Confesso sem vergonha nenhuma que eu estava de saco cheio da Marvel. De verdade. Não que eu tenha deixado de curtir herói ou de gostar do universo criado lá atrás, mas… virou overdose. É série demais, spin-off demais, multiverso pra todo lado, personagem que aparece num filme e some em outro, e um monte de história que parece mais pensada para encaixar em cronograma do que pra emocionar de verdade. E tudo isso enquanto a gente paga cada vez mais caro no Disney Plus, os cinemas vão ficando cada vez mais vazios, e o streaming virando terra de ninguém. A pandemia acelerou tudo isso e fritou nosso cérebro, e a verdade é que o público cansou. Ou não…
Então, quando anunciaram mais um filme do Quarteto Fantástico, eu pensei: “Ah não… outra tentativa de acertar o que já deu errado outras vezes… e parece que chegaram meio atrasados pra essa festa”.
Porque, convenhamos, a trajetória do quarteto no cinema é quase trágica e triste. Lá em 1994, teve aquele filme tão ruim, mas tão ruim, que os próprios produtores engavetaram. Os efeitos pareciam feitos com papel crepom. Tem no Youtube, se um dia você tiver coragem…
Depois vieram os filmes dos anos 2000, com direção do Tim Story, que até foram divertidos na época, mas hoje em dia não se sustentam. E envelheceram com leite. E a nostalgia de alguns fingem pensar que aquilo foi bom. Pra época já era ruim.
E então o reboot de 2015, que tentou ser sombrio e adulto, mas virou um Frankenstein cinematográfico sem alma nenhuma. Um desastre completo. Quem lembra daquele Doutor Destino de plástico sabe do que tô falando. Filme sem cor, época das adaptações “sombrias e realistas” e que bom que isso passou.
Com esse histórico, dá pra entender porque eu fui ver Primeiros Passos cheio de pé atrás. Só que o que eu encontrei… foi o oposto de tudo que eu esperava.
Um filme com identidade! A estética já te prende, eles criaram um universo retrô-futurista, que parece saído direto das revistas de ficção científica dos anos 60 com prédios modernistas, naves cromadas, roupas com textura, aquela vibe meio Jetsons com Blade Runner, só que de dia e limpo. Lembra os desenhos da Hanna Barbera. E o mais legal: isso não é só estilo.
A direção de arte mergulha o filme nessa identidade visual com convicção, e a gente se sente dentro daquele mundo. É tudo coeso, cheio de detalhes, desde o cenário até os instrumentos científicos. A trilha sonora, que é simplesmente sensacional. Quem assina é o Michael Giacchino, que já tinha feito trilhas em filmes como Up: Altas Aventuras, The Batman, Rogue One e até Doutor Estranho. Aqui, ele mistura perfeitamente o clima cósmico com uma vibe retrô cheia de personalidade. Em alguns momentos, a música parece saída direto de um disco sci-fi dos anos 60; em outros, batem como um hino que pontua as ações dos personagens.
O diretor, Matt Shakman, que já tinha mandado bem em WandaVision, mostra aqui um domínio estético e narrativo muito mais sólido, principalmente por tratar de temas televisivos. Ele entende que o Quarteto é diferente. Eles não são os Vingadores. Não são soldados, nem espiões, nem deuses. São cientistas e exploradores. A primeira família da Marvel, e isso transparece o tempo todo.
Pedro Pascal segura bem o papel do Reed Richards, ele tem aquele ar de gênio visionário, mas também uma certa frieza, um distanciamento emocional que, aos poucos, o roteiro vai escancarando. Ele não é o herói clássico, e o filme sabe disso.
Vanessa Kirby brilha como a Sue Storm. Ela é inteligente, firme, sensível. Nada de “mocinha loira” apagada (né Jessica Alba) aqui, ela é o coração do grupo. Ela segura a barra emocional de todo mundo.
