Confesso, eu estava descrente, depois de uma sequência de tropeços terríveis que na época, eu tentei, juro que tentei gostar, da DC nos cinemas, somada à saturação dos filmes da Marvel e a uma avalanche de produções medianas em streaming, eu já não sabia mais se veria um bom filme de super-herói tão cedo.
Mas aí veio o anúncio do novo Superman, agora sob a direção de James Gunn, e algo reacendeu, uma fagulha de esperança. E sim, ironicamente, esperança é justamente o que o “S” no peito do Superman representa, nada mais simbólico.

Desde que Gunn assumiu o controle criativo do novo universo da DC Studios, ao lado de Peter Safran, ficou claro que a ideia era jogar o antigo tabuleiro no chão e começar do zero, praticamente zerando tudo que tinha, nos anos passados, foram lançados alguns filmes que encerram de vez: Flash, Besouro Azul, Shazam 2 e Aquaman 2, filmes que ninguém viu, e nem precisa ver.
E nada mais justo do que começar com o herói que originou tudo. O Superman não é só o primeiro super-herói da história, ele é o arquétipo, o molde, o símbolo daquilo que o gênero deveria carregar: idealismo, compaixão, coragem.
O novo filme, prometeu resgatar justamente isso. Segundo Gunn, não é uma história de origem, mas sim uma narrativa sobre um Clark Kent já atuante, tentando encontrar seu lugar no mundo, dividido entre suas raízes kryptonianas e sua criação humana. Uma proposta que pode dar ao personagem a profundidade que lhe faltou nas últimas adaptações.
E o elenco? David Corenswet como Superman traz aquele ar clássico, quase saído da Era de Ouro. Já Rachel Brosnahan, como Lois Lane, promete uma versão afiada, inteligente e emocionalmente complexa da jornalista mais famosa de Metrópolis. E temos também Nicholas Hoult como Lex Luthor, uma escolha ousada, que funciona perfeitamente com o tom que Gunn costuma imprimir.

