Tivemos problemas quando chegamos de Bauru, após um período na casa de minha mãe, com bolos de milho, carnes de panela com mandioca mole, caminhadas cheirosas, encontros de vida, momentos no sol de lá. Agora no prédio, em São Paulo, domingo e noite, entramos no elevador e um texto já estava nos nossos olhos: é expressamente proibido alimentar aves nas esquadrias, peitoris e janelas, porque além de trazerem riscos à saúde dos moradores, provocam extrema sujeira no térreo, que uma vez acumulada, atrai pombos, por isso, solicitamos a colaboração de todos. Estes textos sempre regulamentares: um dia vou adentrar a cabine e ler “você é feliz?”, e depois apertarei o meu respectivo andar. Talvez ainda sonhe com isso — os dias. Pelo andar da carruagem, eu e meu irmão tínhamos sido descobertos.
Desde que mudamos, no ano passado, ficamos amigos dos pássaros, eles lindos. Sanhaços, cambacicas, sabiás da terra, periquitos, colibris, bem-te-vis (estranhamente grandes próximos dos outros, os gigantes do peitoril). Nunca pombos, os pombos eram como os sapos, eles: não participavam da nossa festa no céu. A nossa bagunça gostosa. Os sapombos ficavam no chão, no térreo, e pelos canos e calhas dos outros telhados que mirávamos do nosso céu – o sétimo andar. Nunca nos alcançavam. Mas a gente não sabe de tudo, nunca sabe.
Das vezes que a janela ficava arreganhada, durante a madrugada, por exemplo, morcegos tomavam a nossa sala. Eles. Com razão. Ouvia-se longe e perto o pio. Comes e bebes à vontade, o bebedouro açucarado, um mata-sede desses, docinho, além de bananas descascadas servidas aos pedaços, abertas ao meio. Soubemos deles depois: duma noite nada esmerada, esticados no sofá vimos um morcego, cego, ser surpreendido pela nossa presença, e rápido atravessou a sala e fugiu pela cozinha. Seu caminho de cor, de sempre. Ele não nos esperava em sua ceia.
Mas… na vida para além das rasantes de morcego… restava saber como tínhamos sido descobertos. O prédio, os idosos, éramos vigiados? O recado no elevador, impresso em tinta preta. Uma folha A4. Por uma simples boa feitoria para com os pássaros das redondezas, quem isso discriminaria?
A resposta foi simples. Quem estava incomodado era o vizinho do primeiro andar: porque a sua janela era o térreo. No térreo, os sapombos davam um baile. O baile dos restos: o que caía da nossa janela, e de outras que eram amigas, cúmplices, o mastigado pelos pássaros… sobras, dejetos, restolhos, esquecidos, despedacinhos, caquinhas, rejeitos — tudo era tomado como banquete. O baile dos restos.
O vizinho do primeiro ficava possesso. Pombos dançando na sua janela, pombices, ciscando, bailando e outras esquisitices. Felicidade? Para ele, o inaceitável. Que fomos denunciados. E o papel no elevador.
O meu primeiro pensamento — normalmente, essência — foi o ímpeto de tirar satisfação com o cabra. Mas respirando e contando até 10, passei noite a dia a observar o comportamento dos pombos na janela dele. Cessamos as comidas. E ele deu xeque: plantou um estátuão no chão do seu térreo. Uma estátua de gavião realista em resina com pintura automotiva, com penas refletivas e odor característico da ave, ideal para espantar pombos e maritacas de telhados, calhas, forros e áreas externas. Isso quem diz é o Google, eu repito. Ele repete, eu repito. Você agora também repete em pensamento.
Fora o fim dos sapombos: medrosos, nada temerários, uns cagões. O gavião imponente, sempre, sem perder a pose. Os dias agora eram menos alegres, a diversão extinta. Nada de comes e bebes, açúcar? Nada. A seca, vidas, o bebedouro inutilizado. Dias amaros. Uma ou outra vez algum dos pássaros esquecia-se da fase e aparecia no peitoril. Nada não encontrava. As vindas mais tristes. Juntamos as horas (como costuma-se enfrentar um mau pedaço de caminho) e fomos frente.
Que comecei a dormir mais tarde pelos motivos tamanhos e inclassificáveis, e era pouca lua, quase lua, meia lua, muita lua e a lua toda, e eu ouvia. Um canto triste e feliz de um passarinho, novo, sempre à luz da madrugada. Uma e duas da manhã. Tento imitar o ritmo do seu som noturno com frases para a imaginação: o sol é uma bola de metal; o p do teclado não caiu; seu olho tem luzes de natal; o voo cintila como til.
Definitivamente não era um dos nossos pássaros amigos. Era um que trocava o sol pelo poste da rua: imaginava o nascer de uma anomalia da natureza, um sol de cabos e fios desencapados, enrolados, a desordem, a eletricidade, um sol sujo sustentado por um mastro. O sol de nunca horizonte. E ele a cantar… chuá, chuá. A curiosidade para vê-lo me dava alguma coceira. Me vi como uma sabiá-laranjeira a analisar o apuro do canto da madrugada para escolher o acasalamento. Uma postura.
Que numa madrugada, enfim, vi com meus olhos o pio em ação. No térreo, a janela do primeiro andar, estava de cócoras piando o meu vizinho, completamente nu em pose de gavião, agindo como pássaro. Tudo um pouco se explicava. Que também não temi a cena, corri para cozinha, e com uma faca em mãos, cortei pedacinhos de banana de minha janela, lançando-os para o meu vizinho domesticado. Seu pio. O elevador em silêncio, por diante, outros e novos recados.
