Voltando do Rio de Janeiro, escrevi para Zíbia Gasparetto. Queria conhecê-la e ela prontamente topou, sem resistências, sem estrelismo. Sentamos no Fran’s Café para conversar, próximos da calçada. E me lembro perfeitamente do cheiro. Um cheiro bom, formoso, como têm as boas ideias, criativas, novas em folha. Como as vésperas também têm, quando vão estourar. No ar… Entre nós, havia uma tensão quase sexual. Pelo menos essa era a minha leitura. Não que eu desejasse Zíbia, não. Nem ela a mim. Mas a vontade de conhecer, a postura, a escuta, o alinhamento de astros, o acolhimento, os braços, tudo estava quente. Zíbia… Sinuhe… Ela tão simpática e definitivamente mais velha que eu, um menino. Tudo ali, mesmo entre as escolhas das palavras, tinha um tom professoral. A experiência. Até porque Zíbia, escritora famosa, publicada e, aqui é que está a coisa, lida! Leitura. Zíbia era lida, por muita gente. Amém, viva a Zíbia lida pelos seus leitores. Até hoje. A estória que se completa… Conheci sua existência por acaso. Trabalhando como assistente em uma locadora em Bauru, um bico, uma vez comentei à moça da limpeza que um dia gostaria de ser escritor. Ela achou bonito, admirou-se-se. E comentou que gostava de ler Zíbia Gasparetto. Achei demais: primeiro porque nem sabia que Lili era uma leitora ativa, os erros dos nossos primeiros julgamentos, leituras erradas, e segundo porque não conhecia a tal Zíbia. Ao final daquele dia, que já era noite, como sobrava a mim fechar a locadora na Avenida Nossa Senhora de Fátima, Lili foi embora antes, ao ponto, e me entregou um papel. Dobrado como uma memória, pronta para ser lembrada, aberta. Que lembrei: era um endereço, de cidade que não recordo. Esta é a casa de Zíbia, escreva para ela, você quer ser escritor, disse Lili. Que se foi. Em dez dias Zíbia me respondeu, em carta, e direcionava o nosso encontro para o Fran’s. Por que Zíbia estava em Bauru? São perguntas que se somam a este relato e também à nossa existência, junto a “o que é a vida”, “por que escrevemos”, “o que é e por que ser escritor”, etc. Fomos e estávamos lá, em carne e osso. Foram horas juntas, belos tempos. Ela me instigara a escrever, ser e estar escritor, eu que me via — e às vezes me vejo — na eterna sala ao lado, em estado de espera, um dia ser escritor. Transforme o nosso encontro em um texto, ela bramou, por fim, enquanto nos abraçávamos. Que Zíbia não me chamava naturalmente de Sinuhe, não, e sim de Sã. Foi o modo como leu meu nome. Zíbia, também leitora. Nunca corrigi. E nunca mais nos vimos, trocamos algumas cartas, respondendo rápido, à mão, sempre. E lá se foram muitos anos, tempo de crescer uma árvore. Vi Zíbia ao vivo aquela uma única vez. Morava em Bauru? Não seria de surpreender: Bauru é como aquelas cidades que escondem bons tesouros e prezam por não revelá-los. Muitos esconderijos. O que vou relatar agora aconteceu justamente quando eu estava trocando de quitinete. Quando morei por três semanas no Enigma Hotel, na Avenida Duque de Caxias, uma espelunca. Eis uma quarta em meu carto, digo, uma carta em meu quarto, em meu nome: uma folha dobrada com uma frase única: Tem piedade, Sã. À mão. Deste ponto final, poderíamos começar um romance detetivesco. Mas, como diz uma placa pregada às grades que cercam uma construção rodoviária em Lisboa, seremos breves. Quem me chamava de Sã? Zíbia. Mas estamos em 2026, Zíbia faleceu em 2018, tenhamos escrúpulos. Isso eram sete horas da manhã. Eu justamente acordei com a fricção do envelope roliço com dificuldade para passar por debaixo da minha porta. Talvez uma carta que ela me mandou em vida, e por obra de um sofisticado plano, chegara ao meu conhecimento só agora? Desci para o térreo pelas escadas, a carta em mãos, porque não existia um elevador no “hotel” de três andares. Cheguei até aquele café da manhã fétido. Tomei uma maçã e uma porta vermelha me chamava a atenção. Dei pequenos toques na madeira. Alguém que não vi abriu, e me pediu para sentar. A estranheza e a sujeira daquele local um tanto me atraíam. Eu estava sozinho. A sala era pequena, vazia. Nenhuma janela. Deitei em um sofá dos anos noventas com a maçã. Que mordi a maçã deitado e fiquei meio tonto, com vertigem, me levantei e sentei no meio do estofado, cruzando as pernas. Um som de corneta se repetiu em dois compassos, como se anunciasse um acontecimento, e désse