Sim, porque se você me pergunta isso eu automático volto pra lá. E já estou
voltando, acredita? Para lá. Me vejo chegando a Bauru. Eu tenho 9 anos de idade. Esse
cheiro de cana na estrada. Estou voltando da cidade dos meus avós. Esse lusco fusco dá
barato. Faz a gente viajar para novos horizontes. Chegar à cidade dos sonhos. Meu berço.
Bauru tão boa, Bauru tão minha. Isso é tão meu tempo… Eu tenho o coração disso. Daquilo.
Aquilo faz chorar, faz sentir, faz ser humano de carne e osso. Faz o que sente em mim
pensar! Faz receita de ser feliz. Aquilo faz. Faz e refaz, procura a sua melhor forma de
existir em nós — uma estranha forma de vida — toda vez que a gente lembra. Refazenda.
Tudo, e talvez um pouco mais. Um pouco mais de mim, um pouco mais de você, um pouco
mais de nós na cidade. Bauru tem o meu mais um pouco.
Sim, porque Bauru ainda ocupa os espaços entre as minhas palavras. Bauru
também é o meu silêncio. É branco. Bauru faz vazios. Bauru é o meu buraco sem fundo.
Bauru cabe tudo dentro. Até mesmo o que eu não pensei, está dentro. O que eu ainda vou
pensar — até o dia que eu nunca mais pensar — tem Bauru. Bauru hasteia a bandeira
fincada em meu pensamento. Bauru tem o meu futuro em suas mãos de pássaro azul. O
pássaro voa entre as minhas linhas. Onde ele pousa, é Bauru. O que ele bica, também. Se
estou mudo, estou Bauru. Se falo, falo pelas ruas da minha cidade, é onde a minha voz
ecoa. Onde as minhas palavras, autômatas, batem nas portas dos bauruenses em dias de
festa. Alguns respondem. Poucos convidam para um café ao pé da porta. Elas giram ao
redor de Bauru. Palavras têm poder.
Sim, porque Bauru para sempre será a minha Gigalândia. A minha Pasárgada. A
minha Mariana. A minha Xanadu. O meu Jardim do Éden. A minha Birigüi. A minha
Xangrilá. A minha Valparaíso. A minha Paraisópolis. A minha Pirapitingüi. A minha
Jerusalém. A minha Bacurau. A minha Colonia del Sacramento. A minha Asa Branca. O
meu Enigma Motel. A minha Saramandaia. A minha Pérola. A minha Andrequicé. A minha
Sucupira. O meu Castelo Rá-Tim-Bum. A minha Twilight Zone. O meu Mundo da Lua. A
minha Grande Família. O meu Edifício Dakota. O meu Bates Motel. O meu Durval Discos. A
minha Willoughby. O meu Edifício Master. O meu Aquarius. A minha Cida Lanches. O meu
Mergulhar na Surpresa. O meu Qualquer. O meu Anhangabaú da Felicidade. O meu
picadeiro. O meu palco onde minha alma cheira talco. A minha queda. O meu ponto fraco.
O meu avesso. O meu triunfo. A minha primeira vez. O meu primeiro amor. A minha música
para os meus ouvidos. O meu porto onde atraco de viagens absurdas. Onde estou e
também não. Bauru é também o que traio e sempre tenho o perdão.
Sim, porque eu vim de lá pequenininho. Ah! O amor muda tanto… Quando espirro,
as gotículas proferidas tem gosto de Bauru. É. Eu já provei. Talvez ao espirrar eu cuspa o
que de Bauru preciso expelir. Expandir. O que preciso botar pra fora. Meus beiços. E
também o que é — e sempre será — o meu DNA. Sim, meus cromossomos gostam de
Bauru. Aprenderam a gostar. É o tempo… Eles gostam porque Bauru desenha as linhas da
palma da minha mão. E meu corpo — uma esponja — já se embebedou de todo o Rio
Bauru e suas moléculas particulares. O rio acessa os lugares mais engraçados da minha
cabeça. E se alguém me espreme, se um ônibus me atropela, se ela me beija ou se faço
chorar, derramo Bauru pelos sete buracos da minha cabeça. Eu rio e choro que é uma
beleza.
Sim, porque em Bauru o meu nome é um pré-signo. Porque meu pai assim o quis.
Se vou à rua mais pacata da cidade, a mais deserta, e grito meu nome, ou melhor, sussurro
o meu nome, quase sem som, a ponto de apenas as formigas me perceberem, alguém surge de uma esquina, de dentro de um carro, debaixo da mesa, de trás da porta, da boca
de lobo, da copa da árvore, da placa de pare, do piche esburacado, da caçamba lotada, da
coleira do cão guia, e me pergunta: você é filho do seu pai? Graças a Deus, respondo. Deus
quis. Vocês são iguaizinhos. E eu viro essa folha do livro, e ainda é sempre o mesmo lugar
— a mesma página — um escrito “Bauru” — este meu índice. É o que consulto quando
esqueço o caminho da minha palavra. Bauru é o meu mapa. Minha bússola. O meu ímã.
Sim, porque no último dia da minha vida, o meu derradeiro, nas minhas horas fatais,
com o meu suspiro por excelência, se eu estiver em qualquer lugar do mundo, em qualquer
um que seja, eu estarei em Bauru. E os meus desejos — plenos que me fizeram viver como
Sinuhe nesta vida — serão recordações. Sobretudo, memórias de meu nascimento em
Bauru. Eu estarei feliz… sobretudo.
Sim, porque a minha casa fica lá detrás do mundo, onde eu vou num segundo
quando começo a cantar. O pensamento parece uma coisa à toa. Mas como é que a gente
voa quando começa a pensar?
