Porque ao acordar ele não lembra onde dormiu. Ele acorda no susto. Como se tivesse
trocado o inferno pelo paraíso. Mas era apenas o seu sonho. Às vezes também acorda com
uma lambida no peito do pé. Sempre dorme descalço. Odeia meia. É sua vira-lata que o
chama para o batente. Oito horas, normalmente. Não escova os dentes, está sem creme
dental. Há meses. Ele tem outros problemas mais importantes como a fome. Ele tem fome.
Ele sonha com a fome. A fome se materializa na sua barriga. E também na sua mente. A
fome é real. Mas nada, nada é capaz de obstruir o seu caminho. A sua sina. De pé,
encontra o seu terno surrado. Vestido, toma a maleta preta que contém apenas um objeto.
Faz menos de cinco minutos que acordou. Ele já está pronto. O seu dinheiro é mínimo. E
pode ocupar-se de pensar nele mais tarde — agora a sua porta já está aberta. É tempo de
encará-la, como ontem, e como amanhã também. No boteco em frente ao seu puxado,
toma fiado um pequeno pingado e um pão amanhecido. Tem pela frente alguns quilômetros
bons de pensar. Durante a caminhada, vez se pega olhando para os seus sapatos. A ponta
do esquerdo está desgastada, tem um furo. Encara o seu dedão. A sua marcha é lenta. Ele
está muito acostumado. Vê as mesmas coincidências. Cruza com as mesmas pessoas que,
assim como ele, possuem aqueles horários. Alguém uma vez o questionou: por que não
tomava um ônibus e chegava mais rápido. Balela. Era justamente aquele tempo da
caminhada o necessário: o que ele precisa para processar. Ele chega muito miudinho.
Finalmente está na praça. O coreto dela é a sua infância: é proibido jogar pipoca aos
jacarés, sua mãe lhe disse. Alguns ambulantes vendem coisas. Já amou aqueles balões.
Seu pastel favorito é queijo. Com garapa, maravilha. Está pronto — talvez tenha nascido
pronto. Esta praça, tão gratuita, tão também dele, tão também do outro. A praça de todos.
Um senhor discreto como ele, pequeno, carne e osso. Quando olha a praça, o seu palco e
púlpito, tem sentido muito. Há alguns anos. Na praça tem força maior, é feliz e sério. Tem
tristeza e felicidade. Abre a maleta e tem nas mãos um texto. O único de todos os dias.
Com o primeiro botão do terno azul aberto, ele se transforma na mensagem. Vocifera, em
alto e bom som, pelos quatro cantos daquela praça, o texto. São versos bíblicos que ele diz
como ninguém. Ele é a mensagem. Deus estável.
Sua vida é essa
Rezar a missa
Cumprir promessa
Porque qualquer pedra é giz e diz. A pedra dá vida às suas palavras. Ele está no meio de
uma avenida muito movimentada. Passam carros, pessoas, cachorros. Abrem-se e se
fecham semáforos. Carros são abastecidos. Não muito longe, pessoas estão reunidas para
viajar. Pular de um lugar para o outro. Cachorros descansam. É meio dia. Ele está naquele
mesmo lugar. O mesmo lugar tem várias pedras. Ele prioriza as brancas, cujo contraste com
o piche do asfalto faz mensagem. Ele não lembra como começou. O hábito. E não sabe
como parar. É natural — como a habilidade de voar dos pássaros. É natural — como uma
sílaba se aproxima da outra. É natural — como as ruas servem para andar. Ele encontrou
um novo sentido para a rua. Não para subir, nem para descer. A rua para escrever. A rua, o
seu caderno. O primeiro caderno do aluno da poesia. Suas primeiras lembranças da
infância estão desenhadas na rua. O campo de futebol feito com giz, os chinelos eram as
traves do gol. Na calçada, alguém rabiscou nove pequenos quadrados, o zero o inferno, o
dez o paraíso. Uma amarelinha: para sonhar, jogue a pedra. Foram fatos de tantos anos.
Hoje ele está aqui sem cerimônias. Uns buzinam, outros nem o notam. Um grita: vá
trabalhar! Mas a mensagem é tamanha. Não em termos de quantidade, mas qualidade. O
tipo. Yeah, yeah, yeah. O seu pensamento pensa: em um papel não caberia. Em uma
mensagem eletrônica, quisera. Talvez coubesse em um muro, grafada com um spray de
tinta. Um picho. Porém, a mensagem não estaria completa — ela não seria ela. A
mensagem dele precisa do movimento. Em um ambiente coincidente, muro e rua são
elementos próximos. Mas somente a rua é marcada pelo movimento. O seu texto rima com
esse caos da rua. Pelo menos assim ele o pensa. O texto precisa estar no caminho. Como
o pedestre pede a sua faixa. O movimento. Diz ele que a rua gosta, o piche sente o carinho.
O piche que tanto apanha, que pisam até esburacar, ele faz carinho. A sua pedra faz
cócegas no piche. Uma tatuagem — a sua mensagem no corpo do piche. Mensagem,
tatuagem. O seu texto no corpo da rua. Que diz ele? Poucos param para lê-lo, para
entendê-lo, estão em movimento, deslizando sobre o piche. E cada canto da rua fica
marcado pelo texto rabiscado com pedra. Quem diria que a rua seria uma moldura para
outros sentidos. Quem diria que uma pedra também um lápis. Para rabiscar, escrever. O
que ele escreve: só ele o sabe. Você já leu? Mas está escrito — ali está a mensagem. O
seu movimento. Deus estável.
Sua vida é essa
Folhear a rua
Riscar à beça
SINUHE LP é escritor e compositor bauruense. Estudou Midialogia na Unicamp, publicou o livro de poesia visual Manual do Olho (Ed. Urutau, 2018) e lançou o álbum de canções Olhos Que Molham (2019). É membro das bandas Os Últimos Escolhidos do Futebol e Grêmio Recreativo TV & LP.
