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Social Bauru > Blog > Destaques > Colunistas > As duas primeiras temporadas de The Last of Us e o risco de perder a essência
Colunistas

As duas primeiras temporadas de The Last of Us e o risco de perder a essência

Gabriel Candido
By Gabriel Candido
Publicado 06/06/2025
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A adaptação televisiva de The Last of Us, baseada nos premiados jogos da Naughty Dog, começou sua trajetória com altas expectativas, essas sustentadas pela qualidade narrativa dos games e pelo envolvimento de Neil Druckmann, criador da franquia, na produção.

As duas primeiras temporadas entregaram momentos interessantes, mas também apresentaram decisões criativas que dividiram o público e levantaram preocupações sobre o futuro. Inclusive falamos aqui na coluna sobre a primeira temporada: The Last of Us: adaptação do jogo da Sony fala sobre caos e humanidade – link.

O elenco principal foi um dos pontos mais fortes. Pedro Pascal como Joel e Bella Ramsey como Ellie entregaram atuações intensas, emocionalmente complexas e, em muitos momentos, fiéis aos jogos. Os personagens secundários também foram bem escalados e contribuíram para a profundidade do universo.

A produção soube recriar com precisão o mundo devastado pelo surto do fungo Cordyceps, que é real, apesar das proporções. As cidades abandonadas, vegetação retomando e engolindo os espaços urbanos e os detalhes nos cenários conseguiram captar o sentimento de ruína, desgraças e sobrevivência que define o universo de The Last of Us, em momentos se dividia os frames dos jogos com a série.

A série conseguiu manter a tensão constante, com episódios intensos e momentos de introspecção. A relação entre Joel e Ellie foi, em muitos momentos, construída com delicadeza, ainda que acelerada.

Gustavo Santaolalla, responsável também pelas trilhas dos jogos, retornou na série e manteve a atmosfera melancólica e agridoce. Suas composições ajudaram a conectar emocionalmente o público à narrativa, funcionando como uma ponte sensível entre a adaptação e os jogos. A trilha é fundamental para a imersão da série e do jogo.

Apesar de ter sido bem recebida em sua estreia, a primeira temporada foi
criticada pela rapidez com que passou por eventos importantes. Com apenas nove
episódios, muitos arcos narrativos, como a estadia em Jackson ou a relação com os
Canibais foram resolvidos de forma apressada. Isso prejudicou o impacto emocional
de certas cenas e enfraqueceu a construção da relação entre os protagonistas. Para
quem jogou os jogos, caberia duas temporadas tranquilo, só pelo primeiro jogo.

A segunda temporada buscou adaptar eventos do segundo jogo, mas pecou nas
escolhas narrativas. Algumas decisões de personagens foram apresentadas de forma
abrupta ou incoerente, gerando estranheza. A personagem Ellie, em especial, perdeu
nuances importantes de sua personalidade. Sua raiva, luto e dor, centrais no segundo
jogo, foram mal distribuídos, tornando-a menos empática e mais desconectada do
público.

As protagonistas do segundo jogo: Ellie e Abby

A profundidade emocional das protagonistas é o coração de The Last of Us Part II.
Ellie, consumida pelo trauma e pela vingança, perde partes essenciais de si mesma
em sua jornada. Abby, inicialmente vista como antagonista, revela sua própria dor e

dilemas morais. Ambas cometem erros irreversíveis. As consequências são
devastadoras: Ellie termina solitária, e Abby, apesar da fuga, carrega cicatrizes
internas profundas. O jogo nos força a sentir empatia por ambos os lados — algo raro
e poderoso.

Os jogos: revolucionários e emocionantes

The Last of Us (2013)

O primeiro jogo, lançado para PlayStation 3, redefiniu a forma como histórias são
contadas em videogames. Com narrativa cinematográfica, atuações expressivas e um
mundo rico em detalhes, The Last of Us não era apenas um jogo de
ação/sobrevivência — era uma experiência emocional sobre amor, perda e sacrifício.

The Last of Us Part II (2020)

O segundo jogo elevou ainda mais o patamar narrativo. Com uma estrutura
ousada, que obriga o jogador a ver a história sob diferentes perspectivas, Part II
desconstrói o conceito tradicional de “herói” e “vilão”. Acompanhamos Ellie em uma
jornada de vingança que a consome, enquanto a personagem Abby é humanizada,
gerando uma tensão moral constante. Foi divisivo, mas inegavelmente ambicioso e
corajoso, e marcou uma geração.

Naughty Dog: o estúdio por trás do legado

A Naughty Dog, criadora de franquias como Uncharted, Jak and Daxter e Crash
Bandicoot, se consolidou como um dos estúdios mais influentes do mundo. Conhecida
por seu domínio técnico, narrativa cinematográfica e personagens complexos, a
Naughty Dog alcançou um novo patamar com The Last of Us, principalmente com a
ousadia temática de Part II.

O mundo de The Last of Us e o futuro sombrio da série

O universo de The Last of Us sempre foi pessimista. A esperança existe, mas está
sempre à beira do colapso. A humanidade, mesmo em meio ao apocalipse, continua
sendo seu maior inimigo. Essa visão sombria foi traduzida com sucesso nos jogos,
especialmente no segundo e parcialmente na série.

Infelizmente, a segunda temporada enfraqueceu essa entrega. Com decisões
criativas que descaracterizaram personagens centrais e uma execução menos
cuidadosa, a série perdeu parte da conexão emocional com o público. O receio agora
é que uma possível terceira e quarta temporadas tentem contornar o peso dramático
dos jogos com soluções comerciais ou simplificadas — o que seria um desserviço à
profundidade da obra original.

