Estrada estreita, estrada estranha, estrada estátua, estrada estrangeira. Extra… da velha. O que me diz se eu sou feliz? Nada me convence, fácil, mas eu tomo a estrada como quem toma suco de laranja. É comum, é de cor. É o que conheço. O copo é de vidro. A cor é laranja. A temperatura é natural. A borda do copo é cheia de bolhas e quase transborda. O gosto é docinho. É o que estou vendo. Tudo isso me toma. E fico com uma vontade danada de beber essa estrada todinha, docinha, é o que percebo e me dá segurança. É o que sonho. Respiro. Confio na estrada como em um copo de suco. Ambos são de verdade. A estrada é bebível. De gole em gole: um destino. Uma chegada. Que não escrevi nada disso, nem procurei saber, não me planejei. Tomei meu filho nos braços, a gente sem explicação. A gente estável, em consonância com o momento, nós girando tal ponteiros de relógio cuco. Sinto que não fizemos nada demais, meu pai criava laranjas. Por que não posso ter o meu próprio pé, as minhas? Meu corpo, meu quintal. Que planto e observo. Vez floresce, vez apodrece. Tem coisa no meu pé. Minha mãe, ela chupava laranjas antes de dormir. Tomei meu filho nos braços, a gente sem explicação. A gente com vontade de existir, de viver. Apanhar laranjas. Que vivi a vida toda olhando meus pais naquele marasmo, a vida em nãos métodos, parada, sem ondas. Eu não pude repetir. Queria eu sair dali, viver o mundo e os seus dias, semear, se me ar-ranco de lá e pudera… Pude. Meu pensamento uma ideia de bola de gude que chama suas irmãs pensamentas para o empurro, o menarca, o nascimento. Tomei meu filho nos braços, a gente sem explicação. Eu acho que fui seduzida. Não por uma mulher, sequer por um homem. Por uma ideia, sim!, uma sensação. Existe uma espécie — a sedução — que convive com os meus pensamentos. Tem hora que ela engana eles, e samba. No meu fundo, onde meu eu é oco, eu sinto que conheço a sua origem. S. Ela vem de um cheiro: o cheiro de fumaça do fusca verde do meu antigo vizinho. Te juro. Faz tempo. Eu acho que era o cheiro de gasolina queimada do fusca, combustão. Quando a velha ligava o motor, era um estrondo. Tomei meu filho nos braços, a gente sem explicação. Aquela gasolina me inspirou a liberdade. Era o momento que Bruno, vizinho mais velho que eu, com seus 7 anos, era convocado a sair dali, o fusca ligado. O que fazia ou ia fazer, pouco sei, e pouco importa. Mas ele partia da nossa vila, partia, sob chamado de sua avó — quem lhe criava — dirigindo. Foi a primeira vez que menina vi a liberdade… o cheiro. A gasolina. Eu vivi todinha, eu bebi ela por completo, laranja. Ela saborosa. A liberdade que aos pouquinhos trouxe em mim essa espécie, a sedução, no meu oco, no meu fundo. Que sedução também saborosa e altamente perigosa, que me sugere a minha desmontagem. Tudo que equilibro, toda a minha estrutura, vigilância, meu pau, as minhas pregas, o que sou eu se abala e teima sob o cheiro da gasolina que eu criei: sob a minha sedução. E há momentos que o pensamento viaja, e nunca mais quer voltar. Tomei meu filho nos braços, a gente sem explicação. Eu tiro uma fotografia analógica, em revelação: a minha sedução é mesmo aquela velhinha, a avó do Bruno, em miniatura na minha cabeça, e ela sábia, larápia, salafrária, e também fantástica, vigorosa e protagonista, ela toma todos os meus pensamentos e coloca todos, todas, sem faltar nenhum, nenhuma, sentadinhos no seu fusca verde. ELA é quem conduz o fusca. A sedução só pára o movimento quando perde o controle do volante, pensa demais. Ou então quando esbarra no meu pé de laranja, o pau enorme que sustenta a minha vida breca a sedução, um acidente. A minha razão. Eu contra mim mesma, eu versus eu. O que resistiu e sempre resistirá. De minha sedução sai fumaça. Mas seduzida fiz as coisas mais lindas e mais minhas, onde fui mais mais, onde mais me vi viva. Tomei meu filho nos braços, a gente sem explicação. E fomos, assim, sem juízos. Largamos tudo e tomamos a estrada, sem explicar, beberrões. Bauru 328 km. Era agora. O depois eu conto outra hora, outra hora escrevo, agora estou exausta e focada, seduzida, estou na estrada, no gole. Estrela! Meu filho no banco de trás, nós nós mesmos. Cuco! O que somos. Neste carro, o meu fusca verde, se sêde: laranja. Minha séde: a liberdade. Assim eu sinto e finjo uma ortografia norteadora, talvez verdadeira, um jeito de escrever só meu, linhas para o meu destino, para o meu correto, o meu coreto da praça de jacarés, o meu filho, a minha vida! Sem ser santa sou sábia. Tudo tem tanta tinta. Uma única universa ubíqua. Vou voando vendo vento. Algum significado isso tem? Eu invento o tempo das coisas. Eu estou confusa, sou obtusa. Mas escrevo torto pelas linhas certas — e gosto.
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
