Eu fecho os olhos e conto. Conto uma estória. Percebo como tudo ao meu redor está contando. Uma estória, um tempo. Tudo conta alguma coisa. O meu corpo, as minhas palavras, esta porta e sua maçaneta, a planta, a música. As unhas. Tudo está contando. Uma contagem regressiva. Um tempo. Como é bonito ser durável. Durar… Sermos uma duração. Nada ser para sempre. Ser… e já já não ser. Termos um tempo. O nosso. O que pensamos. O modo como respiramos. Como começamos, como acabamos. Como abrimos e fechamos a porta: a estória, o tempo. Toda estória tem um tempo. Todo tempo tem uma estória. Eu estou de olhos fechados, contando. Eu me escoro. E neste escuro que eu mesmo construo, para imaginar, fica mais fácil me entender. Serei eu tão só e completamente a minha imaginação? Contando eu me entendo. Talvez conte até 10 e saia correndo. É o que pede o roteiro, a ação protocolar. Apoiar-se, contar e correr. Nunca correr, contar e depois apoiar-se. Não faria sentido. E é preciso fazer? Talvez eu não queira correr. Queira ficar um pouco mais aqui. Talvez? Mais um tempo. Eu comigo, dos meus olhos inexistentes. Os olhos fechados me deixam confortável, eu gosto. Porque facilitam a minha imaginação. Consigo olhar por dentro. Lembro a minha infância, lembro os meus pais. Quando foi a última vez que você voltou para a casa dos seus pais e pensou: estou em casa mas o trem não passa. o trem da minha infância. seu eco apenas soa em pensamento. o quanto ecoa? o quanto ainda pode ecoar? Cada um tem as suas etcéteras. Etc… Lembro de segurar fácil a ansiedade com os olhos, quando menino: fechá-los ao meu tempo. Dar uma ordem ao tempo. Escolhê-lo, a dedo, respirando. E contar… até quanto eu bem entender. Isso eu posso. Estou escorado, estou escuro. Eu e muro. Que tampo meus olhos encostando em meu braço. Sinto minha pele, sinto meus finos pelos. E daí, ao meu sinal em pensamento, onde sou polícia e também ladrão, sob um grito, correr. Lá vou eu! Esta foi e é a frase da minha vida. Quando vamos, sob o circuito interno dessa frase, é que chegamos ao momento mais bonito de nossa estória. Lá… onde acesso quando adormeço ou me distraio. Vou… porque caminho e me persigo, estou andando. Eu… porque nasci comigo, como uma muda nasce planta e um acorde nasce canção. Estes olhos que aqui estão sempre foram meus. Eles abrem e fecham, diariamente. Como a padaria. Desde que abriu-se uma porta e alguém disse, com voz de pigarro: é um menino! Atrás desta porta que agora me escoro está um segredo. Imenso e pequenino. O meu, o seu, o de todo mundo. Ninguém sabe o que está atrás desta porta, as portas. É segredo. Talvez nada esteja. Talvez haja um buraco. Talvez esteja tudo. Talvez esteja a próxima palavra. Talvez esteja o amanhã. Talvez, depois desta porta, o tempo. E mais outras portas que virão. Talvez eu abra esta porta, e entre em modo contínuo. Ao invés de me apoiar na porta para contar, de olhos fechados, eu posso bater na porta. Quem é? Posso ouvir dizer. Tenho dito e acredito e não canso de pensar: quando fecho os olhos, quem bate à minha porta? Também sou eu. E quando me fecho a mim mesmo, e tento me acessá-lo, ser eu mesmo nas entrelinhas, e meu pensamento acha graça, caçoa e canta: não adianta bater, que eu não deixo você entrar… Bem. Se um dia fechamos os olhos — e tudo foi noite. E se um dia contamos — e tudo foi tempo. Basta e resta, sob a vida, tudo. Sobretudo a vida: correr! E ninguém te segurar, nem você mesmo, porque quem segura também quer curtir o seu movimento, entrar na sua onda, você está correndo, inclusive agora, corre estas linhas com seus olhos, até texto tem tempo e não há tempo que te segure, você se assume, e corre em pensamento, eles são tantos, e também são um, você mesmo, você é um, você é são, você são eles, você está perseguindo o seu caminho, às vezes o caminho deles, eu posso te garantir que o seu caminho é um caminho bonito, tão seu e também tão nosso, cuide do seu caminho como quem ama, como quem chora com poesia, como quem dança com melodia, como quem dorme com nostalgia.
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
