
Tanto para o “bem” ou para o “mal” e principalmente para quem não gostou, a quarta temporada chegou ao seu fim com um gosto meio amargo. Mas não que seja de todo mal, afinal, não é só de doce e salgado que se vive a vida.
Misturando política e fazendo um paralelo assustador com a realidade americana, a temporada conseguiu ser de longe a mais fraca. Com um início incrível e um final promissor, mas todo o meio trouxe a sensação de pura enrolação. A série acabou se tornando refém do seu próprio formato e repetindo situações exageradas, mas dessa vez, com pouco contexto, bem gratuito aliás.
A temporada começou logo em seguida as situações da temporada anterior. O mundo está à beira. Victoria Neuman está mais perto do que nunca do Salão Oval e sob o controle de Capitão Pátria enquanto ele consolida seu poder. Bruto, com apenas alguns meses de vida, perdeu o filho de Becca e seu emprego como líder dos The Boys. O resto da equipe está farto de suas mentiras. Com os riscos mais altos do que nunca, eles devem encontrar uma maneira de trabalhar juntos e salvar o mundo antes que seja tarde demais.
Apesar do formato repetido, alguns núcleos dessa vez não fluíram de forma bacana, se nas temporadas anteriores, tivemos os arcos dramáticos com a Tesmpesta e o Soldier Boy, aqui a introdução dos novos personagens não foram lá tão interessantes. Eu entendo o objetivo, mas não rolou.
A temporada foi dos personagens secundários, afinal, os protagonistas acabaram se repetindo e mesmo que Antony Starr e Karl Urban sejam atores incríveis, seus personagens ficaram meio de lado durante toda a temporada, com exceção do final, claro. Histórias paralelas foram mais interessantes do que dos protagonistas, menos do Hughie (Jack Quaid) que continua insuportável.
Mas peraí, do que se trata The Boys? A série é uma produção do Prime Video, adaptação das histórias em quadrinhos com o mesmo nome. Ela conta a história de um universo onde os super-heróis existem e ao contrário do que a gente está acostumado, aqui tudo é negócio. Não existem bonzinhos e tudo gira em torno dos interesses governamentais e do dinheiro. E os supers agem como máfia, eles cobram por proteção, mas a proteção é deles mesmo. E no meio disso, temos o grupo “The Boys” que se juntou ao acaso para “derrotar”, ou melhor, ACABAR com os super. E entre as quatro temporadas, a violência explícita e gratuita se tornaram marcas da série. E como dito acima, se tornou sua própria maldição.
“O Superman existe, é ativo de uma empresa bilionária, só defende os Estados Unidos e é uma ameaça sociopata”. É um ótimo enredo para uma história, ainda mais nos dias atuais com um fervor tão grande por universos de heróis, magia e cultura pop geek, Super-heróis existem, e eles têm um comportamento horrível (para não dizer outra coisa).
Os super-heróis são todos controlados por uma empresa que se usa do marketing, merchandising e questões armamentistas para manter e continuar com seu sucesso. O humor negro, satírico e politicamente incorreto de todas essas questões já se faz perceptível e de excelente qualidade na série “The Boys”.
Os caminhos da série começam a se expandir muito bem e surpreendentemente quando intrigas pessoais vão paralelamente dando atenção a suspenses e questões muito mais políticas, econômicas, sexuais e sociais, envolvendo assédio, tragédias, guerras e conflitos muitas vezes desencadeados e abafados justamente por aqueles que seriam os “mocinhos” em uma obra que mostra a total e realista ausência do maniqueísmo em seu universo. Até os nazistas aparecem por lá e o mais intrigante é que teve gente que não percebeu, ou melhor, fingiu que não viu. No geral, The Boys é uma das séries mais divertidas para se acompanhar, e agora é esperar o quinta e último ano da série. A premissa está pronta, se tem algo que essa temporada conseguiu foi trilhar o final. Mas para isso foram preciso oito episódios que poderiam ter sido em quatro.

