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Colunistas

Blaxploitation

Gabriel Candido
By Gabriel Candido
Publicado 25/04/2025
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Quando a cultura preta dominou o cinema com atitude e muito estilo Blaxploitation é um daqueles termos que já dizem muito só pelo som. Ele vem da mistura de “black” (preto) com “exploitation” (exploração), e foi criado lá nos Estados Unidos, no comecinho dos anos 1970, pra descrever um movimento cinematográfico marcante e cheio de personalidade. A ideia por trás do nome era meio crítica, tipo: “olha como a indústria tá explorando a cultura negra pra lucrar”, sabe? Mas com o tempo, o termo acabou sendo usado de forma mais abrangente, identificando um monte de filmes incríveis, estrelados e muitas vezes feitos por pessoas negras, voltados pra realidade das comunidades urbanas, periféricas e cheias de vivência.

Não sei ao certo se é meu lugar de fala, mas gostaria de compartilhar um
movimento que ao meu ver, é importante, mas que aos poucos foi perdendo espaço
até virar piada na cultura pop. Blaxploitation foi um movimento independente e com
um valor representativo importante.

Mesmo com essa pegada ambígua do nome, porque “exploitation” carrega esse
peso de “exploração” — o Blaxploitation acabou se tornando um marco na história do
cinema. Foi a primeira vez que a galera preta teve espaço de verdade, não só atuando
como protagonistas cheios de atitude, mas também nos bastidores: dirigindo,
roteirizando, produzindo e nas trilhas sonoras. Era representatividade com força total
numa época em que isso era praticamente inédito. E pior, era considerado quase um
“crime”.

Se tem uma coisa que os filmes do Blaxploitation têm de sobra é estilo, figurinos
cheios de personalidade (calças boca de sino, casacos de pele, chapéus enormes e
óculos escuros estilosos), cores vibrantes, e um clima todo urbano e ousado. Trilha
sonora recheada de muito funk (funk original), muito soul, batidas que grudam na
cabeça e definem o ritmo da história. Isaac Hayes, Curtis Mayfield, James Brown… e
por aí vai.

E claro, os personagens eram sempre durões, corajosos, enfrentando a corrupção,
o racismo, a violência policial, e tudo com uma pegada meio debochada, cheia de ação
e crítica social e muita ironia. Mesmo quando a crítica não era direta, o simbolismo
falava por si só, era um soco no sistema.

Alguns nomes se destacaram tanto que até hoje são referência quando a gente fala
de Blaxploitation:

● Pam Grier, por exemplo, foi um verdadeiro furacão. Ela virou um ícone como
heroína de ação, batendo em bandido sem perder o charme.
● Richard Roundtree ficou eternamente marcado como o detetive Shaft, um dos
personagens mais estilosos e casca-grossa do cinema.
● Melvin Van Peebles, com seu Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, foi o cara que
abriu caminho pra tudo isso acontecer. Chamado de “pai do Blaxploitation”, ele fez
um filme com orçamento baixíssimo, do jeito dele, e explodiu nas bilheterias.
● E claro, Isaac Hayes, que fez a trilha de Shaft — ganhadora do Oscar, diga-se de
passagem — e ajudou a definir o som do movimento.

O cenário político

Pra entender o Blaxploitation, a gente também precisa olhar pro que estava rolando
nos EUA naquela época. O fim dos anos 60 e começo dos 70 foram intensos. Tinha
acabado de rolar o assassinato do Martin Luther King Jr., o movimento dos Panteras
Negras estava sendo perseguido com tudo, e a tensão racial tava lá em cima, Guerra
do Vietnã, Guerra Fria, etc…

Ao mesmo tempo, Hollywood estava em crise e precisava desesperadamente se
reinventar e atrair novos públicos — principalmente o público jovem e urbano.
Foi aí que o Blaxploitation entrou como um soco na porta: filmes com protagonistas
pretos, histórias nas quebradas, linguagem real, muita ação e denúncia social. Era um
grito de independência artística e cultural, e também uma forma de mostrar que o
povo preto podia — e devia — contar suas próprias histórias.

