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Colunistas

O Brasil que insiste em existir

Uma leitura pessoal sobre cinema, literatura e música em tempos de redescoberta cultural

Gabriel Candido
By Gabriel Candido
Publicado 16/01/2026
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BASE_Coluna - Brasil
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Esse recente burburinho (dois anos seguidos) em torno das premiações do cinema nacional não surge do nada. Ele é resultado de um acúmulo, de muita história. De gente que insistiu quando não era moda, quando não havia verba, quando o país parecia pouco interessado em se ver na própria tela. Não é só sobre prêmios, estatuetas ou reconhecimento internacional. É sobre memória, a arte que revive e respira a memória. É sobre identidade. Sobre a necessidade urgente de a gente se olhar no espelho sem pedir desculpa por quem é.

E foi daí que nasceu essa vontade de revisitar a nossa própria cultura. Não como quem dá aula ou querer parecer blasé, nem como quem tenta organizar o caos em listas definitivas. Isso aqui não é manual, nem ranking. É só um convite. Convite pra gente redescobrir obras, artistas, movimentos e linguagens que ajudam a contar a nossa história e porque no fim das contas, é exatamente isso que música, cinema, literatura e arte fazem.

No cinema, esse movimento de olhar para dentro não é novo. No início, o Cinema Novo já entendia que o Brasil não precisava imitar Hollywood para existir artisticamente. Aliás, falamos bastante sobre isso aqui na coluna: O Premiado Cinema Brasileiro – Social Bauru. Glauber Rocha com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”  perceberam que a nossa força estava justamente na imperfeição, no conflito, na desigualdade exposta. Era um cinema político, sim, mas antes de tudo humano. Um cinema que não oferecia respostas fáceis, apenas perguntas incômodas. Confesso que ele não envelheceu tão bem assim, e para quem não está acostumado, pode estranhar, mas dentro do contexto, é incrível. Aliás, a linguagem de O Agente Secreto bebe muito dessa fonte.

Nesse contexto, O Pagador de Promessas permanece como um símbolo gigantesco. Um filme que fala de fé, intolerância, tradição e poder com uma elegância brutal. É um clássico não porque envelheceu bem, mas porque nunca deixou de fazer sentido. Assim como Cidade de Deus, décadas depois, escancarou outro Brasil urbano, violento, pulsante e redefiniu a forma como o mundo nos enxergava cinematograficamente. Não é um filme confortável. E ainda bem. Arte que só conforta vira decoração.

E quando a gente olha para os autores, fica claro que o cinema brasileiro sempre foi muito mais diverso do que tentaram nos fazer acreditar, ou que chegaram às nossas casas e cinemas. Eduardo Coutinho, em filmes como Cabra Marcado para Morrer, Edifício Master e Jogo de Cena, nos ensinou a ouvir. Luiz Fernando Carvalho provou, em obras como Lavoura Arcaica, Hoje é Dia de Maria e Capitu, que televisão e cinema também podem ser poesia, risco e experimentação radical. 

Kleber Mendonça Filho (o diretor do momento), em O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau (e agora com O Agente Secreto), constrói narrativas onde o som, o espaço e o silêncio dizem tanto quanto os diálogos. Walter Salles, com Terra Estrangeira, Central do Brasil e Diários de Motocicleta, se interessa pelo deslocamento, pela estrada, pelo personagem em trânsito, fazendo uma metáfora perfeita de um país que nunca para de se refazer.

Tem ainda Héctor Babenco, com Pixote e O Beijo da Mulher-Aranha, trazendo um olhar estrangeiro e, ao mesmo tempo, profundamente brasileiro. José Mojica Marins, eterno Zé do Caixão, que em À Meia-Noite Levarei Sua Alma transformou o marginal em linguagem e o terror em crítica social. Cao Hamburger, com O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias; Petra Costa, em Elena e Democracia em Vertigem; Suzana Amaral, com o delicado e devastador A Hora da Estrela. Trajetórias distintas, mas atravessadas pela mesma inquietação: entender o Brasil para além do cartão-postal das principais capitais do país.

Quando o cinema brasileiro se propõe a olhar para dentro, ele não faz isso sozinho. Essa inquietação não nasce apenas da imagem, mas da palavra. Muitos dos nossos filmes mais potentes dialogam diretamente com a literatura, seja por adaptações explícitas, seja pela forma de construir personagens, conflitos e silêncios. Não é coincidência que diretores como Luiz Fernando Carvalho tenham ido beber diretamente nos livros, ou que o cinema brasileiro, em diferentes momentos, tenha se apoiado na força do texto para aprofundar o olhar sobre o país. 

Antes da câmera, veio a escrita. E entender a nossa literatura é também entender as bases do nosso cinema.

Na literatura, o problema nunca foi a falta de grandes autores, mas sim a forma como a gente se afastou deles. Machado de Assis, talvez o maior de todos, acabou virando trauma escolar para muita gente na época do vestibular. Uma injustiça histórica. Em obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba, Machado é ácido, irônico, moderno, quase cruel na forma como retrata a elite, o ego, o poder e as relações humanas. Ele não é chato. Ele é incômodo. E isso exige maturidade do leitor, algo não muito comum para estudantes de 15 anos.

Ao lado dele, Graciliano Ramos, com Vidas Secas e São Bernardo, nos oferece um Brasil seco, duro, sem maquiagem. Nelson Rodrigues, em peças como Vestido de Noiva, Boca de Ouro e nas suas crônicas, mergulha nas contradições morais da família, do desejo e da hipocrisia social como poucos. Clarice Lispector, em A Paixão Segundo G.H., Laços de Família e A Hora da Estrela, explora qualquer tentativa de leitura rasa. Ela não escreve histórias, escreve estados de espírito. Jorge Amado, por sua vez, em livros como Capitães da Areia, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos, constrói personagens populares, políticos e profundamente afetivos, que parecem sair das ruas, das cozinhas e das contradições do Brasil real.

