Estava muito gostoso. E eles ainda tinham algumas horas. Luiz – o entregador de jornais de Bauru, encontrava-se com Tayla às quartas, no seu pré-expediente. Digamos, era a atividade perfeita. A obrigação de Luiz era estar pontualmente às 4h da manhã, em frente ao jornal, com a sua mobilete. Da meia noite até às quatro, a sua folga, a cidade dormia. Menos Luiz e Tayla. Encontravam-se às escondidas, com todo o sublime véu da madrugada que lhes fazia companhia. Não tinha nada de errado naquele encontro. Só parecia ser mais gostoso acontecer na madrugada e, preferencialmente, em locais interessantes.
Estava muito gostoso. O casal da madrugada tinha escolhido, desta vez, a linha do trem. Estavam próximos a um local muito ermo, com certa relva, iluminado por poste ainda de madeira, e aquele alaranjado vibrava em suas cores. Dava para a cena um tom sépia, envelhecido. Eles amavam. Gostavam de cinema. Sentaram-se nos trilhos, conversavam sobretudo trivialidades. Davam pequenos beijos minúsculos, carinhos compreensíveis, eram felizes. Tayla ria com certa dificuldade porque queria manter o silêncio. Luiz não poupava as palhaçadas. Era um palhaço. Tayla resolveu pregar-lhe uma peça. Entre as carícias, pediu para Luiz deitar-se sobre os trilhos. Era uma linha desativada, não tinha perigo, eles conheciam bem – filhos de ferroviários bauruenses. Luiz prontamente obedeceu. Deitou-se. Em seguida, Tayla disse: amor, por favor, feche os olhos. Ele prontamente. Tayla sacou os cadarços de seu all star verde. E passou a amarrar seu amante no trilho. Risos frouxos, uma tolice. Aquela madrugada fez calor em Bauru.
Estava com muita vergonha. O crepúsculo com seus primeiros sinais. Sentado na mesa do café, sozinho, falava muito em pensamento. Completo silêncio. E falava, falava, falava. Como isso sucedera. Por que na sua família? Queria chorar. Queria gritar. Queria fazer silêncio. Queria convidar Bauru inteira para um café e desabafar de uma vez. Queria sumir e guardar segredo para o nunca mais. Seu Claudir não admitia o fato. Justo com o Seu Claudir do Bar do Seu Claudir. Não abriria o bar neste dia, estava decidido. Não tinha cara, não tinha coragem, não tinha coração. Como abrir? Como encarar as pessoas? Como seguir adiante, tomar o resto do café, passar um pano no balcão, lavar os copos da última noite, e trocar as garrafas retornáveis? Queria matar alguém. Quem, Seu Claudir? Aquele maldito repórter que lhe sacou uma fotografia, com flash. Que soube da sua estória, invadiu seu bar e disse, com a língua nos dentes, que na manhã seguinte estaria estampado em todas as mesas de café da manhã de Bauru.
Estava com muita vergonha. E não conseguia se mexer. Imóvel, olhava para o relógio, hora seu pensamento era ponteiro pequeno, fixo naquela ideia. Hora seu pensamento era ponteiro grande, pensando em todos os desdobramentos. O tempo todo o seu coração era o ponteiro dos segundos: para todos os lados, correndo, correndo. Indo e voltando. Tudo a mesma engrenagem, o mesmo sistema, o Seu Claudir. Temia, Seu Claudir temia a campainha. Que tocasse, e com ela, chegasse o maldito jornal com a sua cara estampada. Maldito repórter, maldita fotografia. Odiava fotografias. Se pudesse, quebraria agora todas as câmeras do mundo. E seus flashes, não esqueceria os flashes, amassaria todas as lampadazinhas.