Durante os anos 70, o Blaxploitation bombou, teve de tudo: detetives, justiceiras,
cafetões com códigos de honra, traficantes tentando sair do crime, e por aí vai. Mas,
como tudo que vira tendência, uma hora começou a saturar. E saturou tanto que
acabou INFELIZMENTE se tornando piada.

Lá pro final da década, começaram a surgir críticas, inclusive dentro da própria
comunidade negra dizendo que alguns desses filmes estavam reforçando estereótipos
perigosos, como o criminoso violento ou a mulher hipersexualizada.

A crítica era: “Será que a gente tá mesmo se empoderando, ou só vendendo uma
imagem distorcida de nós mesmos?” Muita gente começou a repensar.
Além disso, surgiram cineastas negros mais politizados, com outra visão de
representatividade, e o cinema comercial começou a mudar. Vieram os grandes blockbusters, tipo Star Wars e Tubarão, e as atenções se voltaram para outro tipo de entretenimento.

Mesmo com o fim do auge, o Blaxploitation deixou um legado gigante. Vários filmes
dessa época viraram cults e ainda inspiram diretores, músicos e artistas até hoje. Aqui
vão alguns dos mais marcantes:

● Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971) – Melvin Van Peebles
● Shaft (1971) – Gordon Parks
● Super Fly (1972) – Gordon Parks Jr.
● Foxy Brown (1974) – Jack Hill
● Coffy (1973) – Jack Hill
● The Mack (1973) – Michael Campus
● Black Caesar (1973) – Larry Cohen
● Dolemite (1975) – D’Urville Martin
● Cleopatra Jones (1973) – Jack Starrett

Esses filmes não só definiram um gênero, como também ajudaram a pavimentar o
caminho pra muito do que veio depois — de Spike Lee a Quentin Tarantino, passando
pelo hip hop dos anos 90.

Onde ver essas preciosidades hoje em dia

Se você ficou curioso para mergulhar no Blaxploitation, a boa notícia é que muitos
desses filmes foram restaurados e estão disponíveis por aí. Dá pra encontrar clássicos
como Shaft, Super Fly, Foxy Brown e outros nas seguintes plataformas:

● Amazon Prime Video – vários títulos estão disponíveis para aluguel ou compra.
● MUBI – sempre inclui clássicos cult na sua curadoria.
● YouTube Movies – tem uma boa seleção para alugar ou comprar.
● Criterion Collection – lançou versões restauradas lindíssimas, cheias de extras.
● Brown Sugar – uma plataforma dedicada exclusivamente ao cinema negro dos anos 70 e 80.
● Netflix e HBO Max – vez ou outra aparece um clássico desses no catálogo.

O Blaxploitation foi um movimento transformador e super importante pra cultura
negra. Ele colocou corpos e vozes pretas no centro da narrativa, mostrou que era
possível contar histórias a partir da vivência, com orgulho, força e identidade. Foi um
sopro de liberdade criativa numa indústria que sempre foi branca demais.

Mas é triste perceber que, apesar de toda essa importância histórica, o movimento
acabou — e não só por questões de mercado, mas principalmente por motivos raciais e
estruturais. O espaço que foi conquistado ali não se sustentou com o tempo.

Hoje, muitos desses filmes ainda são tratados como “de nicho” e são difíceis de
encontrar nos catálogos de streaming. Pior: faltam produções novas com esse mesmo
espírito, que falem diretamente com o público negro de forma autêntica, ousada e
politizada.

Por isso, quando surge algo novo nesse universo, vale a atenção. E fica aqui a dica:
vá ao cinema assistir “Sinners, o novo filme do Ryan Coogler com o Michael B. Jordan.
Dois nomes gigantes da nova geração do cinema preto, que tão carregando essa tocha
com respeito, inovação e muita potência.

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TAGS:blaxploitationCinemacolunafilmes
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ByGabriel Candido
Publicitário, pós-graduado em Comunicação e Marketing Digital. No mercado publicitário desde 2012, atuando em agências de propaganda. Além da experiência na equipe de Marketing em emissoras de televisão. Gabriel se inspirou em seu primeiro emprego, em uma locadora de vídeos, para escrever e compartilhar uma coluna sobre filmes e séries. Afinal, ele tinha que fazer alguma coisa com o seu antigo sonho de se tornar um Tarantino aos 30 anos. Linktree: linktr.ee/gabrielhcandido
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