Você já ouviu falar de Irineu Evangelista de Sousa?
- Perseguição, boicote e apagamento histórico
- O nascimento de um espírito visionário
- Mauá acreditava em salário, sociedade e mérito — no Brasil da escravidão
- A primeira S.A do país, o primeiro banco moderno, a primeira ferrovia
- O preço de pensar grande em um país pequeno
- Por que o Barão de Mauá importa mais do que nunca hoje
Poucos brasileiros ouviram. Mas todos deveriam. Porque se existe um símbolo da coragem de empreender em solo hostil, esse símbolo é ele — o homem que construiu impérios industriais no Brasil do século XIX, em plena era da escravidão, do atraso e da dependência econômica.
Enquanto outros esperavam que o governo resolvesse, ele agia. Enquanto muitos ganhavam dinheiro com a exploração, ele falava em salário, sociedade e mérito. Enquanto o país importava máquinas, ele construiu estaleiros. Fundou a primeira empresa S.A do Brasil. Criou o primeiro banco moderno, que se tornaria o Banco do Brasil. Implantou a primeira linha ferroviária. Levou gás para iluminar cidades. Financiou o crescimento com capital próprio.
E o que recebeu em troca?
Perseguição, boicote e apagamento histórico
Talvez por isso ele tenha sido esquecido. O Brasil parece ter um certo incômodo com quem pensa grande. Especialmente quando esse “pensar grande” vem da iniciativa privada, da ambição legítima de construir algo relevante, lucrativo e transformador.
Mas a verdade é que, se o Brasil tivesse mais Barões de Mauá — e menos sabotadores de Mauás — seríamos outro país.
Hoje, enquanto muitos empresários do interior ainda enfrentam burocracia, carga tributária absurda e um sistema que desincentiva o risco, a história de Irineu Evangelista de Sousa segue atual. Mais do que atual: urgente.
É sobre ele que vamos falar.
O nascimento de um espírito visionário
Irineu Evangelista de Sousa começou sua jornada como tantos outros brasileiros: sem privilégios, sem sobrenome influente, sem herança. Aos 11 anos, já trabalhava em um pequeno comércio comandado por um escocês, onde não apenas aprendeu a rotina do balcão, mas algo muito mais valioso: como os europeus faziam negócios.
Ali, ainda menino, aprendeu a falar inglês — uma habilidade raríssima na época — e desenvolveu a disciplina de quem observa antes de agir. Aquela vivência o despertou para algo maior. Ele entendeu que o Brasil, ainda colônia de pensamento, precisava de mais do que bravura: precisava de visão.
Foi assim que, anos mais tarde, decidiu abandonar o comércio bem-sucedido que havia construído por conta própria. Fechou as portas e comprou um estaleiro em Niterói. Um movimento ousado, incompreendido, arriscado — mas estratégico.
Na época, a Revolução Industrial já transformava a Europa. O Brasil, por outro lado, ainda se apoiava na escravidão e importava quase tudo. Irineu entendeu o que poucos enxergavam: o futuro do país dependeria da capacidade de produzir internamente. Navios, máquinas, peças, energia.
Ele acreditava que a indústria não era apenas uma oportunidade de negócio, mas uma missão nacional.
Enquanto muitos esperavam garantias para começar, ele investia no desconhecido. Enquanto outros se ancoravam no lucro imediato, ele perseguia o crescimento de longo prazo.
Essa mentalidade — que une propósito com ousadia, visão com execução — é o que separa o comerciante do industrial, o gestor do líder, o empresário comum do visionário.
Mauá acreditava em salário, sociedade e mérito — no Brasil da escravidão
Em pleno século XIX, quando o Brasil era movido à força bruta e explorava milhões de pessoas escravizadas, Irineu Evangelista de Sousa fez uma escolha que o colocaria em choque com as estruturas mais sólidas da época: decidiu pagar salários justos e oferecer participação nos lucros aos seus funcionários.
No estaleiro de Ponta de Areia, ele não via mão de obra apenas como custo — mas como ativo. Para os cargos técnicos, trouxe engenheiros da Europa. Para as funções operacionais, tentou contratar trabalhadores livres e treiná-los. E mais do que isso: sonhava com um modelo de “parceria” — um embrião do que hoje chamaríamos de partnership ou stock options.
Isso numa época em que a lógica dominante era a do açoite, da submissão e do lucro a qualquer custo.
Mauá acreditava que, ao alinhar os interesses do patrão e do empregado, todos ganhariam mais. Produção, motivação, inovação — tudo seria maior. Um pensamento muito à frente de seu tempo, que hoje chamamos de capitalismo consciente ou modelo de gestão por cultura e valores.
Claro que esse pensamento não passou impune.
Sua tentativa de contratar ex-escravizados como empregados livres foi atacada. Sua defesa da liberdade como base da produtividade foi ridicularizada. Seu modelo de negócio foi visto como “ameaça” por uma elite que lucrava com a escravidão.
Mesmo assim, Mauá resistiu. Em um país construído sobre a desigualdade, ele ousou praticar o mérito.
Pagava mais a quem entregava mais. Dava sociedade a quem se comprometia com o futuro da empresa. Criava oportunidades onde havia apenas exploração.
