de acerto foi de 92%.

Esses dados representam que, com o avanço da tecnologia quântica, é possível evoluir significativamente nos diagnósticos não só de câncer de mama, mas também para análise de lesões cerebrais e outras doenças.
Próximos passos
Para o futuro, a expectativa da estudante é trazer cada vez mais dados e melhorar o modelo. Ela fala da sua vontade de seguir com a pesquisa no mestrado e coloca a esperança em outras gerações: “[Queremos] cativar o público, as crianças, os jovens, para que eles venham para a área e que no futuro a gente possa salvar vidas com isso”.
O investimento e valorização da universidade pública proporciona que pessoas como a Yasmin possam desenvolver e continuar desenvolvendo esses projetos, além de orgulhar a família, sentimento vivo dentro da dona Márcia: “Ela falou que tava muito orgulhosa de mim e que era para continuar com tudo isso. E é o meu sonho continuar com tudo isso”.