A DC nos cinemas virou sinônimo de incerteza nos últimos anos. Depois de O Homem de Aço (2013), de Zack Snyder, que apresentou um Superman mais sombrio e introspectivo (interpretado por Henry Cavill), o estúdio tentou emplacar um universo cinematográfico apressado, cheio de promessas não cumpridas e filmes que mais confundem do que empolgavam.
Batman vs Superman (2016) foi visualmente impactante, mas emocionalmente raso. Liga da Justiça (2017), um Frankenstein entre Snyder e Joss Whedon, foi um desastre. O próprio SnyderCut, lançado em 2021, teve seus méritos, mas serviu mais como um encerramento de ciclo do que como um novo começo (era basicamente a mesma coisa, só que com quatro horas). Sem falar em bombas recentes como The Flash e Adão Negro, que enterraram qualquer tentativa de continuidade. Confesso, eu realmente tentei gostar, mas olhando hoje, tudo isso envelheceu como leite.
Enquanto isso, a Marvel, que liderava o gênero desde Vingadores: Ultimato, começou a tropeçar feio. Fase 4 sem direção, excesso de séries no Disney+, cansaço do público. Some tudo isso à pandemia, que acelerou a transformação do cinema e consolidou o streaming como prioridade dos estúdios. O terreno estava instável para todos. É nesse cenário caótico que o novo Superman pousa, e isso não é pouca coisa. Não é só um reboot. É uma tentativa séria de restaurar a confiança do público no cinema de super-heróis.
O peso do legado: Superman nas telonas e nas telinhas
Falar do Superman no cinema é, pra mim, quase como falar de mitologia. Em 1978, Superman: O Filme, dirigido por Richard Donner, foi uma revolução. Não era só um filme de herói, era cinema puro, o início de uma nova era do Cinema. O roteiro tinha humor, aventura, emoção e romance. E aquela trilha sonora de John Williams. Aquilo não era só música, era identidade. Era a certeza de que aquele homem podia mesmo voar.
Reeve fez quatro filmes. Os dois primeiros, excelentes. Os dois últimos, um desastre. O quarto então, com orçamento mínimo e roteiro confuso, quase afundou de vez a imagem do personagem nas telas. E assim, aos poucos, o Superman foi sumindo do cinema. Em 2006, veio a tentativa de retomada com Superman Returns, dirigido por Bryan Singer (em alta na época, por causa dos filmes do X-Men) e estrelado por Brandon Routh. Um filme elegante, com boas intenções, mas que ficou preso demais ao passado. Faltou alma própria.
Na TV, por outro lado, o herói sempre resistiu. Tive minha fase fã de Smallville (Somebody saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaave me), que durante dez anos reimaginou Clark Kent como um adolescente tentando entender seu destino. Antes disso, teve Lois & Clark, e mais recentemente Superman & Lois, com Tyler Hoechlin, uma das melhores versões recentes do personagem, aliás.
O que o Superman representa hoje?
Num mundo cada vez mais cínico, confuso e polarizado, a figura do Superman talvez nunca tenha sido tão necessária. Diferente do Batman, com seus traumas e escuridão, o Superman é um ideal. Ele é o que gostaríamos de ser: poderoso, sim, mas gentil. Forte, mas justo. O herói que sempre acredita no melhor das pessoas.
As HQs já entenderam isso há muito tempo. De All-Star Superman, de Grant Morrison, uma verdadeira carta de amor ao personagem, até O Reino do Amanhã ou Entre a Foice e o Martelo, o Superman sempre foi um espelho do nosso tempo. Ele muda, mas sua essência permanece.
Acabei de assistir e, olha… não vou mentir: o filme não traz nada de muito novo. É basicamente uma mistura de tudo que a gente já viu em outros filmes de super-herói , cenas épicas, trilha dramática, vilões megalomaníacos e discursos inspiradores. Mesmo assim, eu saí do cinema com o coração quentinho.
O filme não tenta reinventar o Superman, e eu acho que isso foi uma escolha certeira. Em vez de modernizar à força ou deixar tudo mais “dark”, ele resgata aquilo que o personagem sempre representou: esperança. E, principalmente, essa ideia dele ser um imigrante, alguém que veio de fora, mas escolheu proteger a Terra como seu lar. Aliás isso deve gerar uma certa polêmica de um grupo de pessoas…
O roteiro bate bastante nessa tecla, e faz isso com muita sensibilidade. Fala de pertencimento, de identidade, e de como é possível construir um lar mesmo vindo de outro lugar. E isso, num mundo que parece cada vez mais dividido, bate forte.
A direção é bem clássica, sem firulas. As cenas de ação funcionam, claro, mas o que me pegou mesmo foram os momentos mais simples, os silêncios, os gestos pequenos, os olhares. David Corenswet manda super bem, ele passa aquela mistura de força e vulnerabilidade que o personagem precisa ter. Você acredita nele como herói, mas também como pessoa.

O filme apresenta um lado negativo com excessos de personagens e subtramas que, em alguns momentos, prejudicam o ritmo e a clareza da narrativa. Por outro lado, acerta e muito ao trazer uma discussão relevante sobre imigrantes, tratando o tema com sensibilidade e profundidade. Outro ponto positivo é a adição do Krypto, que foi bem sensacional, oferecendo momentos de carisma e leveza que enriquecem a experiência.
No fim das contas, não é um filme que vai mudar o jogo. Mas talvez a gente nem precise disso agora. Talvez a gente só precise ser lembrado do porquê o Superman importa e do que ele representa. E esse filme faz exatamente isso. Não por ser diferente, mas por ser fiel ao que sempre foi. Eu saí do cinema acreditando um pouco mais no bem. E, sinceramente, isso já vale o ingresso.
Em um mundo cansado de super-heróis sem alma, talvez seja justamente o mais clássico de todos que nos mostra, mais uma vez, o que significa acreditar em algo maior.
Se você também está cansado dos mesmos filmes e quer voltar a sentir aquele frio na barriga que sentíamos ao ver um herói de verdade voar… talvez seja hora de olhar para cima. O Superman está voltando.