Política e polêmicas
Depois de nazistas, nudez e violência explícita, quem poderia imaginar que o fator mais polêmico da série até então seria a assustadora relação com a realidade política. Em tempos de polarização e conteúdos da internet, a série soube aproveitar o tema e criar situações que coloquem os personagens de um universo hipotético de super poderes, para uma realidade cruel e dividida.
E da polarização se criam movimentos que tem um único objetivo, destruir seu opositor e enfraquecer a democracia. Apesar de ser um fenômeno muito falado hoje em dia, o melhor modo para começarmos a entender a polarização é olhar para trás.
Como qualquer outro animal, o corpo do ser humano se modificou ao longo do tempo com um objetivo claro, apesar de inconsciente: adaptar-se às circunstâncias e ao ambiente para sobreviver o maior tempo possível. Uma das estratégias utilizadas era se juntar a outros indivíduos e formar grupos. Para ser aceito em um grupo, era preciso se mostrar digno de confiança, o que por sua vez exigia lealdade. Ela era fundamental para que um agrupamento de indivíduos agisse de modo coordenado e organizado. A grande questão é que ela , quando levada a fundo, implica em abrir mão da própria individualidade para aceitar as normas, crenças e ideias do grupo. Com isso, podemos dizer que nosso cérebro foi programado para encontrar uma turma, e se adaptar a ela. O grupo passa a fazer parte da identidade individual. Dessa forma, existe um prazer em ser fiel ao grupo, enquanto mudar de ideia e se opor ao grupo com o qual nos identificamos é altamente desconfortável. Assim a gente entende o porquê torcidas organizadas de futebol atuam da maneira que atuam, e aplicando ao universo da série, com heróis no contexto. Tudo fica por um fio.
Entre sátiras e metáforas (às vezes é bem explícito) a série criou um conflito entre dois lados, que até então, entre o bem e o mal. Como tudo nos dias de hoje, até fandom de série está polarizado. Nas redes sociais do mundo, há aqueles que estão amando a quarta temporada por razões políticas, da mesma forma como há quem esteja odiando pelos mesmos motivos.
Inclusive, um dos grandes discursos é de que a série esteja sendo criticada amplamente porque adeptos da extrema-direita estão enfim percebendo que The Boys seja crítica a ideais defendidos por eles. E vale destacar que, sim, é um fato que o Capitão Pátria (Anthony Starr) virou um símbolo para membros da direita e da chamada ‘comunidade incel’, por mais que ele seja retratado como um facínora extremamente problemático.
De qualquer forma, a temporada não conseguiu ter o mesmo impacto das anteriores, talvez pela falta de grandes cenas de ação e um combate maior, pelo contrário, a temporada ficou tanto tempo no mesmo discurso “político” que acabou ficando um pouco repetitivo.

Polarizado ou não, existe uma unanimidade, a ansiedade para a próxima e última temporada. O cenário está pronto para uma possível guerra e acredito que já está na hora de chegarmos ao fim mesmo, as ideias sempre foram boas, mas o quarto ano conseguiu desgastar e mostrar que precisa amadurecer. Chega de piada com pênis, peitos e sexo. A gente já entendeu a sátira, agora precisa entregar. O quarto ano serviu apenas como ponto para o grande final, e esperamos que seja. Mas para isso alguns pontos precisam melhorar, lembrando que podemos ter uma segunda temporada do Gen V (série derivada). Que a autocrítica cresça e ganhe mais espaço, sem perder a identidade, é olhar no espelho e entender o que de fato ela quer falar. E no fundo, a gente já sabe.
The Boys, 2019 –
Veredito: 3,5/5
Onde assistir: Prime Video
Temporadas: 4
Criadores: Eric Kripke
Agregador no Rotten Tomatoes: 93%
Avaliação IMDB: 8,7/10
Trailer: The Boys – Temporada 4 | Trailer Oficial | Prime Video – YouTube