Estava completamente enganado, pensava a sua esposa Mercedes. O fato era motivo de alegria. Desde que sucedera, ela não tirava o sorriso lindo do rosto, como era feliz, como estava contente! Era uma nova fase para a família. Tão aguardada, tão esmerada, tão nossa. Só Claudir, bronco, para tomar o fato com desgosto. Era muito medroso, isso sim. Desde que casou com ele sua mãe já a advertira: este homem não tem fibras. Todo durão é covarde, é mole na hora H. O conselho da falecida agora valia. Mais do que nunca. Nunca tinha visto Claudir tão sensibilizado em trinta anos de matrimônio. Ele ainda não tinha botado os pés no bar da garagem da casa, fato inédito. Inédito! Ele seguia a rotina como ninguém. Mas Mercedes não se consumia por Claudir, não se consumia. Entrar na pilha do marido seria um engano tremendo. Só ele pensava assim sobre o fato. A sua filha, o seu genro, o seu totó, as suas vizinhas: todas aplaudiram, cantaram, sorriam. O jornal não chegava de jeito nenhum.
Estava Bauru acontecendo. Como um dia qualquer, um dia útil. Uma criança jogava pipocas aos jacarés na Praça Rui Barbosa, a mãe repreendia. Uma lojista ajustava suas roupas e tecidos no Calçadão da Batista, o manequim obedecia. Uma professora da primeira série pedia para a turma fazer silêncio, o ventilador interrompia. Mas o caixeiro viajante Perciflores seguia o seu caminho – às quintas chegava a Bauru, cedinho, e logo ia vender as velharias que tinha pechinchado pela região. Ele chamava de novidades. Dito e feito. Seu Claudir tomou um susto, quase teve um ataque quando Perciflores bateu no seu portão. Mercedes gritou: Larga, Claudir! Vá atender esta porta senão vou eu. Se for o jornal, peça dois, eu quero um de recordação, vou pregar nesta parede! E se for o fotógrafo, eu vou pedir para esperar porque trocarei de vestido e farei pose de lady. Irritado, Claudir estranhou o amigo: é você… muxoxo.
Estavam para badalar as oito horas da noite. Claudir, anestesiado, já tinha fechado o bar, estava estirado na cama do quartinho dos fundos. Não queria papo. Ainda um pouco assustado, sem entender. O jornal não tinha chegado, outro fato inédito. Que dia mais estranho. Foi quando começou a ouvir pequenos murmurinhos. Descobriu-se, acendeu o abajur, abriu a porta, atravessou o corredor estreito, brigou com totó pela festa sem motivo. Passou pela cozinha e tomou um susto: Mercedes lia o jornal do dia com felicidade, tomava um café com açúcar. Era uma batalha para outra hora, queria saber de onde vinham os murmurinhos. Finalmente chegou até o portão do bar: o som era de multidão. Era o que mais temia! Pela primeira vez em sua vida, não foi frouxo. Respirou fundo, apoiou as duas mãos no portão e o levantou. Toda a cidade estava reunida à sua porta. Carregavam jornais em suas mãos e gritavam: Vovô! Vovô! Vovô! Parabéns, Claudir! Já deram os nomes? Quando será o batismo? E Claudir não conseguiu manter a pose, pôs se a chorar copiosamente, foi abraçado pela multidão!
Estava entre os braços da multidão quando um homem em situação de rua gritou: olhem para o céu, olhem o formato da lua, é um U. E realmente era um U, a lua era um U naquela noite, como o sorriso do gato de Alice. E toda a cidade, em volta do Bar do Seu Claudir começou a uivar. Uuuuuu. Era lindo. Neste momento atônito e sublime, digno de uma anunciação, do portão do bar, ao lado de Mercedes e totó, surgiu a filha de Claudir. Em seus braços, seus gêmeos, recém-nascidos, vivos, o fato! O fato de Seu Claudir. Ou melhor, os fatos, eram dois, dois meninos, lindos! Fortes, saudáveis, esbeltos, os netos de Seu Claudir e Dona Mercedes. E a multidão disse os Us mais lindos de Bauru, uivando e sorrindo. A família emocionada. E tal batismo terminou quando, diante da lua, todas as pessoas cantaram o refrão:
Nasceram os meninos
Dois meninos de Bauru
Para não faltar um berço
A lua se fez U