Mas se a literatura organiza o pensamento e o cinema transforma isso em imagem, é na música que o Brasil parece falar de maneira mais imediata. Sempre funcionou como crônica do seu tempo e às vezes, mais direta que o romance, às vezes mais popular que o filme. Enquanto livros exigem silêncio e filmes pedem atenção, a música atravessa o cotidiano, entra pela janela, acompanha o trabalho, o amor, a dor e a festa. É ali que muita gente tem o primeiro contato com ideias, sentimentos e conflitos que depois vão reconhecer na literatura e no cinema.

A música talvez seja onde essa mistura brasileira aparece de forma mais evidente. Discos como A Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben (um dos meus favoritos da vida), que mistura alquimia, misticismo e samba-funk. Falso Brilhante (1976), de Elis Regina, intenso e político. Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges, que soa como amizade, estrada e utopia. Acabou Chorare (1972), dos Novos Baianos, síntese perfeita entre tradição e liberdade, colocando o Tio Sam para sambar. Tim Maia (1971), cru, direto e cheio de groove, não são apenas grandes álbuns, são manifestos emocionais.

A Tropicália, com Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia materializada em discos como Tropicália ou Panis et Circencis (1968) entenderam antes de todo mundo que o Brasil não precisava escolher entre tradição e modernidade. Dava pra misturar Beatles com samba, guitarra elétrica com berimbau, cultura pop com crítica política. E foi exatamente isso que fizeram.

Os movimentos musicais ajudam a mapear o país. A Bossa Nova, com Tom Jobim e João Gilberto, levou o Brasil para o mundo com sofisticação e economia de gestos. O Manguebeat, nos anos 1990, com Chico Science & Nação Zumbi, mostrou que Recife podia dialogar com o planeta sem perder o sotaque, misturando maracatu, rock e crítica social. 

O rock dos anos 80, surgido em Brasília com bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, traduziu uma juventude politizada e inquieta. O heavy metal do Sepultura e do Angra provou que até o som mais extremo pode carregar identidade brasileira, mesmo em inglês. O choro e o samba formaram a base de tudo, com artistas como Cartola ajudando a estruturar um movimento que é, ao mesmo tempo, música, memória e resistência.

O rap dos anos 90, com os Racionais MC’s e álbuns como Sobrevivendo no Inferno (1997), mudou definitivamente o centro do discurso. Trouxe a periferia para a narrativa principal e mostrou que o Brasil real também falava em rima, dor e consciência. E mesmo gêneros frequentemente tratados com desdém, como sertanejo, forró, axé e Jovem Guarda fazem parte dessa colcha de retalhos chamada Brasil. Gostando ou não, eles dizem algo sobre nós.

Assim como no cinema e na literatura, a música brasileira nunca se construiu de forma linear ou homogênea. Ela avança por ciclos, rupturas e misturas. Cada movimento surge como resposta a um contexto histórico, social e político específico. Não existe uma linha reta, existe um emaranhado. E talvez seja exatamente isso que torne a música brasileira tão difícil de rotular e tão rica.

Quando ampliamos ainda mais o olhar, percebemos como o Brasil sempre foi atravessado por movimentos artísticos globais: do Barroco ao Cubismo, do Fauvismo ao Abstracionismo. Nada chegou aqui puro. Tudo foi misturado, reinterpretado, abrasileirado. Assim como nossa história.

Porque, no fim, é isso: não existe um Brasil só. Existem muitos. Em cada estado, em cada região, em cada canto, há uma música, uma comida, uma estética, um jeito próprio de contar histórias. E talvez a nossa maior riqueza esteja justamente nessa impossibilidade de síntese.

E talvez o mais curioso seja perceber que, muitas vezes, esse reconhecimento vem primeiro de fora. O cinema brasileiro premiado em festivais internacionais, nossos escritores traduzidos e estudados em universidades estrangeiras, nossos músicos reverenciados e sampleados mundo afora. Glauber Rocha virou referência teórica no cinema mundial. Machado de Assis é hoje lido como um dos grandes autores do século XIX fora do Brasil. Tom Jobim ajudou a moldar a música popular internacional. O Sepultura abriu portas que ninguém imaginava possíveis. Cidade de Deus virou objeto de estudo, influência estética e referência cultural.

Isso não diminui o Brasil, pelo contrário. Mostra que a nossa cultura, quando se assume como é, sem pedir licença e sem tentar se encaixar em moldes alheios, dialoga com o mundo de igual para igual. 

Um país cresce quando se reconhece e quando se mostra. E se o mundo voltou a olhar pra cá com mais atenção, talvez seja um bom momento pra gente fazer o mesmo. 

Porque história, talento e potência cultural nunca nos faltaram. O que faltava, muitas vezes, era a coragem de olhar para nós mesmos com a seriedade que merecemos. O Brasil é grande, contraditório, barulhento, sensível e criativo. 

E que bom que o mundo voltou a olhar pra cá com mais atenção. Um país cresce quando se reconhece e se mostra. E se tem uma coisa que a gente nunca teve foi falta de história pra contar.

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ByGabriel Candido
Publicitário, pós-graduado em Comunicação e Marketing Digital. No mercado publicitário desde 2012, atuando em agências de propaganda. Além da experiência na equipe de Marketing em emissoras de televisão. Gabriel se inspirou em seu primeiro emprego, em uma locadora de vídeos, para escrever e compartilhar uma coluna sobre filmes e séries. Afinal, ele tinha que fazer alguma coisa com o seu antigo sonho de se tornar um Tarantino aos 30 anos. Linktree: linktr.ee/gabrielhcandido
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