A adaptação televisiva de The Last of Us, baseada nos premiados jogos da Naughty Dog, começou sua trajetória com altas expectativas, essas sustentadas pela qualidade narrativa dos games e pelo envolvimento de Neil Druckmann, criador da franquia, na produção.
As duas primeiras temporadas entregaram momentos interessantes, mas também apresentaram decisões criativas que dividiram o público e levantaram preocupações sobre o futuro. Inclusive falamos aqui na coluna sobre a primeira temporada: The Last of Us: adaptação do jogo da Sony fala sobre caos e humanidade – link.
O elenco principal foi um dos pontos mais fortes. Pedro Pascal como Joel e Bella Ramsey como Ellie entregaram atuações intensas, emocionalmente complexas e, em muitos momentos, fiéis aos jogos. Os personagens secundários também foram bem escalados e contribuíram para a profundidade do universo.

A produção soube recriar com precisão o mundo devastado pelo surto do fungo Cordyceps, que é real, apesar das proporções. As cidades abandonadas, vegetação retomando e engolindo os espaços urbanos e os detalhes nos cenários conseguiram captar o sentimento de ruína, desgraças e sobrevivência que define o universo de The Last of Us, em momentos se dividia os frames dos jogos com a série.
A série conseguiu manter a tensão constante, com episódios intensos e momentos de introspecção. A relação entre Joel e Ellie foi, em muitos momentos, construída com delicadeza, ainda que acelerada.
Gustavo Santaolalla, responsável também pelas trilhas dos jogos, retornou na série e manteve a atmosfera melancólica e agridoce. Suas composições ajudaram a conectar emocionalmente o público à narrativa, funcionando como uma ponte sensível entre a adaptação e os jogos. A trilha é fundamental para a imersão da série e do jogo.
Apesar de ter sido bem recebida em sua estreia, a primeira temporada foi
criticada pela rapidez com que passou por eventos importantes. Com apenas nove
episódios, muitos arcos narrativos, como a estadia em Jackson ou a relação com os
Canibais foram resolvidos de forma apressada. Isso prejudicou o impacto emocional
de certas cenas e enfraqueceu a construção da relação entre os protagonistas. Para
quem jogou os jogos, caberia duas temporadas tranquilo, só pelo primeiro jogo.
A segunda temporada buscou adaptar eventos do segundo jogo, mas pecou nas
escolhas narrativas. Algumas decisões de personagens foram apresentadas de forma
abrupta ou incoerente, gerando estranheza. A personagem Ellie, em especial, perdeu
nuances importantes de sua personalidade. Sua raiva, luto e dor, centrais no segundo
jogo, foram mal distribuídos, tornando-a menos empática e mais desconectada do
público.
As protagonistas do segundo jogo: Ellie e Abby

A profundidade emocional das protagonistas é o coração de The Last of Us Part II.
Ellie, consumida pelo trauma e pela vingança, perde partes essenciais de si mesma
em sua jornada. Abby, inicialmente vista como antagonista, revela sua própria dor e
dilemas morais. Ambas cometem erros irreversíveis. As consequências são
devastadoras: Ellie termina solitária, e Abby, apesar da fuga, carrega cicatrizes
internas profundas. O jogo nos força a sentir empatia por ambos os lados — algo raro
e poderoso.
Os jogos: revolucionários e emocionantes
The Last of Us (2013)
O primeiro jogo, lançado para PlayStation 3, redefiniu a forma como histórias são
contadas em videogames. Com narrativa cinematográfica, atuações expressivas e um
mundo rico em detalhes, The Last of Us não era apenas um jogo de
ação/sobrevivência — era uma experiência emocional sobre amor, perda e sacrifício.
The Last of Us Part II (2020)
O segundo jogo elevou ainda mais o patamar narrativo. Com uma estrutura
ousada, que obriga o jogador a ver a história sob diferentes perspectivas, Part II
desconstrói o conceito tradicional de “herói” e “vilão”. Acompanhamos Ellie em uma
jornada de vingança que a consome, enquanto a personagem Abby é humanizada,
gerando uma tensão moral constante. Foi divisivo, mas inegavelmente ambicioso e
corajoso, e marcou uma geração.
Naughty Dog: o estúdio por trás do legado
A Naughty Dog, criadora de franquias como Uncharted, Jak and Daxter e Crash
Bandicoot, se consolidou como um dos estúdios mais influentes do mundo. Conhecida
por seu domínio técnico, narrativa cinematográfica e personagens complexos, a
Naughty Dog alcançou um novo patamar com The Last of Us, principalmente com a
ousadia temática de Part II.

