
Márcio Francisco Martins e Luiz Henrique Arruda se conheceram, há quatro meses, pela internet atraídos pela vontade de percorrer o Brasil andando de bicicleta. Mas, o que no início iria ser uma aventura em busca de novas paisagens, virou o desafio de levar educação ambiental para centenas de crianças e adultos por todo o país. Desde o dia 10 de janeiro deste ano, Márcio e Luiz estão visitando escolas com o projeto Desbikelando, que tem a intenção de promover ações criativas e novas propostas de cuidados com o meio ambiente. A ideia é passar pelos estados do Pará, Maranhão, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e terminar em Santa Catarina, na cidade de Florianópolis, no dia 12 de outubro. Eles não têm muito dinheiro no bolso, nem patrocínio de nenhuma empresa e não possuem experiências alguma em longas viagens de bicicleta; mas a vontade de transformar o país e mostrar que cada um pode promover a mudança, eles têm de sobra. O Social Bauru conversou com os dois jovens quando ainda estavam Altamira, primeiro destino do roteiro, para saber mais detalhes sobre o projeto. Confira o bate-papo:
Como surgiu a ideia deste projeto? Foi muito tempo desenvolvendo a ideia até decidir, de fato, colocá-lo em prática?
Luiz Henrique: Eu tive a ideia de fazer este projeto em agosto do ano passado. Eu já tinha o sonho de viajar de bicicleta pelo Brasil e, como havia trabalhado com educação ambiental em Altamira (Pará), resolvi juntar estes dois projetos em um só.
Como será o roteiro e por que vocês pensaram nestes locais que vão passar?
Luiz Henrique: A meta da viagem é concluir em Florianópolis dia 12 de outubro deste ano. Estamos até programando de chegarmos uns dois dias antes em Florianópolis para fazermos uma festa em comemoração ao Dia das Crianças. As rotas estabelecidas foram pensadas em relação às paisagens, aos climas, ao tipo de vegetação que existe em cada local e a influência de cada um nos meios sociais. Cada lugar tem uma cultura diferente e eu pensei que poderia ser legal buscar essa divergência de valores e imagens no Brasil. Saímos de Altamira dia 10 e pegamos um trem até Marabá, depois vamos para o Maranhão, percorrendo todo o litoral até Mossoró, no Ceará. Aí, vamos andar pela caatinga até João Pessoa, depois Vitória, vamos para Minas Gerais com a intenção de passarmos por Mariana, Ouro Preto e outras regiões históricas. Depois, iremos entrar no interior de São Paulo em direção a Ourinhos, Paraná, Ponta Grossa, Curitiba, Blumenau e, por último, Florianópolis.
Vocês vão sair de Altamira e lá mesmo já vão visitar algumas escolas? Como será isso?
Luiz Henrique: Em Altamira nós já trabalhamos duas escolas e uma em Belo Monte. Isso aconteceu em outubro porque em janeiro estão todos de férias. Dessa forma, como não teríamos um público para trabalhar, decidimos antecipar o projeto. Fomos em três escolas, que é a meta por estado que estabelecemos. Somente em Novo Repartimento, no Pará, que vamos trabalhar com uma aldeia indígena para falarmos de três temas: dengue, malária e leishmaniose.
E pretendem ficar quanto tempo em cada lugar até seguir viagem?
Luiz Henrique: Olha, cada lugar que nós pretendemos parar, temos a intenção de ficarmos uma semana. Algumas atividades que vamos aplicar serão em sequência e não terminarão em um dia. Algumas oficinas até vamos conseguir fazer em três dias ou em um dia, mas isso irá depender muito. A meta é ficar, no máximo, uma semana em cada local.
Vocês já entraram em contato com os locais que pretendem visitar? Como foi a recepção destas pessoas?
Luiz Henrique: Nós não entramos em contato com nenhuma escola que iremos trabalhar. Todas serão públicas para podermos mostrar as diferenças que existem em cada uma delas. As batalhas do dia a dia e os caminhos que os alunos têm de percorrer para chegarem até o local. Por enquanto, não tivemos problema nenhum. Deu certo, apresentamos o trabalho e fomo muito bem recebidos.
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E como irão se manter durante este tempo de viagem?
Luiz Henrique Para a viagem, a ideia é sempre comprar o essencial em cada lugar que vamos ficar. Eu recebi orientações de uma nutricionista para saber quais os melhores alimentos que devemos ingerir neste tempo e estamos levando um freezer que foi feito por um amigo nosso que dá até para levarmos carne na viagem. A ideia é fazer de seis a sete refeições por dia, sempre respeitando os limites do corpo. Por isso que a alimentação saudável, hidratação e descanso são tão importantes para nós, porque vamos exigir muito do nosso corpo.
Por que escolheram trabalhar com o tema educação ambiental?
Luiz Henrique: Nós escolhemos atuar com educação ambiental porque conseguimos trabalhar com diversos temas da grade da ciência e fundir isto com arte, brincadeiras e palestras. Queremos levar alegria e expressões artísticas por onde passarmos. Eu sou pós-graduado em Educação Ambiental pela USP em São Carlos e trabalhei em Altamira durante três anos e isso me inspirou muito. Mas não quero guardar para mim o que eu sei e o que eu aprendi. Quero levar isso para outras pessoas e promover essa troca, sem cobrar nada, mas acrescentando conhecimento e estilos de vidas diferentes. É isso que me inspira.
