Com elementos de nostalgia, a série animada passa por um processo de redescobrir o real significado de todo o contexto da criação do X-men, que em 2024 comemorou 61 anos de existência.
A criação do grupo de mutantes aconteceu em 1963 pelas mãos de Jack Kirby e Stan Lee. Segundo os autores, a HQ contava a história “dos super-heróis mais estranhos de todos”. Em 1975, uma edição de quadrinhos foi publicada e transformou o Universo Marvel para sempre, preparando o território para a equipe mutante dos X-Men se transformarem no que são hoje e para a fase épica de Chris Claremont. Já na década de 90, o grupo de heróis conheceu seus tempos áureos. Na época, a Marvel estava dividindo seus heróis entre os grandes desenhistas da empresa, como Rob Liefeld, que foi o profissional responsável pela X-Force, divisão secreta e militar dos X-Men. Nesse tempo, a edição de lançamento vendeu por volta de 4 milhões de quadrinhos nos Estados Unidos, alcançando uma nova marca no mercado.
Eles foram criados em 1963, em um momento que os Estados Unidos passava por um forte debate sobre a garantia dos direitos civis para a população negra, cujas figuras principais eram o Pastor Martin Luther King, pacifista e que defendia a integração entre brancos e negros, e o ministro islâmico Malcolm X, que rejeitava tal ideia e advogava pela auto-defesa da população negra frente às agressões da população branca.
Foto: Reprodução
É fácil fazer o paralelo entre Charles Xavier que, assim como Luther King, acredita na integração entre humanos e mutantes por via pacífica, e entre Magneto que, como Malcolm X, não crê nas chances de integração e defende a reação dos mutantes frente à violência dos humanos. Outro ponto importante é que Magneto é judeu e que sobreviveu aos campos de concentração nazistas.
Como todo um histórico social inserido na cultura pop, é de esperar que X-Men se tornassem o grande carro chefe da Marvel por décadas, não à toa que ganharam sua primeira adaptação nos cinemas em 2000, com o filme do Bryan Synger, que apesar de datado, tem seu valor. Com o universo da Marvel se consolidando nos cinemas, o X-Men que estavam na FOX, se tornaram coadjuvantes na cultura pop, e agora, com a volta da animação, eles voltaram ao protagonismo necessário.
X-Men ’97 trouxe um respiro daquilo que a gente sempre quis, tem ação, tem bons personagens, a animação é muito bem feita, mas acima de tudo, ela tem o contexto social.
Foto: Reprodução
A série acabou de acabar sua primeira temporada e sendo um revival da clássica animação dos heróis mutantes da Marvel, X-Men ‘97 continua a história de onde a equipe parou nos anos 1990, em sua 5ª temporada. No último episódio, chamado “Dia da Formatura”, o Professor Xavier foi atacado em um congresso e acabou em coma. Magneto, por sua vez, vê oportunidade de unir diversos mutantes contra os humanos. A equipe de alunos do maior telepata do mundo precisa se reunir e descobrir uma saída desta situação.
A experiência de assistir foi tanto nostálgica quanto gratificante, seja pela fidelidade em preservar as características da animação original, pela excelência técnica da animação que se destaca pelos traços distintivos dos quadrinhos, ou simplesmente por testemunhar um dos grupos de super-heróis mais icônicos dos quadrinhos. A antiga geração sabe que os X-Men sempre foram maiores que os Vingadores.
Foto: Reprodução
Quanto à trama, alguns deslizes são perceptíveis, porém não são significativos a ponto de comprometer a experiência. A mistura de conteúdo infantil, mas com toques maduros ajudaram a narrativa a montar um quebra cabeça e perfeito sobre a aceitação e preconceito. E principalmente, a maneira como, nós, humanos, enxergamos e tratamos o que consideramos diferente.
A série segue o mesmo formato da animação original, dividindo os heróis em pequenos grupos e desenvolvendo-os em arcos narrativos que se entrelaçam ao longo dos episódios, de forma harmoniosa e envolvente. Os fãs de longa data irão se deleitar com o retorno do elenco de voz original e a continuação do amado enredo. A animação permanece fiel ao espírito do original, mas com um aumento de qualidade que faz as sequências de ação se destacarem. Todos os personagens tiveram seu destaque, o que é ótimo, afinal, por mais que o Wolverine seja o mais popular, ver outros personagens ganhando mais espaço ajudou muito na narrativa. Afinal, com o excesso de exposição no começo dos anos 2000 e dos filmes, o personagem Logan deu uma saturada. Aqui temos episódios com grupos separados e isso permite que a série consiga trabalhar todo mundo. Gambit e Vampira são destaques, Jubileu e o brasileiro Mancha Solar e finalmente temos uma redenção ao Ciclope. De longe o personagem mais bem trabalhado. Magneto e Xavier se tornam o destaque na fase final.
Mas X-Men ’97 não se trata apenas de nostalgia. A série aborda temas complexos de perda, preconceito e luta pela aceitação, tudo envolto em uma aventura de super-herói que é ao mesmo tempo emocionante e instigante. As apostas parecem reais e os personagens enfrentam escolhas difíceis que o deixarão grudado na tela.
Foto: Reprodução
…
Superou as expectativas! Não achava que uma série animada poderia ser tão impactante como foi em X-Men 97. Uma pena a polêmica envolvendo o criador/ roteirista da série sendo demitido antes mesmo da temporada acabar. Ela de longe é a melhor coisa. O amadurecimento da história é gigante e comprova que nem tudo precisa ir para o “live action”. O caminho está traçado para uma segunda temporada e que bom que a Marvel pode enfim, voltar a produzir algo que seja realmente interessante, e ironicamente, tiveram que resgatar algo dos anos 90 para produzir algo inédito.
X-Men ’97, 2024-
Veredito: 5/5
Onde assistir: Disney Plus
Temporadas: 1
Criadores: Beau DeMayo
Agregador no Rotten Tomatoes: 98%
Avaliação IMDB: 9,0/10
Trailer:
X-Men ’97 | Trailer Oficial Dublado | Disney+ (youtube.com)
Confira mais textos do colunista: www.socialbauru.com.br/author/gabrielcandido