O mundo de The Last of Us e o futuro sombrio da série
O universo de The Last of Us sempre foi pessimista. A esperança existe, mas está
sempre à beira do colapso. A humanidade, mesmo em meio ao apocalipse, continua
sendo seu maior inimigo. Essa visão sombria foi traduzida com sucesso nos jogos,
especialmente no segundo e parcialmente na série.
Infelizmente, a segunda temporada enfraqueceu essa entrega. Com decisões
criativas que descaracterizaram personagens centrais e uma execução menos
cuidadosa, a série perdeu parte da conexão emocional com o público. O receio agora
é que uma possível terceira e quarta temporadas tentem contornar o peso dramático
dos jogos com soluções comerciais ou simplificadas — o que seria um desserviço à
profundidade da obra original.
Se não houver uma recuperação criativa significativa, The Last of Us corre o risco
de se tornar mais uma adaptação que começou com força, mas perdeu sua essência
ao longo do caminho.
Como fã dos jogos da Naughty Dog, fui com o coração apertado, mas cheio de
expectativa, assistir à adaptação para a TV. A primeira temporada me pegou com força logo no começo. Pedro Pascal e Bella Ramsey me convenceram nos papéis de Joel e Ellie. A química entre os dois funciona, e os cenários… impressionantes.
A ambientação é fiel, imersiva e, por vezes, sufocante — exatamente como o
mundo de The Last of Us pede. A trilha sonora de Gustavo Santaolalla, com aquele
violão melancólico, foi incrível.
Mas, com o passar dos episódios, comecei a sentir algo estranho. A narrativa
estava correndo demais. Momentos que nos jogos se desenrolaram com tempo,
emoção e profundidade foram resumidos em diálogos apressados ou elipses bruscas.
A relação entre Joel e Ellie, por exemplo, parecia ganhar camadas quase que por
obrigação de roteiro, e não por construção natural. Quando a temporada acabou,
senti um certo vazio, como se tivessem me contado a história certa, mas rápido
demais e com menos alma.
E aí veio a segunda temporada…
Se na primeira o problema era o ritmo, na segunda, foram as decisões. Decisões
de roteiro, de construção de personagem, e especialmente da Ellie. Aquela garota
complexa, forte e frágil ao mesmo tempo, parecia ter sido trocada por uma versão
mais fria, quase irreconhecível.
Entendo que a adaptação buscava antecipar os conflitos do segundo jogo, mas
faltou equilíbrio. Algumas escolhas soam forçadas, outras, incoerentes. Fiquei com a
sensação de que a série quis chocar mais do que emocionar, e isso, num universo
como The Last of Us, é um erro grave e preocupante.
É impossível falar da série sem voltar aos jogos. O primeiro The Last of Us,
lançado em 2013, não foi só um marco técnico, ele redefiniu o que um jogo narrativo
podia ser.
A jornada de Joel e Ellie é uma das mais emocionantes que já vivi no mundo dos
videogames. A Naughty Dog entregou um mundo cruel, mas profundamente humano.
Já The Last of Us Part II, foi ainda mais ousado. O jogo dividiu opiniões e com razão.
Ele nos obriga a sentir empatia por quem julgávamos odiar e a questionar o que
significa justiça num mundo em ruínas.

A alternância entre Ellie e Abby é uma das sacadas narrativas mais potentes que
já vi. Ambas são vítimas e vilãs ao mesmo tempo. Ellie, movida pela dor, mergulha
em um ciclo de vingança que a destrói por dentro. Abby, por outro lado, ganha
camadas de humanidade, mesmo após cometer o ato que deu início a tudo.
No final, ninguém sai ileso. E é exatamente isso que torna o segundo jogo tão
poderoso: ele não quer que você se sinta bem, quer que você pense, questione e
sofra junto. A Naughty Dog merece crédito por não ter seguido o caminho mais fácil.
Ela fez o oposto do que muitos estúdios fariam: arriscou tudo por uma história difícil
de engolir, mas impossível de esquecer. É esse peso que a série ainda não conseguiu
carregar.
E aqui está minha maior frustração com a segunda temporada: ela tinha a chance
de aprofundar personagens e temas com calma, de construir empatia com tempo,
mas preferiu acelerar conflitos e simplificar emoções. Com isso, perdeu impacto. Pior:
descaracterizou sua protagonista.
O mundo de The Last of Us nunca foi um lugar esperançoso. É uma distopia realista, onde a dor é constante e a sobrevivência não traz redenção. O problema é que a série parece estar perdendo o pulso dessa tristeza crua, tentando equilibrar o drama com um certo apelo popular que, sinceramente, não combina com essa história.
Se a terceira e quarta temporadas seguem esse rumo, corremos o risco de ver a
adaptação se tornar apenas mais uma série pós-apocalíptica entre tantas. E isso seria
uma pena, porque The Last of Us nunca foi só sobre zumbis ou pandemias. Sempre
foi sobre o que resta de humano quando o mundo já não é mais nosso. A procura
pelo ÚLTIMO DE NÓS…
Infelizmente, hoje, vejo a série perdendo a essência que fez dos jogos algo tão
revolucionário. E confesso: como fã, dói.
Rotten Tomatoes: A segunda temporada possui uma aprovação de 92% pela
crítica especializada, mas enfrenta uma baixa aceitação do público, com apenas 43%
de aprovação pelos usuários.
IMDb: A temporada tem uma média geral de 6,3/10, com destaque para o
episódio 2, “Through the Valley”, que alcançou 9,5/10, tornando-se o mais bem
avaliado da série até o momento.
Onde assistir: No Brasil, os episódios estão disponíveis na plataforma de
streaming Max (antiga HBO Max, ou Max, ou HBO Go, sei lá)
