9090. Antes de chegar ao título deste texto, deixe-me apresentar um grupo muito bacana, rapidamente, sem nomeá-lo. Cinco amigos, grandes amigos, amigões, aqueles em que outrora não se desgrudavam e faziam-se família. Família, família. Cinco amigos de outros horários, tempos da juventude, jovens tempos gostosos, ociosos, deletérios. Aqueles cinco amigos da faculdade que já foram carne e unha e a vida, como em seus métodos diz “aja!”, rearranjou cada um para o seu canto, com o seu percurso, o seu meandro, o seu tino, o seu quadrado. O seu progresso. Nunca deixaram a amizade: a vida pregressa. Festa. As intimidades. Continuaram amigos (e continuam), firmes, fortes e saudáveis. Estes cinco amigões, passada uma década, vira e mexe encontram-se – como uma flor brota de primavera e diariamente inclina-se ao sol. Pelo acaso de compromissos, emendas de feriados, viagens fora do combinado, amores de férias, labirintos que se bifurcam e, sem dor, cruzam. Às vezes dá certo. Quando prontos, enumerados e arranjados, previamente, realmente tentam. E não conseguem, alguém não pode, alguém falta, alguém desmarca. Datados. Mas quando desmerecem a bela noite e, sob firme descaso, não levam a sério a ideia, omissos conseguem uma reunião. Bela! Data! A noite deste texto é uma delas. Reunião dos cinco amigões na casa de um deles. Pizzas… É tanta intimidade que à fagulha desta bonita proximidade, desta noite, deste texto, a ocasião fazendo o ladrão, as palavras, a velha intimidade esquecida é nova, mil pistas apontam ao seu mesmo lugar, o tesouro, o tesouro potente vibra como antigamente. É linda. Foi e é – juntas, verbas. Fé. A noite – às intimidades dos cinco faz da vida um sentido, vale… A amizade, a luz da lua amarela, o cheiro da cidade de Bauru. Um novo esbarrão após um hiato é motivo de estórias: novas, relatos de vida vivida, piadas e, sobretudo, memórias. O que foi, eu lembro. O falatório segue o abecedário quando o celular de um deles toca. Algo trivial. Mas soa em um momento tão, tão, tão específico da noite, como em roteiro de teatro, de palco & coxia, cujos atores tinham nascido, cuspido, dormido e sido até o momento do toque. Sim. Justamente para ele, o ringtone. Um deles atende, todos tão quietos, o celular de viva voz. Isso faz silêncio, silencião. Do outro lado, na linha, ninguém responde. Uma cachorra, na rua, mija no poste. Assim passam trinta segundos lacônicos – o nada – e a chamada cai. Fim de cena. Próximo ato – um dos amigões diz: “Vocês sabiam que Bauru tem um último orelhão sobrando? Dando sopa?” Ninguém o sabia. “E dizem as boas línguas que este orelhão bauruense, único, é espécie de oráculo. Você pergunta, ele responde” A noite correu como os seus olhos por essas linhas, e pelas minhas contas, já passam de vinte. Deixo aos antigos o cálculo da distância entre as suas pálpebras e este texto. Porque dali vinte, trinta dias, cada amigo já de volta ao seu tabuleiro, vida lúdica, e um deles se lembra do oráculo e tem fome. Dirige-se, então, à dita cuja rua onde está o big fone. Tira o querido do gancho e diz: “o que é o amor?”. Foi então que aconteceu. Prontamente, falante: foi aquela primeira vez… de compartilhar um fato inédito, de sentir inocência e atitude, juntas, em um ato de bravura e covardia, de saber não sabendo de nada, de se pronunciar em grito e silêncio, de mudar sem deixar de ser – sendo. O amigão refez a pergunta: “o que é o amor?” Foi a coragem da semente, incentivada pela água, pelo sol e pelo solo, o coro dos amigos que a cercavam e gritavam! venha! viva! vida! e de sua promessa rasgou-se em seguida, linda, corajosa, ela brilhava e testemunhava a nossa crença no mundo – foi flor, foi fruto, foi árvore – foi tudo e também feliz. Enfático, o amigão resolveu reformulá-la: “o que é amor?” Foi também montar aquela mala, tão pequena, tão apertada, e conseguir juntar somente o necessário para o percurso, mesmo sem um manual de montagem, mesmo sem um roteiro, ou um aviso prévio. Foi como força de trovão, um susto, um apuro… um chorar de dar falta, um chorar adulto. Já cansado, e, principalmente, incomodado e desacostumado a usar um orelhão, o amigão dá de 1ombros enquanto o aparelho cospe também posso dizer o que foi – até aqui – da parcimônia de escolhê-las, organizá-las, despi-las, refletir sobre elas, botá-las em fileiras, ora apagá-las, ora recolhê-las, lembrá-las, escrevê-las sem jeito e também como um pai diz ao filho – estas minhas palavras. Até que um dia cortaram-no, amassaram-no e passaram-se os anos. Fim da linha.
Confira mais textos do Sinuhe LP. Confira o Instagram @osinuhe.
