A artista visual Tarsila Schubert nasceu e cresceu em Bauru, mas suas cores hoje estão espalhadas em diferentes cantos do planeta, do Líbano aos Emirados Árabes Unidos. E mesmo com uma carreira internacional consolidada, ela ainda traz olhares para a cidade-lanche.
- Da infância com pincéis à carreira internacional
- Do figurativo ao abstrato: a adaptação cultural nos Emirados
- As obras gigantes que marcaram sua trajetória
- Mural em Beirute (Líbano) – 2015
- Mural em Amã (Jordânia) – 2016
- Mural Maranat al Saadiyat, no Museu de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) – 2018
- Escultura em Abu Dhabi – 2025
- Sucesso, desafios e propósito
- O retorno às origens e o olhar para o futuro
Em conversa com o Social Bauru, Tarsila falou sobre como a cidade influenciou seu olhar e como a arte se tornou o meio pelo qual ela busca democratizar o acesso à beleza e à transformação dos espaços públicos.
“Eu nasci em Bauru, sou bauruense. Minha ligação com a cidade é de raiz mesmo”, conta. “Sempre volto, porque minha mãe e minhas irmãs ainda moram aí. Gosto muito do Bosque da Comunidade, porque minha avó mora em frente. Caminhar por lá é quase uma tradição.”
Essa ligação afetiva com o lugar onde cresceu também aparece, ainda que de forma sutil, em suas telas e murais. “O pôr do sol de Bauru, com aquelas cores, talvez influencie minhas criações”, diz.
Da infância com pincéis à carreira internacional
O primeiro contato de Tarsila com a arte veio da convivência com a avó, pintora amadora de estilo clássico, que lhe deu a primeira tela ainda na infância. “Eu amei”, ela diz. “Depois disso, sempre fazia colagens, experimentava coisas“.
A arte, no entanto, não parecia um caminho profissional, tanto que ela chegou a ingressar na faculdade de Odontologia. Até que, aos 19 anos, algo mudou: “Um dia simplesmente levantei com umas ideias e pensei: ‘Vou pintar uns quadros’. Fiz minha primeira exposição em Bauru, no espaço da minha amiga Juliana […] — e vendi tudo. Foi incrível.”
Foi o início de uma trajetória que, quase duas décadas depois, levaria a artista a assinar obras em museus e ruas de diferentes países.
Do figurativo ao abstrato: a adaptação cultural nos Emirados
Durante a pandemia, Tarsila passou a morar nos Emirados Árabes Unidos, lugar onde obteve mais oportunidades: “Comecei a receber convites de trabalho nos Estados Unidos e na Europa, então minha carreira ficou mais internacional”.
Por lá, a mudança de cultura a levou a transformar sua linguagem artística. “Quando me mudei para Dubai, minha arte era bem figurativa: rostos, corpos, animais. Mas o país era mais fechado. Recebia muitos feedbacks […] então comecei a migrar para o abstrato.”


Essa adaptação não foi uma limitação, mas uma estratégia consciente. “Eu sabia que aquele lugar tinha oportunidades. Saí de Bauru vendendo sapatos, então queria crescer sem me trair. Como artista, posso me expressar de várias formas e continuar passando a mesma mensagem.”
As obras gigantes que marcaram sua trajetória
Hoje, Tarsila é reconhecida pelos murais e esculturas monumentais que levam sua assinatura. Entre suas obras favoritas, quatro se destacam pela história e impacto:
Mural em Beirute (Líbano) – 2015
“Fiz em 2015, há 10 anos, num prédio que ainda carrega marcas de bombas e tiros. Foi um dos meus primeiros murais grandes e um marco para mim por resignificar aquele espaço e ver que a arte permanece lá até hoje.“

Mural em Amã (Jordânia) – 2016
“Pintei em 2016, durante a Copa do Mundo Feminina de Futebol. Foi um trabalho enorme e simbólico, porque fui a primeira mulher em Amã a pintar um mural dessa escala. A obra mostra uma mulher usando véu, representando a força e a presença das mulheres do país.“

Mural Maranat al Saadiyat, no Museu de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) – 2018
“Realizado em 2018, esse foi marcante por estar dentro de um museu/galeria um espaço de arte formal, o que representou muito pra minha trajetória como artista.“

Escultura em Abu Dhabi – 2025
“É minha primeira escultura permanente pública em Abu Dhabi […] Isso marcou uma nova fase do meu trabalho.“

Sucesso, desafios e propósito
Para Tarsila, sucesso não se mede por dinheiro ou status, mas pela liberdade de viver da arte. “Meu propósito é a arte, e eu vivo disso. Isso já é realização.”
“Enfrentei muitos desafios culturais, principalmente por ser mulher e pintar prédios em países árabes. Também tive que superar o medo de altura — lembro de pintar com a perna tremendo. Mas foi enfrentando isso que superei.”
Hoje, com parcerias com marcas globais como Levi’s, Red Bull e Adidas, a artista segue fiel ao que acredita: persistência, autenticidade e flexibilidade. “Se você acredita no que está fazendo, segue. Esquece o que os outros vão pensar.”
O retorno às origens e o olhar para o futuro
Mesmo com uma carreira internacional, Tarsila não ignora sua cidade natal – pelo contrário – volta, visita e passeia: “Tenho base em Bauru e em Arraial d’Ajuda, na Bahia, por causa da família — mas passo temporadas fora. Continuo fazendo muitos trabalhos nos Emirados também.”
“Volto sempre. É onde estão minhas raízes.”
O futuro, segundo ela, está ligado a um ideal que nasceu aqui: a democratização da arte.
“Acredito muito no poder da arte pública — acho democrática, importante, necessária. Quero continuar levando a arte para mais lugares, para que cada vez mais pessoas tenham acesso a ela.”
Democratizar a arte, para Tarsila, é devolver às pessoas o direito de se verem representadas nos espaços que habitam. Romper a barreira entre o museu e a rua, entre o artista e o público.
Suas obras, espalhadas pelo mundo, são uma forma de traduzir o que começou aqui, em Bauru: a crença de que a arte não deve ser privilégio de poucos, mas uma linguagem compartilhada. E é justamente essa visão que faz da trajetória de Tarsila Schubert não apenas um exemplo de sucesso, mas um lembrete de que toda transformação começa quando alguém decide colorir o que antes era cinza.