O Joseph Quinn, como Johnny Storm, traz o carisma e a impulsividade que o Tocha Humana precisava. É engraçado sem ser bobo. E o Ebon Moss-Bachrach, como o Ben Grimm (The Bear), entrega um Coisa como a gente nunca viu no cinema: duro por fora, partido por dentro. Ele fala pouco, mas cada frase é certeira.
O Galactus, finalmente, apareceu!

E, que presença! O visual é enorme, amassador, pesado. Ele não é só um vilão gigante. Ele é uma força da natureza. Uma entidade cósmica. E a voz do Ralph Ineson (com aquele grave arranhado, quem viu A Bruxa, sabe) dá o tom brutal que o personagem exige. Dito isso… eu ainda acho que o filme segurou um pouco. Criei uma expectativa que não rolou. Não foi o Galactus em sua forma máxima, não ainda! Me pareceu mais uma aparição introdutória. O tipo de ameaça que vai voltar e que merece um arco inteiro, talvez até como o vilão central da próxima saga dos Vingadores. Anota aí…
Agora, a Surfista Prateada, interpretada por Julia Garner, foi uma baita surpresa. Mudaram o gênero do personagem, o que, claro, já gerou debate por aí, mas, honestamente? Ela entrega tudo. Ela tem uma presença etérea, quase triste, como alguém que já viu o fim do universo e voltou só pra avisar que não vale a pena lutar. O visual é lindo, o tempo de tela é bem aproveitado, e a conexão com Galactus é respeitosa com os quadrinhos.
E… o bebê.
Sim, o Franklin Richards está no filme. Não é spoiler, isso está nos trailers. E não é só um detalhe. Ele pode até parecer só uma criança no colo da Sue, mas fica claro (pra quem conhece os quadrinhos) que ele vai ser muito importante no futuro. Nos quadrinhos, Franklin é quase um deus. Ele cria universos com a mente. E aqui, ele surge como uma peça-chave do que está por vir. Minhas apostas? Ele vai ser o elo entre dimensões, multiversos e sagas futuras (tem cena pós créditos). Um novo tipo de “nexo” do universo Marvel, tipo um “macguffin”, só que agora ao invés de joias do infinito, será em volta de um personagem.
E o momento que mais me pegou, de verdade, foi a homenagem ao Jack Kirby. Talvez nem todo mundo perceba. Talvez nem todo mundo conheça. Mas se existe Marvel, se existe Quarteto Fantástico, se existe Homem Aranha, se existe qualquer herói com um pouco de alma… é porque o Kirby desenhou com as próprias mãos o DNA desse universo. O filme dedica a ele uma sequência linda, quase onírica, que mistura arte, memória e gratidão. Porque a gente sempre lembra do Stan Lee (com razão), mas o Kirby era o motor por trás de tudo. E essa homenagem, mesmo póstuma, foi justa, sensível e necessária.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos não é só um bom filme de herói. É um respiro. Um lembrete de que a Marvel ainda pode contar boas histórias. Que dá pra equilibrar fan service, emoção, arte e espetáculo. Que os personagens ainda têm algo a dizer. Ele apresenta um novo universo, com identidade visual forte, elenco afiado, e um roteiro que não tem pressa. E mais: planta, de forma orgânica, caminhos para o que pode ser a próxima grande fase do MCU.
Ainda se discute muito o futuro do cinema. A Marvel, em algum momento, virou refém de si mesma tentando se provar o tempo todo, despejando conteúdo sem pausa por causa do streaming. Mas talvez, no fim de tudo, a resposta sempre tenha sido mais simples: a gente só precisava de um filme legal. Um filme com alma. E, felizmente, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é exatamente isso.
Se esse filme for o começo de uma nova fase mais autoral, mais humana e menos “linha de montagem”, então a Marvel pode voltar a ser o que já foi um dia, se encontrando como uma boa contadora de histórias. E como diria o próprio Kirby “Se você olhar para os meus personagens, você me encontrará”.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos está em cartaz nos cinemas: Cinema – Social Bauru

