Aviso: é altamente recomendável que se leia este texto escutando “A Tábua de Esmeralda”, de Jorge Ben Jor.
Quando falamos de música em sua essência mais pura, em que pensamos? Na música ao vivo, no formato voz e violão, naquela energia inconfundível que toca tudo e todos no fundo da alma. E a experiência mais próxima disso talvez seja o disco de vinil. A magia dele está não só na tecnologia bizarra de sair música de um objeto fino e circular, mas também na energia que a embalagem carrega. Afinal de contas, se você compra um LP em 2026, é bem provável que não seja o primeiro dono, o que significa que o objeto carrega a história de outras pessoas que se deliciaram com a música, com o chiado da poeira, com o cheiro de papel e com a experiência de dançar na companhia dos seus, sem se preocupar com os problemas da vida. É aquilo que Schopenhauer, em O Mundo como Vontade e Representação, define como uma cópia direta da própria vontade: a música não retrata o mundo dos fenômenos, mas a essência íntima da realidade.
Esse parágrafo acima resume, em algumas linhas, a vontade de Gustavo Moreira, ao criar o Projeto Tayu Sonora, há pouco mais de um mês.

O lado A
O ‘Sonora’ funciona em uma casinha de madeira construída do zero nos jardins do Restaurante Tayu, na Vila Aviação. Lá, ficam uma estante de discos, um toca-discos e dois fones de ouvido, para que duas pessoas possam escutar a mesma música ao mesmo tempo. Também há a possibilidade de conectar o som à caixas externas.
A proposta é que qualquer pessoa possa escolher um LP, baixar a agulha e ouvir. “Por exemplo, um pai vem com um filho ou uma filha e quer mostrar o disco de vinil. Então pode colocar o disco na agulha, pegar um fonezinho e colocar para o filho ouvir”, explica Gustavo.

Não é preciso ser cliente do restaurante para visitar o espaço.
Experiências sonoras
O acervo reúne discos originais de época, relançamentos de bandas antigas e lançamentos de bandas novas. Mas é no repertório brasileiro que está o gosto genuíno de Gustavo: MPB é sua paixão.
“Eu gosto muito de brasilidade. Isso me pega muito. Eu gosto muito de Jorge Ben. Tenho quase todos dele. Gosto de Tim Maia. (…)”

Um dos que estavam na casinha no dia da entrevista era justamente A Tábua de Esmeralda, o original de 1974. “Tem umas letras que você escuta e fala: ‘Meu Deus, de onde vem isso?’”, conta.
Nos primeiros dias de projeto, os clientes do Tayu já abraçaram a ideia e Gustavo conta que costuma passar pelas mesas oferecendo um vinil e perguntando a preferência de cada um.
“Sei lá, está um jantar mais intimista, você vê que tem um ou dois casais, você coloca uma música mais… uma Sade, uma coisinha mais jazz, um blues, né? Um almoço, tem uma galera, uma família, aí você põe um sambinha de raiz – Demônios da Garoa, Originais do Samba. Eu acho isso muito legal, porque a música vai te dando o tom da conversa e tudo mais.”
Uma mala sem roupa
A relação de Gustavo com o vinil começou bem cedo. Na infância, sua tia, em almoços de família, colocava músicas italianas e clássicos brasileiros para tocar.
“Desde criança, eu tinha uma tia que colocava disco de vinil. Eu lembro que tinha umas músicas italianas, um disco que até hoje eu não consegui achar. Eu lembro também de Ney Matogrosso, que ela colocava, Elis Regina, e isso ficou na minha memória.”

Mas a coleção só começou anos depois… por impulso. Em 2009, durante uma viagem, ele encontrou um vendedor com discos espalhados no chão de uma estação de trem. Levou quatro: White Album, dos Beatles, um disco do Midnight Oil (que ele não se lembra), Music for the Masses, do Depeche Mode, e Fly by Night, do Rush. Os discos ficaram um certo tempo parados na estante. Até que um amigo, de mudança, ofereceu a coleção dos pais.
Naquele momento, ele conta que algo mudou na vida e nas viagens. “Despertou uma coisa e eu comecei a curtir, a colecionar mesmo […] Minha mala quando eu ia ‘pra fora’, meu Deus… Eu não vinha com roupa, eu vinha com discos.”
Cheiro de nostalgia
Para Gustavo, ouvir um disco inteiro funciona como uma pausa. “Eu acho que o vinil é uma terapia, uma grande terapia. Você já não está pensando em problema nenhum, está curtindo a música.”
Nos sebos, ele já encontrou capas com declarações de amor escritas à mão. Muitos colecionadores dizem que isso desvaloriza o LP. Gustavo discorda – “Eu acho que é a história do disco.”
O mesmo vale para o chiado. “Isso é do disco, isso é orgânico, né? Tem uma poeirinha ali.”
No meio da conversa, contei ao Gustavo que tenho 22 anos e cresci no fim da era do CD: não vi a ascensão do vinil nem a do CD, só o auge das plataformas digitais.

Ainda assim, ouvir um disco me dá uma nostalgia que eu nem deveria ter, já que não vivi aquela época. É uma nostalgia falsa, a saudade do que não vivemos. Para ele, isso tem explicação.
“A geração Z, cara, por incrível que pareça, tem um viés analógico. Ela está tendo uma retomada analógica”, disse, lembrando que as máquinas fotográficas também estão voltando. Talvez seja isso: em um mundo em que tudo cabe no celular, ter que parar a conversa para virar o disco virou um jeito de viver algo que a gente só conhecia de ouvir falar.
Mais que uma casinha de madeira

As histórias também começaram a acontecer dentro da casinha. Durante a montagem, crianças pegavam os discos sem saber o que eram e queriam entender como a música saía daqueles sulcos.
Ele também conta que um casal de noivos reconheceu um LP na estante e pediu para ouvir uma música de Elis Regina que marcou a história dos dois.
“Uma pessoa veio aqui e falou: ‘Eu lembro desse disco’. Chamou a mulher dele (…) e pediu para eu colocar. E relembraram. Era uma música da Elis Regina que fazia sentido para eles e, por acaso, tinha aqui. Eu coloquei, e eles ficaram super nostálgicos.”
O lado B
O Sonora é o primeiro projeto da casinha, mas não deve ser o único. A ideia é que o espaço também receba eventos, como festas, confraternizações e até batizados.
“O Sonora está aberto para todos que gostam de música ou que queiram conhecer um disco de vinil. A gente compartilha essas histórias. Então são todos convidados.”

Se você seguiu o conselho lá do começo, ‘A Tábua de Esmeralda’ ainda deve estar tocando.
Eu, pelo menos, não vou mais ouvir esse disco sem lembrar dessa entrevista. Era ele que estava tocando ao fundo enquanto conversávamos. E como disse Gustavo… essa é a essência – cada disco carrega uma história e cada história carrega boas lembranças. Uma inigualável e deliciosa nostalgia.
Serviço
Endereço: R. José Antônio Braga, 2-77
Aberto de terça a domingo a todo o público.
Instagram: @tayusonora