O que esperam encontrar nas escolas?
Luiz Henrique: Nossa, é bem difícil de responder porque cada escola será um universo diferente. Então, para nós, é um mistério ainda. Mas acho que vai depender muito da maneira que iremos chegar, se será de uma forma alegre ou não, e as palavras que vamos usar irão refletir nas ações dos alunos. Acredito que será muito positivo e vamos fazer muitos amigos também.
Márcio: Bom, eu trabalho como professor já há um tempo – desde 2008. Por isso, espero encontrar muita diversidade. Acredito que o nível dos alunos, dos professores e o material disponível serão bem diversificados. Gostaria de encontrar escolas de ótimas qualidades, mas acredito que terá muita variação no caminho e eu vou ter que estar aberto para qualquer terreno que eu encontre.
O que esperam deixar nas escolas?
Luiz Henrique: Nós esperamos deixar nas escolas exemplo de perseverança, esperança de uma educação melhor e mostrar que nós mesmos somos os responsáveis pela mudança. Tudo começa com a gente. Também queremos levar mais conhecimento sobre materiais recicláveis e outras oficinas para que as pessoas tenham mais qualidade de vida. Sem contar que mexer com as mãos é muito bom e deixa a mente ainda melhor. Então queremos trazer isso como benefícios, darmos um exemplo melhor. Vivemos em um país com um senso político quase zero; somos governados por pessoas que são poderosas financeiramente, mas acabam com o país. Eu quero fazer estes jovens pensarem a partir dos temas que vamos levar para eles serem a mudança. Quero que eles tenham um futuro melhor e que os talentos deles não sejam guardados. Queremos sensibilizar para poder conscientizar. Acreditamos que este seja o caminho.
E há quanto tempo vocês pedalam?
Márcio: Nem eu e nem o Luiz estamos acostumados a pedalar por muito tempo. Quando eu fazia trilha, a gente pedalava 60km e descansava a semana inteira depois. Então, vai ser muito diferente agora! Mas acredito que vamos pegar o condicionamento ao longo do percurso.
Vocês são de Bauru? E como vocês se conheceram?
Márcio: Eu sou de Jaú, mas estava morando em Bauru por causa do meu trabalho. Conheci o Luiz pela Internet. Eu sempre tive o projeto de andar de bicicleta por um tempo – não era este projeto, mas era parecido – e um amigo meu viu o projeto dele e me falou. Faz uns três ou quatro meses que começamos a conversar.
Luiz: Já eu sou de São Carlos e morei lá até os 19 anos. Depois disso, saí de casa e fui morar no Paraná e há três anos e meio eu estou em Altamira.
Existe alguma forma que as pessoas podem ajudar também no projeto? Como?
Márcio: Claro, este é um projeto que está em aberto, então toda pessoa que tiver alguma ideia e quiser colaborar de alguma forma, pode. As pessoas podem até gravar vídeos e dividir ideias com a gente de economia de água, por exemplo, ou qualquer outra coisa que ela faça para preservar o meio ambiente. Quem também quiser ajudar nos trajetos e deixar a gente dormir no quintal, a gente monta a barraca lá e com isso as pessoas vão ajudar muito. Se alguém quiser contribuir com dinheiro, também pode a partir do nosso site.
Luiz: Este é um projeto que ainda está no começo, mas já temos várias vertentes dentro dele. As pessoas podem até fazer videoaulas, por exemplo, que nós iremos utilizar no nosso projeto. No momento, nós conseguimos pouca ajuda financeira e 90% está saindo tudo do nosso bolso. Mas se nós conseguirmos mais sucesso com o projeto, ele pode se transformar em uma empresa de educação itinerante de uma forma mais profunda. Queremos formar redes de educação ambiental pelo Brasil.
Estamos na segunda semana de 2016 e não tem como não perguntar: o que vocês esperam deste novo ano?
Márcio: Olha, eu espero terminar o ano vivo! Eu sei que vai ter muito perigo, mas vamos estar protegidos por Deus e estaremos em Florianópolis no dia 12 de outubro. Espero que tenhamos muito sucesso com o projeto! O que eu mais quero deste ano é saúde, paz e harmonia para todo mundo.
Luiz: Também desejo tudo isso e, principalmente, mais senso crítico político. Acredito que o Brasil tenha um modelo político muito arcaico e o Senado trabalha, muitas vezes, de forma injusta e errada, roubando o povo brasileiro. Acho que este ano o Brasil não vai ter muito crescimento e acho que o país enfrentará muitos problemas sociais, devida a falta de emprego. E com isso, as pessoas ficam loucas, porque não é fácil viver com o ócio e a pobreza. Temos este problema acontecendo hoje no Brasil, então acho que teremos muitos conflitos nos país durante 2016. Mas espero que a partir do nosso projeto, as pessoas vejam que existem outras formas de fazer a diferença, de forma construtiva, contornando esta política. Toda vez que a gente chega ao fundo do poço, quando estamos no caos, a tendência é subir. Por isso, acredito que a crise vá passar e esperamos que as coisas melhorem para todos.
Para conhecer melhor o projeto, acesse: www.facebook.com/desbikelando ou www.mfcomartins.wix.com