E talvez por isso tenha acumulado tantos inimigos.
Porque todo sistema baseado na mediocridade teme quem recompensa o talento.
A primeira S.A do país, o primeiro banco moderno, a primeira ferrovia
Irineu Evangelista de Sousa não era só um bom comerciante ou um industrial eficiente. Ele era um estrategista de crescimento.
Depois do estaleiro, Mauá entendeu que o Brasil precisava de muito mais do que máquinas: precisava de sistema financeiro moderno, infraestrutura e energia. E decidiu construir tudo isso — com as próprias mãos e com capital privado.
Fundou o primeiro banco realmente moderno do país. Chamou investidores, estruturou a operação como uma S.A. (sociedade anônima) e criou o novo Banco do Brasil — que, apesar do nome, nasceu como uma iniciativa privada. O banco anterior, estatal, havia falido. Mauá viu aí uma oportunidade de renascer o crédito no Brasil, mas dessa vez com eficiência e visão empresarial.
Não demorou para o banco se tornar a maior empresa do país.
Mas isso não bastava.
Com recursos próprios e estratégia bem definida, Mauá também implantou a primeira linha férrea do Brasil, ligando o Porto de Mauá a Petrópolis. Ao ver a importância daquela obra para o país, recebeu o título de Barão. A ferrovia reduzia custos, encurtava distâncias e inaugurava uma nova era na logística nacional.
Como se não bastasse, fundou também a companhia de iluminação a gás, trazendo luz a cidades que ainda viviam no escuro — literalmente e simbolicamente.
Tudo isso em um intervalo de poucos anos.
Enquanto o Brasil ainda discutia se o progresso deveria vir do governo, Mauá já entregava soluções. Enquanto outros sonhavam com desenvolvimento, ele financiava o futuro.
E fez tudo isso sem incentivo público, sem renúncia fiscal, sem fundo perdido.
Fez com trabalho, visão e risco — as três colunas de qualquer crescimento real.
O preço de pensar grande em um país pequeno
O Brasil não perdoa quem prospera com autonomia. Essa verdade, dura e silenciosa, ficou escancarada na trajetória do Barão de Mauá.
Depois de construir um banco eficiente, uma ferrovia funcional e empresas lucrativas em setores estratégicos, ele se tornou um alvo. Não por falhas, mas por acertos. Não por corrupção, mas por eficiência. Não por egoísmo, mas por independência.
O que seguiu foi uma sucessão de ataques orquestrados por uma elite burocrática e política que via na iniciativa privada uma ameaça. Leis foram alteradas. Barreiras foram criadas. O próprio governo decidiu criar uma ferrovia paralela à de Mauá, custando dez vezes mais e sustentada com dinheiro público. Apenas para competir. Apenas para sabotar.
O seu banco — que já era o maior do país — foi estatizado. Alegaram que era “grande demais para ser privado”. Com uma canetada e um discurso populista, desmantelaram o modelo mais moderno de crédito que o Brasil já havia experimentado.
E o povo? Aplaudiu.
Aplaudiu o Estado que tomava de quem criava.
Aplaudiu o discurso de que “ninguém pode ganhar tanto dinheiro assim sozinho”.
Aplaudiu, como aplaude até hoje, quando vê o empresário como vilão e o fracasso alheio como conforto próprio.
O Brasil não é ingrato. O Brasil é desconfortável com o mérito.
O preço que Mauá pagou foi alto. Perdeu poder, perdeu negócios, perdeu apoio. Mas nunca perdeu sua visão.
Ele acreditava que o verdadeiro progresso nasce de quem arrisca, constrói e cresce — mesmo quando o ambiente diz “não”.
Por que o Barão de Mauá importa mais do que nunca hoje
Em tempos de crise, instabilidade e desconfiança, o Brasil precisa mais de Mauás do que nunca.
Empresários que não esperam por incentivo, que não pedem permissão para inovar, que constroem mesmo sob resistência.
A história do Barão de Mauá não é apenas um resgate histórico. É um espelho do presente. Porque ainda hoje:
Empresários são sabotados por regras que mudam no meio do jogo.
A burocracia continua asfixiando quem tenta fazer certo.
A mentalidade de que “crescer demais é suspeito” ainda circula em rodas de café e plenários de câmara.
E mesmo assim, milhares de brasileiros continuam abrindo negócios, contratando gente, investindo em tecnologia, gerando soluções e transformando cidades. Sem glamour, sem manchete. Com coragem.
Esses empresários — especialmente os que estão fora dos grandes centros — carregam o mesmo espírito que moveu Mauá. Eles só não sabem disso ainda.
Mauá é o símbolo de que crescimento não é vaidade — é estratégia de sobrevivência. E mais do que isso: é também forma de resistência. Resistência contra a mediocridade. Contra o conformismo. Contra a ideia de que o Brasil é destino, e não construção.
Se queremos um país mais justo, mais moderno, mais próspero, precisamos aprender a valorizar quem empreende com propósito e ousadia.
Porque honrar a história de Mauá é, antes de tudo, uma forma de acreditar no futuro do Brasil.
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