Se não houver uma recuperação criativa significativa, The Last of Us corre o risco
de se tornar mais uma adaptação que começou com força, mas perdeu sua essência
ao longo do caminho.

Como fã dos jogos da Naughty Dog, fui com o coração apertado, mas cheio de
expectativa, assistir à adaptação para a TV. A primeira temporada me pegou com força logo no começo. Pedro Pascal e Bella Ramsey me convenceram nos papéis de Joel e Ellie. A química entre os dois funciona, e os cenários… impressionantes.

A ambientação é fiel, imersiva e, por vezes, sufocante — exatamente como o
mundo de The Last of Us pede. A trilha sonora de Gustavo Santaolalla, com aquele
violão melancólico, foi incrível.

Mas, com o passar dos episódios, comecei a sentir algo estranho. A narrativa
estava correndo demais. Momentos que nos jogos se desenrolaram com tempo,
emoção e profundidade foram resumidos em diálogos apressados ou elipses bruscas.
A relação entre Joel e Ellie, por exemplo, parecia ganhar camadas quase que por
obrigação de roteiro, e não por construção natural. Quando a temporada acabou,
senti um certo vazio, como se tivessem me contado a história certa, mas rápido
demais e com menos alma.

E aí veio a segunda temporada…

Se na primeira o problema era o ritmo, na segunda, foram as decisões. Decisões
de roteiro, de construção de personagem, e especialmente da Ellie. Aquela garota
complexa, forte e frágil ao mesmo tempo, parecia ter sido trocada por uma versão
mais fria, quase irreconhecível.

Entendo que a adaptação buscava antecipar os conflitos do segundo jogo, mas
faltou equilíbrio. Algumas escolhas soam forçadas, outras, incoerentes. Fiquei com a
sensação de que a série quis chocar mais do que emocionar, e isso, num universo
como The Last of Us, é um erro grave e preocupante.

É impossível falar da série sem voltar aos jogos. O primeiro The Last of Us,
lançado em 2013, não foi só um marco técnico, ele redefiniu o que um jogo narrativo
podia ser.

A jornada de Joel e Ellie é uma das mais emocionantes que já vivi no mundo dos
videogames. A Naughty Dog entregou um mundo cruel, mas profundamente humano.
Já The Last of Us Part II, foi ainda mais ousado. O jogo dividiu opiniões e com razão.
Ele nos obriga a sentir empatia por quem julgávamos odiar e a questionar o que
significa justiça num mundo em ruínas.

A alternância entre Ellie e Abby é uma das sacadas narrativas mais potentes que
já vi. Ambas são vítimas e vilãs ao mesmo tempo. Ellie, movida pela dor, mergulha
em um ciclo de vingança que a destrói por dentro. Abby, por outro lado, ganha
camadas de humanidade, mesmo após cometer o ato que deu início a tudo.

No final, ninguém sai ileso. E é exatamente isso que torna o segundo jogo tão
poderoso: ele não quer que você se sinta bem, quer que você pense, questione e
sofra junto. A Naughty Dog merece crédito por não ter seguido o caminho mais fácil.
Ela fez o oposto do que muitos estúdios fariam: arriscou tudo por uma história difícil
de engolir, mas impossível de esquecer. É esse peso que a série ainda não conseguiu
carregar.

E aqui está minha maior frustração com a segunda temporada: ela tinha a chance
de aprofundar personagens e temas com calma, de construir empatia com tempo,
mas preferiu acelerar conflitos e simplificar emoções. Com isso, perdeu impacto. Pior:
descaracterizou sua protagonista.

O mundo de The Last of Us nunca foi um lugar esperançoso. É uma distopia realista, onde a dor é constante e a sobrevivência não traz redenção. O problema é que a série parece estar perdendo o pulso dessa tristeza crua, tentando equilibrar o drama com um certo apelo popular que, sinceramente, não combina com essa história.

Se a terceira e quarta temporadas seguem esse rumo, corremos o risco de ver a
adaptação se tornar apenas mais uma série pós-apocalíptica entre tantas. E isso seria
uma pena, porque The Last of Us nunca foi só sobre zumbis ou pandemias. Sempre
foi sobre o que resta de humano quando o mundo já não é mais nosso. A procura
pelo ÚLTIMO DE NÓS…

Infelizmente, hoje, vejo a série perdendo a essência que fez dos jogos algo tão
revolucionário. E confesso: como fã, dói.

Rotten Tomatoes: A segunda temporada possui uma aprovação de 92% pela
crítica especializada, mas enfrenta uma baixa aceitação do público, com apenas 43%
de aprovação pelos usuários.

IMDb: A temporada tem uma média geral de 6,3/10, com destaque para o
episódio 2, “Through the Valley”, que alcançou 9,5/10, tornando-se o mais bem
avaliado da série até o momento.

Onde assistir: No Brasil, os episódios estão disponíveis na plataforma de
streaming Max (antiga HBO Max, ou Max, ou HBO Go, sei lá)

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ByGabriel Candido
Publicitário, pós-graduado em Comunicação e Marketing Digital. No mercado publicitário desde 2012, atuando em agências de propaganda. Além da experiência na equipe de Marketing em emissoras de televisão. Gabriel se inspirou em seu primeiro emprego, em uma locadora de vídeos, para escrever e compartilhar uma coluna sobre filmes e séries. Afinal, ele tinha que fazer alguma coisa com o seu antigo sonho de se tornar um Tarantino aos 30 anos. Linktree: linktr.ee/gabrielhcandido
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