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Colunistas

Festival de Cinema de Gramado

34 anos depois, quando finalmente consegui viver algo que sempre sonhei: estar presente no Festival de Cinema de Gramado

Gabriel Candido
By Gabriel Candido
Publicado 21/08/2025
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Festival Gramado
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Para mim, que sempre fui apaixonado por cinema brasileiro, caminhar pelo tapete vermelho na Rua Coberta, ver as luzes do Palácio dos Festivais e sentir aquele frio absurdo típico da Serra Gaúcha foi como atravessar um portal, não só para uma cidade charmosa, mas para a própria história do nosso cinema.

O festival nasceu em 1973, fruto de uma vontade coletiva de valorizar o audiovisual brasileiro num período em que o país passava por censura e instabilidade política (época militar). A primeira edição, realizada de 10 a 14 de janeiro, já mostrou que Gramado não seria apenas mais um evento: começava uma tradição que, aos poucos, se tornaria a maior do gênero no Brasil e uma das mais respeitadas da América Latina.

Os anos 70 foram marcados pelo glamour, pelas polêmicas e pela presença da imprensa. Gramado passou a ser sinônimo de festa, mas também de resistência e afirmação cultural. E foi nessa época que surgiu o maior símbolo do festival: o Kikito, criado pela artista Elisabeth Rosenfeld. Representando o “deus do bom humor”, o Kikito começou feito em madeira imbuia. Só em 1989 ganhou a versão de bronze que conhecemos hoje. Pequenino, com 33 cm de altura, mas gigante no peso simbólico: para qualquer cineasta brasileiro ou latino-americano, segurar um Kikito é um rito de passagem.

O Palácio dos Festivais, que hoje se tornou cartão-postal, só foi adotado como sede na década de 80. Com mais de mil lugares, fachada marcada por um Kikito em destaque e atmosfera quase mágica, ele se tornou o coração do festival. E Gramado não parou. Em 1992, com a crise instaurada pela extinção da Embrafilme, o festival precisou se reinventar. A solução foi internacionalizar-se, dando espaço ao cinema ibero-americano. Foi uma jogada ousada, mas certeira, afinal, o cinema latino tem muito em comum, e esse diálogo transformou Gramado num palco de encontro entre culturas, sotaques e visões de mundo.

Ao longo das décadas, vieram também os prêmios honoríficos, cada um com seu significado: o Troféu Oscarito, homenageando grandes atores do cinema brasileiro; o Eduardo Abelin, para produtores e diretores de bastidores; o Kikito de Cristal, para nomes internacionais; e o Cidade de Gramado, uma reverência aos que ajudam a construir essa história. 

Isso sem falar na Calçada da Fama, inaugurada em 2006, que eternizou ali na serra nomes como Sônia Braga, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, além de estrangeiros como Javier Bardem e Pedro Almodóvar.

E é curioso pensar que, ao mesmo tempo em que se tornava um festival de prestígio internacional, Gramado nunca perdeu o clima intimista. A cidade inteira respira cinema. Restaurantes, cafés e hotéis se transformam em pontos de encontro para cineastas, críticos e curiosos. E o frio, que convida a um vinho ou a um chocolate quente depois das sessões, dá aquele ar de confraternização que só Gramado tem.

Foi nesse cenário que vivi o Festival de 2025, a 53ª edição. E posso dizer que poucas vezes vi uma abertura tão emocionante. Logo na primeira noite, Rodrigo Santoro foi homenageado com o Kikito de Cristal, reconhecimento à sua carreira internacional. E, como se não bastasse, o filme estrelado por ele, O Último Azul, foi exibido em seguida. 

Outras homenagens importantes marcaram o ano: Mariza Leão, produtora que moldou parte do cinema nacional das últimas décadas, levou o Troféu Eduardo Abelin, enquanto Marcélia Cartaxo, nossa eterna Macabéa de A Hora da Estrela, foi a grande homenageada com o Troféu Oscarito. Ver Marcélia emocionada no palco foi como assistir à própria história do cinema nordestino sendo celebrada.

Na competição, a variedade chamou atenção. Entre os longas estavam A Natureza das Coisas Invisíveis, Cinco Tipos de Medo, Nó, Papagaios, Querido Mundo e Sonhar com Leões. 

Outro destaque de 2025 foi a ponte com o cinema francês. Depois da Mostra Gramado em Paris, que exibiu títulos brasileiros consagrados na capital francesa, o festival dedicou um dia especial ao cinema da França. Essa troca deixou claro o papel de Gramado como um festival que não apenas premia, mas cria diálogos culturais.

E aqui volto ao meu lado pessoal. Estar lá, no primeiro dia, foi algo que vou carregar pra sempre. Vi a cidade tomada por gente de todas as idades, ouvi debates apaixonados nas mesas de bar e senti aquela energia de quem sabe que está fazendo parte de algo maior. No Palácio dos Festivais, quando as luzes se apagaram e a tela se acendeu, senti um arrepio. Era como se cada frame exibido fosse também uma página da história que começou em 1973 e segue viva, pulsante, reescrita a cada ano.

E nessa festa, tem um convidado de honra que é o grande astro, o objeto de desejo de todo cineasta brasileiro: o Kikito. Essa estatueta de 34 centímetros de altura, com seu sorriso maroto, não é apenas um troféu. É um símbolo. A história por trás dele é tão fascinante quanto a de qualquer grande filme.

A figura foi criada pela artista plástica Elisabeth Rosenfeld, mas foi seu marido, Francisco, quem a batizou. Ele a viu brincando com a peça e, em um momento de carinho, a chamou de “Kikito”, uma palavra em alemão para “filho pequeno”. O nome pegou, e a estatueta, que pesa cerca de 2,2 kg, se tornou o prêmio máximo. A cada ano, uma nova estatueta é produzida em bronze, tornando cada uma única. E a curiosidade mais legal é que, no início, em 1973, o Kikito não era o prêmio principal. Ele era um troféu simbólico, mas sua beleza e carisma eram tão grandes que, a partir de 1975, ele se tornou a consagração máxima do festival.

E claro, lá tem o passeio no Palácio do Kikito, museu em homenagem ao festival, custa R$20,00 por adulto. Super acessível.

Saí de Gramado com a sensação de que o festival não é apenas sobre filmes, mas sobre pessoas. É sobre a paixão coletiva por contar histórias. Conseguir acompanhar de perto o primeiro dia, e apesar de não ter conseguido acompanhar todo aquele glamour, conseguir ver de perto um pouco do principal festival de cinema do Brasil.

E eu tive o privilégio de estar lá, de viver isso no primeiro dia, de sentir a alma do nosso cinema bater mais forte naquela serra fria. Para quem ama a sétima arte como eu, não há experiência mais bonita, e acredite, é mais acessível do que você imagina.

Para saber mais: https://festivaldecinemadegramado.com/

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TAGS:Cinemacolunacoluna gabriel candidogabriel candidogramado
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ByGabriel Candido
Publicitário, pós-graduado em Comunicação e Marketing Digital. No mercado publicitário desde 2012, atuando em agências de propaganda. Além da experiência na equipe de Marketing em emissoras de televisão. Gabriel se inspirou em seu primeiro emprego, em uma locadora de vídeos, para escrever e compartilhar uma coluna sobre filmes e séries. Afinal, ele tinha que fazer alguma coisa com o seu antigo sonho de se tornar um Tarantino aos 30 anos. Linktree: linktr.ee/gabrielhcandido
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