Muito não está resolvido e muito há de acontecer. Isso não é novidade. Isso é nano perante o mundo. Isso é ontem, hoje e amanhã. Isso também é sabido. E também é bom não ler. Se estou em Bauru e isso agora ressignifica: o que sempre foi aqui se divide, em análise, em partes minúsculas, talvez nas menores partes atômicas em que o sempre possa existir. O sempre toma outros sempres, novos, frentes, contemporâneos. Uma nova plasticidade, estamos falando de um movimento plástico para criar formatos do existir. A forma X do verbo existir. Outros sons. Aqui: o que eu conheço passo a não conhecer. O que eu sou, deixo de saber. Eu deixo… E tudo é bem moderno. São aprendizados. A cancela está aberta, ela é de madeira, ela molha quando chove, ela abre quando é sol, ela fecha se meu coração bobeia. Tudo porque sinto. Estou pensando, estou sentindo. Fernando Pessoa. Eu conto outra vez. Passo a reparar em outras coisas e encontro novos lados para a mesma moeda. Vem, janeiro. Lanço a moeda para cima, é cara e é coroa, é o mesmo tempo, sentimento e pensamento, a resistência do ar, a gravidade, o movimento. Eu e outras mensagens. Tudo gira. Tenho sido lançado para o ar em Bauru, impulso força fôlego e coração, eu sonho e estou suspenso. Eu sou uma esfera. Eu numa moeda. Nunca caindo, nunca subindo, sempre vivo e vivendo. Suspenso. E a sensação cheia de que a sorte está dentro de mim e vem de mim, muitas vezes, sendo moeda, aponto a próxima fortuna. Vezes por gana, vezes por seta. Vezes por hora, vezes por meta. Submeto a própria sorte às minhas entrelinhas: e este é um processo estranho e remelento. Conhecer as entrelinhas do meu pensamento. É sentir? Quando penso, o que me ativa, o que me faz escrever, qual palavra é minha. Quando me vejo perseguindo a energia de meu cérebro, pífia, nana, e ela me escolhe as palavras. Que virão, ordenadas, digitadas letra por letra, isso faz viver. Isso também sou eu e uma forma de nudez. Sentir muito, sentir de outros jeitos, sentir pelas palavras, sentir que foge à linha do caderno. Viver — e outras tentativas de escrever. Este é um mapa desenhado das minhas orações, uma Oração a São Miguel Arcanjo de 21 dias, quando eu penso também faço uma cartografia. Se estou vivendo e perco meus mapas mais antigos, seja por traças, cupins, mofo ou esquecimento. Tenho muitas dúvidas sobre a compreensão das minhas palavras. Se juntas elas formam realmente um mapa, se enfileiradas formam uma vicinal: um caminho que não quis ser caminho, ele cavado a facão, frase, o motorista das minhas palavras desce da boleia (ele está afiado), rompe galhos, folhas, pés de quê, e volta ao caminhão. Agora é possível passar, a estrada está aberta. Cancela, uma linha. Vemos agora o caminhão passando, é noite. Em sua traseira, sob pequenas luzes, há uma placa preta. Há 6 letras brancas, pintadas, mas ele passa sob a imaginação, não é possível lê-las. Algo me diz que formam um nome, talvez o meu nome, talvez Sinuhe. Eu estou forte e agora meus braços estão abertos como o Cristo Redentor. De qualquer linha deste texto, para qualquer minha palavra que me olhe de baixo para cima, me vê como o Cristo. Porque eu estou apoiado neste morro, imóvel, com os pensamentos abertos, no coração do mapa. As palavras são as minhas linhas desenhadas, meus limiares, elas olham para mim, podem ser lidas como caminhos. Eu quero novos caminhos, com estas palavras. São formas de ver, os sempres nunca antes sempres e que serão sempres agora. O resto é estória, é o próximo ano. A minha régua, o meu compasso e o meu nome: a sensibilidade. Aqui há trégua. Em 2025 eu fiz as pazes com ela e tenho uma intuição. Que este texto, com emoção, provoca um mapa do meu pensamento. Eu existo e o texto pensa. O leitor é um mistério. Olhem agora, por fim, nesta janela aqui aberta. Ali vai um homem, simples, nada vadio, mas muito simples. Eu o observo sozinho, estou sozinho neste texto. Ele está caminhando muito vagarosamente, ele sabe das coisas. Ele sabe que cada passo seu é uma palavra, ele sabe que cada passo seu é o seu caminho. Um passo em falso e o seu mapa está torto. O torto é o meu perfeito. A vida em Deus métodos. As palavras. Este texto também espelho faz um reflexo, me vejo olhando o homem, ele está de costas. Em suas costas, há seis letras escritas em branco na camiseta preta. É bom não ler. É dezembro também na minha cabeça. Quando minha cabeça for duas cabeças, será janeiro.
Bauru com emoção
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
