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Deixem meus tamancos em Bauru

Sinuhe LP
By Sinuhe LP
Publicado 01/09/2026
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Uma mulher de 30 anos está correndo desesperadamente entre os carros na Avenida Duque de Caxias. Ela não é uma atleta profissional. Ela não está praticando esporte. Ela é uma advogada, veste um terno cinza e se chama Gabriela. Os seus cabelos castanhos estão acompanhando a oscilação do vento de seu movimento completamente voluntário. Não há nada de errado com Gabriela. Não há nada de errado na avenida. Não há. Não há uma emergência, uma surpresa, um acidente, um susto. Necas. Há Gabriela correndo, de terno e tamanco vermelho. Ela sorri. Neste momento, Bauru faz 31 graus. É uma quarta-feira, pós-almoço, horário comercial. O sol não dá trégua. Nem os carros. Gabriela provoca a verdadeira sinfonia urbana de buzinas. Um ônibus laranja quase a pega. Mas
nada acontece a ela. Seus pés tocam o chão mas seu pensamento parece estar tocado por outro lugar. Isso é lindo. Isso não é nostalgia, propriamente dita. Isto é um estado assumido por Gabriela neste momento. Que largou o seu trabalho, apenas por um hiato, e seu computador inclusive já bloqueou a tela porque ela já demora e corre muito, ela gosta, ela se ausenta daquele universo. E goza. Goza seu livre arbítrio, a sua história, o seu movimento. E o gostoso de seu suor que toma todos os seus poros. Até mesmo os tais desconhecidos. Gabriela não corre para um despacho, para ajuizar uma ação. Isso não é nostalgia, é porque Gabriela sentiu uma vontade única. Uma vontade que conviveu com ela por um período de tempo da sua vida. E à altura de seus trinta anos, nesta quarta-feira,
reapareceu. Depois de tanto tempo, tanta vida, tantos anos. Tantos compromissos. Tanta discórdia, tanta ansiedade. Tanta-ta-ta-ta. Tá. Agora ela pode saborear. E não poderia deixar de fazê-lo. Isso é novo, já é ex-inédito mas é único e gostoso. É também dela. Já foi dela muitas vezes mas fazia tanto tempo que não era dela. E agora pode ser dela, com gosto. Que bom! Gabriela, desfrute disso. Corra! Nós já passamos por isso, nós já tivemos
30 anos. Hoje nós não nos impressionamos com Gabriela, pelo contrário. Em pensamento formamos um coro, um coro de vibrações por Gabriela, para que seu desfrute alcance um prazer demorado e prolongado. Ga-bri-e-la. Ela! Ela encontrou uma coisa muito própria. Entre seus átomos, seus membros, suas células, seus passos, alcançou um estado de sua juventude. Um resquício! Uma juventude que continuou ali, pode acontecer. Porque está provado: um velho gagá de seus oitenta anos às vezes tem uma criança. E uma menina imperativa também tem a sua mulher com 8 anos. Parece que tudo que é nosso nasceu com a gente. Temos! E sempre esteve ali. Ao correr, sobre tudo isso que escrevo, para Gabriela, não restam dúvidas. Por mais que neste momento, às 15h, sob sol, Ela não pense em nada disso, muita bobagem, estamos aqui pensando muito. Eu escrevendo muito, você lendo muito. Gabriela apenas corre e é bom! Porque dentro de sua cabeça o vento também se faz presente, lá está nuble, não há preocupação. Isso também é marca de juventude. Ela encontrou! Sim! Um resquício, uma forma natural, nada forçada, ela não tomou nada, ela não pediu. Foi juvenil. Simples, sentiu e viu! Viu-se com aquilo e precisou-se. Correr para entender. Há pensamento que só temos correndo. Qual foi a última vez que ela correu? Não
sei! Eu não sei nada sobre Gabriela, apenas que saiu do portão daquele escritório de advocacia e agora está dobrando a Avenida Duque de Caxias. Perdeu um tamanco, na verdade, os dois. Eu estou apenas imaginando tudo isso. Eu imagino porque também é bom. Mas é impossível que Gabriela esteja vivendo outra coisa que não o que está sendo descrito nesse texto. Porque a força de Gabriela é tão expansiva, e sobretudo verdadeira, que me faz escrever esse texto. Que corre como ela, eu escrevo e não leio que fiz, juro, meus dedos teclam e estão frios. Aquecem-se com a imitação dos passos de Gabriela. Eles imitam a sua velocidade. Eles imitam o que seu movimento exala. A sua liberdade é acolhedora. Ela reproduz imitadores. Ela pode nos inspirar. Que Bauru também possa permitir a falta de preocupações e Gabrielas sejam mais comuns, em horário comercial, sob a destreza de correr sem se justificar. Tudo ao seu redor acompanha o seu tempo. Reclamam os carros, sim, mas eu aposto que o sol com Gabriela ainda nascerá amanhã, e hoje a lua virá, aliás já veio, llena. Encerro — este texto são como seus tamancos: parte de Gabriela que ficou na avenida. (Texto finalizado em simultaneidade à transformação de Gabriela mulher em um pontinho cinza no final da avenida, que não mais distinguiu-se como ser humano frente ao mosaico
da cidade, e sim, a mesma paisagem, isto é, parte dela).

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TAGS:Bauruduque de caxiasliteraturapoesiasinuhetamancos
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BySinuhe LP
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
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