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Acordo em Bauru

Sinuhe LP
By Sinuhe LP
Publicado 14/07/2026
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Acordo em Bauru como quem reacende, por involuntária ação, um fósforo já há um tempo apagado. Ou como quem levanta um dos braços para apontar para uma espaçonave no céu e o motorista de ônibus, coincidente naquele mesmo espaço-tempo, pensa ver um chamado, pára ao provável passageiro distraído e abre as portas para a sua entrada à viagem. Isso, acordo em Bauru diante de um convite feito por outrem. Sob efeito claro da memória, poderosa em ilustrar os meus fatos próximos, dada a sua importância em meu pensamento. Tudo o que vier, virá depois dela e sob suas circunstâncias. É preciso dar significado, criar mensagem às sucessões de fatos. Como criar sentidos ao que está acontecendo? Será que me acostumei em aproximar as coisas?! Mesmo que reles, mesmo que joias, não importa, pareço ter uma vontade de aproximação. Aproximar duas coisas distintas, dois fatos vividos. Dois, três, quatro… Lembrá-los, aproximá-los e atribuir um sentido. Muitas vezes, infelizmente, um sentido destrutivo. Como se a percepção de sentido pudesse revelar um sinal de destruição. Um aviso de perigo, uma advertência. Eu quero subverter o sentido de destruição. Quero tentar a aproximação que não destruir, se sim contribuir, evoluir, fruir, ir e vir, dormir… dormir em paz, a cabeça leve no travesseiro, os pensamentos em peso pena. Você pode ouvir esse piano de armário, levemente desafinado, que toca de fundo nesta leitura? Seu som soa em uma sala vazia, de um apartamento do edifício Brasil Portugal, pronto para ser alugado por um casal grávido. Ele toca desde a sua primeira palavra lida. Se você não percebeu e não o aproximou, criando sentido, não faz mal. O som de suas teclas se assemelha ao som destas minhas sílabas. Juntos, são praticamente imperceptíveis. São homófonos. Acordes e palavras similares. Como se nascidos da mesma composição. Meu toque. Quero acordar em Bauru basicamente, eu básico, como descrevê-lo no tempo do meu avô? Por que pode parecer tão interessante imaginar o que teria escrito a minha mãe ou meu pai aos 8 anos de idade? Um pensamento deles. Por que não posso acessar neste momento a lista de palavras ditadas à minha avó em uma classe de português na década de 50? São poucas as instruções sobre tudo isso à disposição, a este respeito. Acordo em Bauru como um homem do meu tempo. Um bauruense de 2026. É possível acordar em Bauru estando fora da cidade, tente também. Se hoje pulamos/passamos/interrompemos mesmo a duração de uma canção de toque fácil na rádio, por que não pularemos o texto crônico e sua duração mediada, voluntária, artesanal? Acordo em Bauru e meus pais não estão em casa. Acho que apenas a minha avó está comigo. Meus vizinhos são Eduardo, Henrique e Bruno, além de Laura, grande amiga. Não sei com quem brinco, mas estou no pátio da vila, fora do sobrado. Consigo ver minha avó fazendo alguma coisa no quintal de casa, a minha avó está viva, porque os muros do quintal são troncos vazados. O meu braço pode atravessar entre eles. Invento alguma imaginação naquele momento em companhia. No ar, está um cheiro de pão de queijo. Ouço a minha avó me chamar… Sinuhezinho Something. Seu chamado não é qualquer coisa. Ela me diz: o seu irmão nasceu. Aliás, você sente o cheiro de mofo que nos perturba, entre as palavras, porque descemos uma escada caracol verde e agora estamos no porão servido de tijolos. Se este texto fosse uma canção de rádio, este momento de sua duração seria o solo de guitarra, antes do refrão final.. O que posso aproximar a uma oração longa e bem construída, ensimesmada, antes do parágrafo final que reafirma o sentido principal deste texto. E agora o trago, como cigarro de palha em boca de matuto: acordo em Bauru e estou no Sesc da cidade. É uma noite musical, talvez uma quarta-feira, talvez uma sexta. Estamos eu, meu irmão e meus pais. A rua tem chuva. Tenho poucos anos de idade. Há muitas pessoas em volta, jogo de luzes, a escuridão entrecortada. Se na calçada utilizamos o guarda-chuva para sair do carro e chegar ao Sesc, naquele momento, eu danço com o guarda-chuva e tenho gingado. O que isso aproxima? Não sei bem te responder. Mas me interessa e muito saber o que você sente ao lê-lo. Que sentido isso tem a você? Texto próximo.

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TAGS:acordo em bauruBaurucolunaCrônicaliteraturapoesiasinuhe
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BySinuhe LP
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
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