partida!, soando apenas dentro da minha cabeça. Olhei para frente, e me assustei. Tudo em meu pensamento parecia girar, as ideias encaracolizavam, nítidas, as ideias em linha multicor. Levantei do que parecia ser um filme ilusionista. Sai da sala, voltei ao café, à frente, uma mesa com quitutes duvidosos, um bule, frutas, um bolo, leite. E inventei de tomar café com leite, querendo requentar meu pensamento. Quando peguei a caixinha de leite com a mão direita, tomei um susto. Primeiro porque o ato sempre fora o meu flagra: desde pequeno nunca acertei o leite no copo. Sempre garantia respingos à mesa, ora enxugados com guardanapo de pano, ora com a bucha amarela e verde da pia. Tentei me concentrar: olhei para a caixinha com precisão. Em seu verso, havia um anúncio. DESAPARECIDA. Era uma campanha do leite de caixinha da marca Piracanjuba. Embaixo das letras enormes, uma foto — Zíbia Gasparetto… Uma foto dela no Fran’s Café, no único dia em que nos vimos. Quem tirara aquela foto? Não fui eu. E em que momento? Não sei! Eu não tinha presenciado nada disso. A foto era um pouco bizarra. Porque era a Zíbia e era o Fran’s mas também não eram. Era uma recriação, foto de inteligência artificial, óbvio, estamos em 2026. Mas ela tinha fundo de verdade, tinha lastro. Porque era a Zíbia e era o Fran’s, repito. E isso realmente aconteceu, muitos anos atrás, sim. Não dessa forma da foto, de outra. O que aconteceu realmente era o canto dos pássaros, a torra do café, o aroma do pão de queijo e o pelo da verruga da garçonete. A nuvem esguia, um homem cantando Ary Barroso e catando latinhas, os fios desencapados, o cardápio amassado e o toque dos dedos nas teclas do notebook. E as cores dos carros dos anos sessentas, as espadas de São Jorge do canteiro, e o pôster com uma frase feminista. Quantas horas tinha aquela coxinha? Que impactado com o anúncio do desaparecimento de Zíbia na caixa de leite, entrei na estória. Como não fazê-lo? Porque ela tinha morrido anos antes, como estava lá? E detalhe… o nome que constava da desaparecida Zíbia, com a foto de Zíbia, não era Zíbia. Era Sã. Sã Gaspar, o que estava escrito. Isso só podia ser alguma piada de mal gosto. Ou mais um sofisticado plano, a carta, o leite, o nome. Porque eu não invento, eu conto o que vivi. My dear, these things are life. Embaixo da foto de Sã Gaspar havia um número de telefone. Fui à recepção e disquei. Girar o dedo naquele telefone me levou direto para Birigui: uma lembrança da casa de minha avó. E o seu rádio relógio, espião, que no escuro, eram apenas os números em vermelho. Alô, eu disse. Alô, a outra voz. E assim seguimos: Tudo bem? (eu). Tudo bem? (a outra voz). Seguimos nos repetindo por uma sequência de cinco ou seis frases. Seguimos nos repetindo por uma sequência de cinco ou seis frases. Estava eu naquele momento deitado em um divã? Sinuhe, você está pronto para se ouvir. O que eu falava: o que eu escutava. (…) Uma pequena gota de suor, daquela situação estúpida, estapafúrdia, em que me encontrava, escorreu nas minhas costas, como se dirigisse um automóvel pelas estradas da minha espinha dorsal. Foi o meu estalo. Para voltar à realidade. Aquilo tudo muito louco, tudo muito chato. Se minha mão direita queria bater o telefone no gancho, a esquerda me dizia: fale! posicione-se! exija respeito! Eu sou canhoto. Tomei o telefone e disse, em linha reta, àquela voz: olha, escuta aqui, seja lá quem estiver por trás desta brincadeira de mau gosto, tudo tem limite. Você, que ao me repetir mascara sua identidade, não sabe com quem está falando. Desaparecimentos são coisas sérias. E brincar com uma senhora idosa, como Zíbia Gasparetto, a esta altura do campeonato. Morta! Por favor, tenha o mínimo de respeito com o legado desta senhora! Desta escritora! Neste final da frase dita
por mim, eu falava com todos os meus pulmões, num esforço de político em púlpito, como se minhas palavras quisessem voar. Mas voltava-me neste momento, em pensamento, a imagem das ideias coloridas e encaracoladas, de minutos antes no café, ao som da corneta. Era uma memória, desdobrada, uma coisa que eu lembrava, um recado. Interrompi o que dizia ao telefone, abrupto. E passei a escutar, escutar, escutar mais o silêncio que vinha do outro gancho. E aquele silêncio me pareceu profundamente familiar. Meu silêncio íntimo. Que respondi ao telefone, limpo: Lili?
